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Como Ariana Grande sobreviveu ao pior ano da sua vida para chegar ao topo

Viu o namorado morrer quatro meses depois do fim da relação e esteve no meio de um ataque terrorista. Agora, lança o sexto disco.
Ultrapassou tudo para chegar ao topo

Era um dos melhores anos da vida da cantora. Tinha acabado de lançar o seu disco mais bem-sucedido, a longa digressão americana tinha terminado e estava na altura de correr o mundo. A 22 de maio, passou pela cidade de Manchester, no Reino Unido, para mais um espetáculo. Assim que ouviu os últimos aplausos, ecoou um estrondo pela arena. Era mais um atentado terrorista.

O incidente traumático foi uma espécie de momento de viragem. Até então uma estrela pop como tantas outras, tornou-se numa ativista fanática: a favor de um maior controlo da venda e posse de armas nos Estados Unidos, defensora dos direitos LGBT e fervorosa crítica de Donald Trump.

Agora, ao sexto álbum de originais, é indiscutivelmente uma das artistas mais pretendidas do circuito pop — fez este ano colaborações com Justin Bieber e Lady Gaga. E com o recém-lançado “Positions”, junta-se a The Weeknd e Ty Dolla $ign.

Se 2020 está a ser um ano em cheio, não se pode dizer o mesmo daquele que foi, e ainda é hoje, o ano mais negro da vida de Ariana Grande. O que aconteceu nesses 12 meses deixou marcas profundas na sua personalidade.

“Adeus 2018 de merda”, escreveu nas redes sociais nas primeiras horas de 2019. Apesar de descrever o ano que acabava como um dos melhores para a sua carreira, foi também o pior a nível pessoal.

“Não digo isto para que tenham pena de mim. Digo isto porque muitos olham para onde estou agora — eleita como Mulher do Ano [nos prémios Billboard] e uma artista no seu pico — e pensam ‘Ela tem a vida toda em ordem’ (…) No que toca à minha vida pessoal, não faço puto de ideia do que estou a fazer. Só queria dizer a todos os que não sabem qual vai ser o próximo capítulo da sua vida que não estão sozinhos”, confessou no palco da gala Women In Music, em 2018.

A vida nem sempre foi complicada para a jovem de 27 anos que nasceu em Boca Raton, na Florida, nos Estados Unidos. A música é, para ela, muito mais do que uma forma de fazer dinheiro. Até porque nunca precisou dele.

Rica antes de ser famosa

Contrariamente a muitos outros músicos que têm que trabalhar arduamente para aperfeiçoar o talento — e um outro tanto para conseguirem pagar as contas difíceis de fazer quando se está a começar do zero —, Grande só teve que se preocupar em afinar a voz.

Os pais da artista são ambos profissionais bem-sucedidos e foram muito ativos nos primeiros anos da sua carreira. Ajudaram-na inclusivamente a garantir concertos em todos os locais possíveis, de orquestras a navios de cruzeiro e até a cantar o hino em jogos de futebol americano.

A mãe é Joan Grande, CEO da Hose-McCann Communications, uma empresa de comunicações que gere redes telefónicas e também de alarmes. Do outro lado, Edward Butera, dono de uma empresa de design gráfico que tem entre os seus clientes alguns artistas de renome: Eddie Murphy é o mais famoso.

No meio do terror

23 pessoas morreram na noite do ataque ao seu concerto em Manchester. Mais de 800 das 14 mil pessoas presentes ficaram feridas. Muitas delas crianças. O suicídio bombista — o mais grave no Reino Unido desde 2005 — deixou uma marca profunda na cidade, no país e, claro, em Ariana Grande.

A norte-americana regressou imediatamente a casa na Flórida. Com a digressão suspensa, o seu agente apressou-se a pedir-lhe uma reação. “Temos que fazer outro concerto e voltar ao ativo”, disse-lhe.

Ariana Grande achava que ele estava louco. “Não consigo voltar a cantar estas canções ou a vestir estes fatos. Não me ponham nessa posição”, respondeu. Tomou-se a decisão de cancelar o resto da digressão com um prejuízo de milhões.

A noite foi boa conselheira. Dias mais tarde, foi a própria quem entrou em contacto com o agente. Estava decidida a regressar em grande, apenas por um motivo: “Se não fizer nada, as pessoas morreram em vão”.

O regresso seria feito em palco, precisamente em Manchester, especialmente desenhado para acolher as famílias afetadas e todos os que quisessem aparecer. Meteram-se num avião e voaram para a cidade, onde fizeram questão de visitar algumas das vítimas.

O concerto de beneficiência, entrada gratuita e sem cachê para os artistas — ao lado de Grande surgiram nomes como Coldplay, Katy Perry e Justin Bieber — era um risco, porque decorria poucas semanas após o trágico acidente. Temia-se que o medo pudesse impedir a multidão de sair à rua.

Mais de 50 mil pessoas fizeram questão de participar no One Love Manchester, que foi transmitido em direto para todo o mundo e ajudou a angariar mais de 12 milhões de euros para o apoio às vítimas do atentado. Ariana Grande foi declarada cidadã honorária da cidade.

A digressão foi mesmo retomada. Uma semana depois, Grande passava por Lisboa e atuaria durante mais três meses, em espetáculos que foram da Ásia à Oceânia.

“Pusemos-lhe demasiado peso nos ombros, e ela foi capaz de aguentar”, explicou o agente Scott Braun.

“Há tanta gente que sofreu com a perda e a dor. Processar tudo isso vai demorar uma eternidade (…) É por isso que dei o meu melhor para reagir com reagi. A última coisa que queria era que os meus fãs vissem que algo tão mau aconteceu e que foi capaz de vencer. A música devia ser a coisa mais segura do mundo. É por isso que isto ainda pesa tanto no meu coração, todos os dias”, confessou em 2019.

A abelha, que tem sido um símbolo de Manchester, acabou por se tornar numa marca de resistência ao atentado. Muitos moradores e sobreviventes decidiram tatuá-la na pele. Ariana foi uma delas.

A relação traumática

Tinham mais ou menos a mesma idade. Ariana Grande e Mac Miller conheceram-se no início de carreira, quando ela preparava o seu primeiro disco. Em “Yours Truly”, destacava-se o single “The Way”, com participação especial do rapper de Pittsburgh.

Entre tweets e colaborações, a relação foi finalmente assumida em 2016. Mas, como em todos os romances famosos, houve contratempos. O maior? A luta constante do músico com a dependência das drogas.

A relação que Grande viria mais tarde a apelidar de “tóxica” chegou ao fim em 2018, depois de meses duros marcados também pelo atentado de Manchester.

Com uma relação tão pública e uma multidão de fãs absolutamente fanáticos, qualquer notícia provocava um tsunami. Foi o que aconteceu quando Mac Miller foi detido a conduzir embriagado, com muitos dedos apontados a Ariana Grande, vista como a grande culpada por ter terminado a relação.

“Vamos parar de culpar as mulheres pela incapacidade dos homens em lidarem com problemas graves. Por favor, vamos parar com isso”, escreveu nas redes sociais.

Mac Miller morreu quatro meses após o fim da relação

Haveria mais tarde de comentar a sua reação, até porque nunca falava sobre a vida privada em público. “As pessoas não sabem o que se passa realmente. Não fazem ideia de quantas vezes o avisei do que podia acontecer, do quanto lutei”, confessou à “Vogue”.

O cenário tornou-se ainda mais negro quando, apenas quatro meses depois do fim da relação, o rapper foi encontrado morto. A causa de morte: uma overdose acidental.

Os meses que se seguiram foram difíceis. Refugiou-se no estúdio, o único local de conforto, e revelou mais tarde que todos esses dias se tornaram numa espécie de mancha cinzenta: “Sendo completamente honesta, não me lembro desses meses da minha vida porque estava tão bêbada e tão triste”.

“Ele era a melhor pessoa de sempre e não merecia ser atormentado por tantos demónios. Fui a cola dele durante tanto tempo, mas reparei que aos poucos fui perdendo a capacidade de o manter de pé. As peças começaram a flutuar.”

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