Música

Como Jay-Z e Beyoncé “forçaram” a filha Blue Ivy a ter sucesso

O seu nome foi registado nos tribunais pelos pais e esteve sempre na linha da frente das câmaras. A fama era inevitável.
Surge sempre ao lado dos pais nas cerimónias

Deveria ter sido só mais uma atuação de Beyoncé em mais uma edição dos MTV Video Music Awards. Mas, como já todos deveriam saber, as suas performances nunca são apenas isso mesmo. No final do tema “Love On Top”, a cantora parou, desapertou o blazer brilhante e exibiu a pequena barriga. Era feito o anúncio com toda a pompa. Na plateia, Kanye West abraçava o pai, o não menos famoso Jay-Z.

O anúncio recebeu a pompa necessária para a dimensão do acontecimento: à falta de uma verdadeira família real, na América, os artistas e celebridades são, eles próprios, a realeza. E vinha aí mais um herdeiro ou herdeira ao trono.

Nove anos depois, a profecia concretizou-se. A filha de Beyoncé e Jay-Z conquistou o prémio com o qual apenas alguns músicos podem sonhar. Alguns trabalham uma vida inteira para poder tocar-lhe — outros precisam apenas de uma boa tentativa.

Blue Ivy tornou-se na segunda mais jovem a conquistar um Grammy — o recorde pertence a Leah Peasall, que o fez com oito anos, em 2001 — na cerimónia desta segunda-feira, 15 de março. A herdeira de Beyoncé foi consagrada como uma das autoras do videoclipe “Brown Skin Girl”, que venceu na categoria de Melhor Vídeo de Música.

Desde que nasceu, a 7 de janeiro de 2012, que Blue Ivy é tudo menos uma miúda como as outras. É certo que nunca o seria, sendo filha de quem é. Mas mesmo que Ivy não quisesse a fama, os pais teriam a última palavra. É uma espécie de caso de celebridade à força.

Apenas dois dias depois do nascimento, a revista “Time” elegia-a como a “bebé mais famosa do mundo”. A “princesa da pop”, reclamava a “Rolling Stone”. Ainda mal abria os olhos e já era estrela num dos novos temas do pai, que quis usar o seu choro de recém-nascida no tema “Glory” — tema que detalha a alegria de ser pai e de trágicos episódios de abortos espontâneos.

Com apenas 48 horas de vida, tornou-se na pessoa mais nova a brilhar num tema que ascendeu à Billboard. Seria apenas o início.

Mais do que uma filha, o casal via em Blue Ivy uma poderosa máquina. Os seus advogados prepararam o terreno e começaram a registar os direitos do seu nome um pouco por todas as áreas de negócio possíveis e imaginárias.

A ambição esbarrou numa pequena empresa de organização de eventos do Massachusetts, quando os responsáveis perceberam que a tentativa de garantir os direitos de propriedade intelectual os obrigaria a mudar o nome do seu negócio. Veronica Morales criou a Blue Ivy Events antes do nascimento da filha de Jay-Z e Beyoncé, mas isso não impediu o casal de tentar garantir os direitos. Fê-lo, aliás, no mundo dos livros, dos champôs ou dos videojogos, relata a “Law and Crime”, citada pela “Complex”.

Jay-Z, rapper e empreendedor, defendera-se das acusações em 2013, tinha a filha apenas um ano. “As pessoas queriam fazer produtos com inspiração no nome da nossa filha e tu não queres que outros se aproveitem do nome da tua bebé (…) Incomoda-me que não existam limites. Venho das ruas e até nas situações mais horríveis, tínhamos linhas: não envolvíamos crianças ou mães. Havia respeito”, explicou à “Vanity Fair”. “Como é que alguém pensa: esta pessoa tem um filho e eu vou fazer um carrinho com o nome dela. Onde está a humanidade?”

As batalhas legais prosseguiram, sobretudo na frente com a Blue Ivy Events de Morales. Os advogados de Beyoncé e Jay-Z alegaram que a sua filha era ja “um ícone cultural”, descrita como “uma mini estrela do estilo”, enaltecida pelos seus “momentos de moda”. “A sua vida e atividades são acompanhadas de perto pelo público e pela comunicação social”, alegaram.

No palco dos VMA com os pais

A tentativa de Morales em impedir o registo da marca por Beyoncé falhou e o tribunal deu razão à artista. “A oposição, que reclama que os consumidores poderão ficar confusos quando deparados com uma empresa de organização de eventos e Blue Ivy Carter, filha de dois dos mais famosos artistas do mundo, é frívola e deve ser recusada por inteiro.”

Em menos de uma década, o historial da criança está repleto de coisas pouco comuns na vida de uma criança. Em 2012, por exemplo, a cidade croata de Hvar elegeu-a como cidadã honorária da localidade. Tudo porque os pais visitaram a cidade antes do seu nascimento — e, alegadamente, Beyoncé terá colocado em cima da mesa a hipótese de a batizar como Blue Ivy.

Apesar de não ter contas oficiais nas redes sociais, é estrela recorrente nas dos pais e da família. Em 2013, Beyoncé revelou que queria que a sua filha vivesse as experiências de uma criança normal, que pudesse “correr por aspersores de água e ter festas de pijama”, participar em “visitas de estudo e criar bancas para vender limonada”. “Isso é muito importante para mim”, frisou na entrevista de 2013 à “Vogue”.

A verdade é que, aparentemente, o casal pouco resguardar a criança da atenção mediática. Pelo contrário: a atenção era procurada, ou não fosse Blue Ivy presença regular nos vídeos, temas e discos dos pais.

Com apenas dois anos, acompanhou Jay-Z ao palco dos MTV Video Music Awards para anunciar um dos vencedores. A presença tornou-se rotineira e regressou em 2016 em grande estilo: na indumentária trazia um vestido de princesa desenhado por Mischka Aoki e avaliado em cerca de 10 mil euros; nos pés, um par de sapatilhas Giuseppe Zanotti de mais de 500 euros.

O outfit nos MTV VMA de 2016

2020 seria, contudo, o ano da sua explosão. A pequena participação em “Brown Skin Girl” valeu-lhe, ainda antes do Grammy, pelo menos três prémios — e consagrou-se como a mais jovem a vencer um BET Award.

E longe do mundo da música, Blue Ivy estreou-se como narradora de “Hair Love”, o pequeno livro de Matthew A. Cherry que conta a luta de um pai afro-americano que tenta aprender a pentear o cabelo da filha pela primeira vez. Houve até quem afirmasse que a proeza poderia levar Ivy à disputa pelo Grammy de spoken word.

A exposição excessiva tem, claro, os seus problemas. Em 2019, Beyoncé anunciou o lançamento de uma de roupa desportiva e de lazer, a Ivy Park. Ivy, da parte da filha, Park de Parkwood Park, o local onde a artista costumava treinar.

A marca haveria de conduzir a um projeto colaborativo com a Adidas — mas também a pesadas críticas na imprensa. Logo após o lançamento, o “The Sun” revelou que muitas das peças da Ivy Park eram feitas em fábricas no Sri Lanka com recurso a trabalho forçado e mal pago: receberiam cerca de 0,5€ por hora de trabalho; as peças eram depois vendidas acima dos 200€. No meio de toda esta polémica pairava o nome da filha.

O efeito Blue Ivy deve repetir-se. Em fevereiro de 2017, Beyoncé revelou uma nova gravidez no Instagram: vinham aí gémeos. A publicação bateu a barreira dos seis milhões de likes em apenas oito horas, para se tornar no post com mais gostos na história da rede social. Um prefácio lógico para as novas vidas de Rumi e Sir, que vão fazer companhia a Blue Ivy no posto de herdeiros da realeza americana. E, quem sabe, bater o recorde da irmã na próxima cerimónia dos Grammy.

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