Música

Clarice Falcão: “Os Santos Populares em Lisboa foram dos dias mais lindos da minha vida”

A NiT entrevistou a música, atriz e comediante brasileira que se prepara para regressar a Portugal para fazer dois concertos.
A artista brasileira regressa a Portugal.

Clarice Falcão está de volta a Portugal para dois concertos. A música, guionista, atriz e comediante brasileira — que se tornou reconhecida como parte do coletivo Porta dos Fundos — vai apresentar as cançoesdos seus três discos, mas também temas novos do próximo álbum.

O primeiro espetáculo acontece no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, a 16 de junho. No dia seguinte, Clarice Falcão atua no Capitólio, em Lisboa. Os bilhetes para o Porto estão à venda entre os 20€ e os 30€, enquanto para a capital custam 30€.

Aos 32 anos, Clarice Falcão conta na sua discografia com os álbuns “Monomania” (2013), “Problema Meu” (2016) e “Tem Conserto” (2019). Segue-se um quarto disco de originais, que ainda está a ser finalizado. A NiT falou com a artista brasileira — e abordámos também a série que terá em breve na Amazon Prime Video, “Eleita”. Leia a entrevista à NiT.

Como antevê o regresso a Portugal para dois espetáculos?
Estou muito animada, foi um banho de água fria porque antes da pandemia começar tínhamos datas marcadas em Portugal. Estava muito ansiosa, queria matar saudades. E agora, poder voltar assim, de repente, sem estar à espera, caramba… Estou muito feliz, mesmo.

De que é que mais gosta?
Portugal é muito lindo, não é? Só conhecia Lisboa e da última vez que fui atuei no Porto também. Tem uma alegria… Identifico muito que tem algo do Brasil porque tem uma alegria nas ruas, nas pessoas. É diferente de outras cidades da Europa, em que tudo é muito lindo, mas às vezes tem alguma melancolia. Da última vez que fui, por acaso estava em Lisboa no dia 12, as festas dos Santos Populares, e foi um dos dias mais lindos da minha vida. Sou muito fã do Carnaval aqui, vou a todos, fico doidona, mas não achei que fosse ficar tão apaixonada por outra festa popular. Fiquei muito, muito apaixonada. É diferente porque os Santos tomam mesmo as ruas.

E curiosamente agora também volta em junho.
Pois é, estou muito ansiosa, foi uma coincidência. Desta vez quero um chapéuzinho de sardinha, porque da outra vez não tinha um, cheguei de surpresa, mas comi muito pão com sardinha e foi muito bom. 

Vem apresentar temas dos seus discos anteriores, mas também do próximo álbum?
Sim, a minha vontade é fazer um concerto bem completo. Aqui no Brasil fui fazendo concertos baseados no último disco. Mas como estou a morrer de saudades e sei que fiz poucos concertos aí e que o “Monomania” e o próprio “Problema Meu” disseram muito às pessoas daí, estou empolgada para fazer um concerto bem equilibrado. Tem um pouco de cada coisa.

O que pode contar sobre o novo álbum?
Estou a gostar muito de voltar a falar sobre amor. É uma das coisas de que falei muito no “Monomania”. Ele é todo sobre como ficas quando te apaixonas, como ficas idiota quando te apaixonas, é muito sobre o momento em que te apaixonas. O “Problema Meu” tem mais essa coisa de, quando o amor acaba e queres ser independente, tem música de vingança, de pé na bunda, de desapaixonamento. O “Tem Conserto”, o último que saiu, é uma outra vibe. É um disco muito mais sobre mim, sobre nos sentirmos mal, sobre ansiedade, também sobre festa, mas não é tanto sobre amor e relações. Fui-me afastando de alguma forma e depois entrei numa de falar sobre amor de novo — porque é um assunto que sempre amei. Sempre gostei de falar sobre ele desde pequena.

Existem diferenças na forma como aborda o tema nos dois casos. Quais são?
A gente vai crescendo, não é? O “Monomania” é mais sobre o primeiro amor e há coisas que nunca se repetem, mesmo de uma ingenuidade, de aquilo ser a coisa mais importante da tua vida, porque é o primeiro. Mas o segundo, o terceiro ou o quarto amor também vão trazendo uns conhecimentos doidos. Às vezes há até mais espaço para brincares e descobrires coisas, porque uma pessoa também já se conhece melhor. Faz com que estejas numa relação de outra forma, sabendo o que queres. Isto tudo vai refletir-se nas letras. Vamos racionalizando, mas é óbvio que no fim das contas dizemos o que sai. Eu, pelo menos, quando vou compor, é muito assim. Vem a ideia, a vontade de falar sobre aquilo, e nem penso muito. Mas claro que quase dez anos depois, nota-se esse crescimento.

Quando escreve canções, especialmente sobre um tema como este, normalmente é uma escrita mais autobiográfica, ou também tem muita imaginação, emoções inventadas e recriadas? Como é que costuma funcionar?
É uma bagunça [risos]. Muitas vezes vem de alguma coisa que vivi ou que vi alguém viver — ou como pensei que poderia ser se eu vivesse. Mas, depois, quando a música vai ganhando forma, parece que ela tem uma vida própria. No “Monomania”, quando vinha uma ideia, a graça era levá-la até às últimas consequências. Até terminar com as pessoas a mandarem-se da janela ou assassinando a outra [risos]. Aí foi tudo da minha cabeça, porque realmente ainda não tive a oportunidade de assassinar ninguém. Mas é muito isso: uma mistura de verdade com fantasia.

Em termos sonoros, este novo disco tem alguma coisa particularmente diferente?
Ainda está a ser feito… Já tenho a maioria das composições, tenho suficientes para fazer um disco, mas ele ainda não está pronto. No Lollapalooza só deu tempo para cantar uma música nova. Mas no Rio [de Janeiro] fiz até uma votação para se escolher que canções ia cantar. E vamos fazendo isso para sentir a temperatura, tocar e mudar alguma coisa, então ainda está tudo em aberto.

O que pode contar sobre essas novas canções?
São bem autobiográficas. A minha ideia para Portugal é cantar umas quatro novas, por aí — as que já cantei no Brasil e uma inédita só para vocês. A que vou cantar para vocês acho que talvez seja a mais triste, é uma canção de adeus, de saudade.

O período da pandemia também influenciou este disco, ou nem por isso?
Não sei se influenciou no sentido temático, mas influenciou na forma como fui fazendo, o facto de ter tido muito tempo para compor. Não estava a sair, como toda a gente, e começas a ter de aceder a outros lugares. Porque quando estás a viver, tens esse material diário. Escutas uma frase ali que te interessa e que te faz pensar sobre uma coisa, tens uma conversa com um amigo e de repente aquele tema entra na tua cabeça e faz-te ter uma ideia que depois vai originar outra. E na pandemia foi muito difícil para mim, criativamente, por causa disso. Porque, por um lado, tinha todo o tempo do mundo, podia ficar o dia inteiro a criar. Mas é como se tivesses um grande painel e tivesses todo o tempo do mundo para fazer um mural, mas não tinhas tintas. Vou fazer com o quê? Qual é o material? Foi um processo até de aceder às memórias, de ver uma coisa que já aconteceu mas com os olhos de agora, foi algo diferente.

Tornou-se bastante reconhecida como parte do coletivo Porta dos Fundos, com um trabalho na área do humor. É algo que tenta separar da música, como se fossem duas dimensões da mesma pessoa e artista, ou nem por isso?
Estão conectadas. Inclusive a minha sonoridade como música foi mudando muito, mas acho que aquilo que atravessa os meus discos todos é o falar de uma forma bem-humorada. Pegar às vezes até nalguns assuntos que já foram muito discutidos, falados… Não tem necessariamente de ser engraçado, mas é preciso dar uma volta. Continua a ser uma coisa que amo fazer. Acabei de participar num vídeo do Porta, de comemoração de dez anos, e passei o início deste ano a gravar uma série de humor minha para a Amazon Prime Video. Escrevi com o Célio Porto e sou a protagonista. São dois universos que tento, e às vezes não é fácil, carregar juntos — sem ficar doida [risos]. 

O que pode contar sobre essa série?
Chama-se “Eleita”, é uma comédia política, e foi algo que escrevemos durante três ou quatro anos. E esta maluquice de protagonizar, escrever, foi bem intenso. Nunca fiz um projeto tão meu. Agora estamos a finalizar… Passa-se num futuro bem próximo e é sobre uma menina que é completamente sem noção e que se candidata a governadora do Rio de Janeiro. E está toda a gente tão revoltada com tudo que ela ganha. Tipo voto de protesto. E, obviamente, ela é a pior governadora do mundo. Mas fala muito sobre isto que tem vindo a acontecer, de as pessoas quererem eleger políticos que não são políticos, uma descrença muito bizarra e aqui no Brasil tem havido coisas muito doidas… Desde o Tiririca, o comediante palhaço que foi eleito para um cargo. É um pouco um comentário sobre isso.

Vai estrear este ano?
Não está confirmado, mas espero que seja este ano. A gente vai ter, inclusive, eleições, não é?

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