Música

Como nasceu o festival inédito que vai ocupar a Lagoa das Sete Cidades, nos Açores?

Os Black Eyed Peas são uns dos cabeças de cartaz — que conta com Sting e os Queen como participantes. Falámos com o organizador.
A Lagoa das Sete Cidades será o palco.

Chama-se Atlantis Concert for Earth e trata-se de um festival de música inédito que se prepara para ocupar a icónica Lagoa das Sete Cidades, na ilha açoreana de São Miguel, a 22 e 23 de julho. O objetivo é angariar dinheiro para doar a organizações ambientais de vários países — e a ideia está a ser preparada há mais de 10 anos por Nuno Bettencourt, músico luso-americano que pertence à banda Extreme.

Nuno Bettencourt estava no arquipélago onde nasceu em 1966 — antes de emigrar com a família com apenas quatro anos — quando começou a desenvolver a ideia de fazer algo na Lagoa das Sete Cidades. 

“É um dos meus sítios favoritos desde que sou miúdo. Lembro-me de olhar para a lagoa e dizer a um amigo: conseguias imaginar um Woodstock aqui? Algo realmente incrível e importante. Isto já foi há 17 anos”, explica o artista à NiT. “E depois pensei: a última coisa que a Europa precisa é de mais um festival de música, já há tantos.”

Com o tempo, esta ideia vaga foi ganhando um propósito. Nuno Bettencourt tornou-se mais atento em relação ao tema das alterações climáticas e da necessária proteção ambiental. Apesar de frisar que não é cientista, antes “alguém que desistiu do liceu”, diz que tentar tornar o planeta mais sustentável, olhando para esta necessidade como “algo realmente importante”, não pode ser visto como “caridade”.

“Se não tivermos o ar, a água e o solo em bom estado, não vamos cá estar para qualquer tipo de caridade. Nem sequer cá estaremos para sermos humanos, discutirmos e fazermos todas as coisas divertidas que fazemos. A família é a única coisa que todos temos em comum. Todos adoramos os nossos familiares e queremos que tenham o melhor, faríamos tudo por eles”, explica, apontando o dedo ao facto de a humanidade não estar a fazer o suficiente para salvar a casa que habita.

Nuno Bettencourt também critica a forma como o tema foi politizado e se tornou num assunto de acusação entre diferentes ideologias políticas. “Como é que fazemos a conversa sobre isto realmente acontecer? Enquanto humanos, sem política? Há coisas que podemos fazer enquanto indivíduos — por exemplo, comecei a conduzir um carro elétrico há um ano, também estou a aprender. Mas as grandes decisões não parecem estar a correr muito bem.”

A ideia de juntar várias estrelas da música num evento especial que ajudasse a causa surgiu destas inquietações. Nuno Bettencourt salienta, contudo, que o objetivo também é também contribuir para uma mudança de narrativa sobre o problema. “Não queremos fazer isto para nos sentirmos bem durante um dia, mas para tentar educar e encontrar soluções. Substituir a narrativa do medo, da culpa e da agressividade, e falar do positivismo e dar esperança às pessoas para que deixem de lado em quem votam. Vamos juntar-nos enquanto comunidade e falar sobre soluções. Acho que é uma ótima ideia pararmos de dizer a toda a gente como é que vão morrer. E começar a mostrar-lhes como é que todos vamos viver.”

Quando começou a idealizar um cartaz, sabia que queria um alinhamento eclético e com músicos de renome que pudessem gerar impacto e atrair pessoas. O Atlantis Concert for Earth vai receber concertos de Black Eyed Peas, Stone Temple Pilots, Bush, Pitbull, Nicole Scherzinger (que também será a apresentadora do evento), Mod Sun e Girlfriends. Além disso, haverá atuações virtuais dos Queen + Adam Lambert e de Sting.

“A primeira pessoa que abordei foi o Brian May, dos Queen. E disse-lhe: não quero que me faças um favor e faças um concerto ou contribuas. Quero que sejas um ser humano egoísta como todos nós somos e faças isto por ti próprio. Pelos teus miúdos, pelos teus amigos e família. Não façamos isto sobre salvar o planeta, ninguém vai salvar o planeta. É sobre tentar encontrar um equilíbrio com o planeta. E se estiveres numa mesa de família com toda a gente a gritar uns com os outros, nada vai ser resolvido. Quando tens muitos ativistas a gritar aos políticos e a manifestarem-se, qual foi a última vez que um amigo ou familiar gritou contigo e alguma coisa ficou feita? Sabemos que os problemas existem, que algumas pessoas estão em falta, mas já chega, isso não está a resolver nada. Temos que começar a conversar”, diz Nuno Bettencourt.

Ao mesmo tempo, explica que muitos artistas não aceitaram participar no Atlantis Concert for Earth — sendo um evento solidário, sem quaisquer lucros. Os bilhetes estão à venda por 25€. “Sabem o quão difícil foi convencer agentes e artistas, que quando tocam no NOS Alive ou no Rock in Rio recebem um milhão e meio de dólares por espetáculo? E houve imensos artistas que simpaticamente disseram que não, mas que de outra forma disseram ‘não me interessa que seja para o planeta’. E foram amigos, colegas, pessoas que conheço, heróis meus — e nalguns casos até me disseram que era eu o herói deles. ‘Posso enviar-te algo?’. Envio a ideia, e este artista grande não me diz nada. Deixa-me ligar-lhe. Ah, já não me está a atender as chamadas. E agora já não falo com ele há dois anos [risos].”

E acrescenta: “Grande parte das pessoas faz bons espetáculos no Instagram sobre o quanto querem saber no planeta. Nem sequer têm a coragem de dizer que não podem fazer ou que não é para eles. Foi a coisa mais dura para mim. Mas também houve pessoas a dizer: ‘Vais organizar um concerto que nunca fizeste, num vulcão, e queres pôr o meu artista lá? Nem sabes se vai resultar?’ Mas temos estado a estudar isto há 10 anos, andamos a falar disto, tivemos equipas de produção nas estradas, na terra, para certificarmo-nos se conseguimos manter aquilo seguro e limpo. Todos os que estão no cartaz… Fico em lágrimas com o que estão a fazer, porque estão a assumir um risco, em algo que nunca foi feito”.

O músico conta que, assim que o anúncio foi feito, houve logo críticas sobre o facto de decorrer na Lagoa das Sete Cidades — apesar de não conhecerem todos os esforços e trabalho conjunto com diversas entidades para que tudo corra da melhor forma, sem prejudicar o local nem haver desperdício para o ambiente.

“No segundo em que anunciei isto, lá veio um político dizer que éramos cheios de merdas, que íamos fazer isto na Lagoa das Sete Cidades, que íamos destruir o sítio, que deveríamos fazer noutro local… Como se o impacto noutro sítio não fosse igual. O político nem sequer perguntou, nem quis saber como é que o vamos fazer, como ou porquê. Só quis atacar e isso foi perfeito — porque esse é o problema. O problema não é que as soluções não existam, o problema é que ele quer assegurar, para ganhos políticos, que vai atacar o que estamos a fazer. Se eu fizesse um concerto no mesmo sítio para celebrar uma festa popular de São Miguel com 30 mil pessoas na cratera, ninguém diria uma palavra. E seria para ter lucro. O rally acontece ali e ninguém diz nada. Mas se fosse Rally for Earth, já acusavam.”

A Atlantis Entertainment, produtora de Nuno Bettencourt, está a trabalhar com a entidade A Greener Festival, que já colaborou com os Coldplay ou Billie Eilish, para tornar as suas digressões e eventos mais amigos do ambiente. O recinto irá receber entre oito a 10 mil pessoas — todos os resíduos alimentares serão biodegradáveis e não haverá qualquer item de plástico, por exemplo, para servir bebidas. A organização também assegura que vai compensar as emissões de carbono.

Nuno Bettencourt tem 55 anos.

A ideia é que se torne num evento anual marcante, com cartazes recheados de músicos importantes, e sempre a contribuir para ajudar a Terra. “Isto não é um concerto para que nos sintamos bem, desliguemos as lâmpadas ou para darmos as mãos. É para educar e inspirar para os próximos 365 dias. Vamos começar um movimento enquanto comunidade. Não eu, isto não é o meu concerto. Nem sequer vou tocar. Não quero que ninguém pense que isto é uma plataforma para aprofundar a minha carreira porque os Extreme vão tocar, não, isso não vai acontecer.”

E acrescenta: “Claro que não é uma coincidência que aconteça nos Açores. Lisboa e o continente têm grandes coisas a acontecer lá, e seria mais fácil fazer noutro sítio, mas não seria incrível que na minha casa, de onde sou, houvesse algo realmente especial, que todo o mundo possa ver, algo que possamos criar juntos? É a minha terra-mãe”.

O objetivo era começar a produção logística há cerca de um ano, mas o processo foi bastante adiado por causa da pandemia — os preparativos no terreno, além dos estudos já conduzidos, foram iniciados em março.

“O planeta não pode esperar e nós também não queríamos esperar mais. Estou nervoso, de uma boa maneira, temos tantas pessoas boas de Portugal a ajudar-nos para fazer com que isto funcione. Temos um grupo pequeno dos EUA, mas a maioria é de Portugal. E toda a gente olhou para nós e perguntou: Vocês são malucos? E, sim, somos.”

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