Com as datas dos concertos de Bad Bunny em Lisboa a aproximarem-se, a corrida aos bilhetes revendidos em plataformas online ou grupos em redes sociais é intensa. Os dois espetáculos do cantor no Estádio da Luz, nos dias 26 e 27 de maio, esgotaram em poucas horas assim que as bilheteiras abriram no início de maio de 2025. Na altura, ainda não tinha certeza se poderia ir, por isso decidi não entrar na loucura das filas de espera online.
Durante mais de um ano fui vendo, de vez em quando, anúncios de revenda na Ticketswap, publicações em grupos de Facebook e pessoas a tentar vender bilhetes por valores absurdos. Mas nunca levei muito a sério. Até porque, quanto mais o concerto se aproximava, mais evidente ficava a quantidade de burlas associadas a este tipo de eventos.
Só que depois chegou aquela fase perigosa: a semana antes do concerto. De repente parecia que toda a gente tinha um bilhete para vender. Os grupos dedicados ao concerto começaram a crescer, as notificações da app Ticketswap estavam constantemente a anunciar novas pessoas a vender bilhetes e eu voltei a convencer-me de que talvez ainda fosse possível.
Foi aí que entrei num grupo de Facebook chamado “Bad Bunny – Lisbon Portugal – DMTF 2026”. Fiz uma publicação simples: “Procuro bilhete para o concerto do Bad Bunny, dia 26 de maio, plateia em pé”. Os comentários começaram a aparecer quase imediatamente. Pessoas a vender bilhetes para as duas datas, outras a dizer que tinham amigos interessados, outras ainda a pedir mensagens privadas.
No meio disso tudo, recebo uma mensagem de um homem chamado César Pires. Dizia ter exatamente aquilo que eu procurava: dois bilhetes para dia 26, na zona de plateia em pé, a 100€. Claro que desconfiei. Hoje em dia, ninguém entra nestas coisas completamente descansado. Fiz perguntas, pedi provas, tentei perceber se aquilo fazia sentido. Ele respondeu sempre rapidamente. Mandou uma fotografia do bilhete. Explicou que já não conseguia ir ao concerto porque vivia na Suíça e teve que regressar mais cedo do que esperava, daí o motivo da venda dos bilhetes. E depois começou com o tipo de conversa que, olhando agora para trás, percebo que fazia parte do esquema.
Como mostrei alguma desconfiança, disse-me que era “um homem de família”. Garantiu várias vezes que não precisava de enganar ninguém porque tinha “um bom trabalho e comida na mesa”. Quanto mais falava, mais tentava passar uma imagem de pessoa séria, normal e confiável. E honestamente? Resultou.
Acabámos por chegar a um acordo que me pareceu seguro: eu enviava 50€ naquele momento e os restantes 50€ apenas no dia do concerto, depois de garantir a entrada no recinto. Parecia razoável, e agora pensando bem, até demasiado bom para ser verdade.
Depois, recebi o pedido de pagamento no MB Way. O nome associado era “EUPAGO – INST PAG LDA”. Achei estranho e fui imediatamente pesquisar o que era aquilo. Na Internet, a informação explicava que a Eupago é “uma instituição de pagamento autorizada pelo Banco de Portugal” e que estes pedidos aparecem associados a empresas e comerciantes que utilizam a plataforma, isso acabou por me tranquilizar. Pensei que, se existia uma entidade oficial associada ao pagamento, provavelmente não seria burla.
Autorizei os 50€. Foi me dito que o bilhete seria enviado assim que o pagamento fosse feito e nada aconteceu. Segundos depois, fui bloqueada. As mensagens já não eram enviadas, o perfil deixou de existir para mim, os comentários foram apagados e qualquer interação que tínhamos tido evaporou completamente. Foi tudo tão rápido que durante alguns minutos ainda fiquei a tentar convencer-me de que devia existir uma explicação lógica. Mas não existia. Tinha acabado de ser burlada. Assim que me apercebi do que tinha acontecido, denunciei o perfil por fraude/burla, bloqueei-o e apaguei o post que tinha feito no grupo.
O mais frustrante nem foi perder o dinheiro, foi a sensação horrível de perceber que basta alguém saber exatamente o que dizer para ganhar a confiança de outra pessoa. Basta perceber o entusiasmo, a ansiedade e até o desespero de quem quer muito ir a um concerto para criar uma história suficientemente convincente.
Há qualquer coisa de particularmente triste em perceber que nem num contexto destes conseguimos confiar nas pessoas. Estamos a falar de música, de concertos, de entusiasmo coletivo. E mesmo assim há quem veja nisso uma oportunidade perfeita para enganar desconhecidos sem qualquer tipo de escrúpulos.
A verdade é que a revenda de bilhetes se tornou um território quase impossível de navegar. A procura na Ticketswap tem sido muito superior à oferta, os grupos de Facebook multiplicam-se todos os dias e, no meio de tanta gente genuinamente à procura de um bilhete, aparecem cada vez mais esquemas deste género.
No meu caso foram 50€, noutras situações são centenas. E se esta história servir para alguma coisa, espero pelo menos que faça alguém pensar duas vezes antes de enviar dinheiro a desconhecidos online — mesmo quando parecem extremamente simpáticos, credíveis e até honestos.
Carregue na galeria para ver as mensagens enviadas pelo burlão.








