Música

Como o amoroso Eric Clapton se tornou num negacionista odiado em todo o mundo

Entre discursos anti-vacinas e temas contra os confinamentos, o músico de 76 anos perdeu dezenas de amigos. E nem do rótulo de racista escapou.
O músico tem 76 anos

Conor Clapton tinha quatro anos quando, num acidente trágico, caiu da janela da casa de família em Nova Iorque, no 50.º andar de um edifício residencial. O pai, Eric Clapton, um dos mais prolíficos e talentosos músicos do planeta, exorcizou a dor com uma das suas mais famosas criações.

Com “Tears in Heaven”, que bateu recordes de vendas, o mundo comoveu-se com a dor de Clapton. Trinta anos depois, o mundo parece unir-se no ódio conjunto ao guitarrista que se estreou nos Yardbirds, explodiu nos Cream e cimentou a sua lenda a solo como um dos melhores do rock e do blues. Mas o que leva um herói a cair do altar e a tornar-se no alvo de tanta raiva?

O mais recente episódio a envolver o músico de 76 anos fez manchetes um pouco por todo o mundo, não só pela sua aparente insensibilidade, mas também pela caricatura que pinta de um dos mais bem-sucedidos artistas do seu tempo.

Tudo aconteceu quando uma mulher alemã se viu intimada em tribunal, depois de tentar vender na Internet, por cerca de 15€, uma cópia pirata de um disco de Clapton. A alemã de 55 anos foi condenada a pagar mais de cinco mil euros, sob ameaça de que se voltasse a tentar comercializar o álbum, incorreria numa multa de perto de 400 mil euros e em pena de prisão de seis meses.

“A Alemanha é um país onde a venda de cópias pirata é generalizada e isso fere a indústria e os clientes, devido à má qualidade e às gravações enganadoras”, notou o manager de Clapton, Michael Eaton.

Num volte-face que não convenceu os fãs, Clapton revelou esta quinta-feira, 23 de dezembro, que não iria ficar com o dinheiro que o tribunal decidiu cobrar à alemã. “Esta não é o tipo de pessoa que o Eric Clapton ou a sua editora têm como alvo”, revelaram num comunicado.

Esta batalha de David contra Golias está longe de ser a única mancha na imagem de Clapton, que aproveitou a pandemia para se revelar como um fervoroso negacionista. As teorias da conspiração debitadas ao longo dos últimos dois anos chocaram os fãs, mas sobretudo os amigos e antigos colegas do músico.

Ainda no verão, Clapton recusou dar concertos em salas de espetáculos que exigissem a apresentação de certificado de vacinação. Um par de meses antes, lançava-se num discurso público raivoso contra as vacinas.

“Tomei a primeira dose da vacina da AstraZeneca e sofri uma reação severa imediata que durou durante dez dias. Acabei por recuperar e foi-me dito que teria que tomar outra 12 semanas depois. Seis semanas depois, ofereceram-me a segunda toma e avancei, desta vez com mais conhecimento sobre os perigos”, escreveu.

“É escusado dizer que as reações foram desastrosas. As minhas mãos e pés ou estavam congelados, dormentes ou a arder. Ficaram inutilizados durante duas semanas. Temi nunca mais voltar a tocar — sofro de uma neuropatia periférica e nunca me devia sequer ter aproximado da agulha. Mas a propaganda disse que as vacinas eram seguras…

Uns fãs ficaram chocados, outros apressaram-se a recordar que os sintomas revelados por Clapton, além de não serem sequer semelhantes aos mais comuns — e revelados pela farmacêutica como resultado dos ensaios clínicos —, já tinham sido queixa do músico em 2013, que atribui então os efeitos a problemas neurológicos.

Por esta altura, o mundo conseguia prever que Clapton não era o maior fã da resposta à pandemia. No final de 2020, uniu-se a Van Morrisson para assinar um tema que se opunha ferozmente aos confinamentos.

“Queres ser um homem livre ou queres ser um escravo? Queres ouvir estas correntes até estares deitado na tua campa?”, rezava a letra de “Stand and Deliver”. Isto no meio de constantes comentários online e fora da Internet, onde o músico questionava tudo, de estudos científicos à opinião de especialistas, que classificava como “mera propaganda”.

Clapton parece resignado. Num podcast mostrou-se ciente de que a própria família e os amigos acham que é “um maluquinho”. “Durante os últimos anos, tenho assistido a muitos desaparecimentos, muitas pessoas a fugirem de forma rápida. Foi, para mim, uma forma de refinar o tipo de amizades que mantinha. Reduziu-se a um grupo de pessoas que obviamente amo e de quem preciso.”

Um dos amigos de longa data que decidiu cortar ligações foi Robert Cray, o músico de blues que se mostrou chocado com a escolha de Clapton misturar a escravatura e o confinamento no tema “Stand and Deliver”. Enviou-lhe um email para esclarecer o assunto.

“A reação dele foi dizer-me que se estava a referir aos escravos de Inglaterra”, conta. Clapton nunca se retratou e Cray deixou de responder, além de ter cancelado a sua aparição na digressão norte-americana do músico britânico. Nem isso impediu Clapton de voltar a lançar mais dois temas relacionados com o confinamento.

“Falei com outros músicos, velhos amigos, grandes artistas que não vou revelar quem são, mas todos dizem: ‘Que raio é que ele está a fazer?'”, confessa o produtor Russ Titelman, que trabalhou com Clapton no seu recordista disco “Unplugged”.

“Ninguém com quem eu tenha falado e que conheça o Eric tem uma resposta”, diz o baterista Jim Keltner, que conhece Clapton há mais de cinco décadas. “Estamos todos no mesmo barco. Ninguém consegue perceber o que se passa.”

A recente má fama do guitarrista britânico fez reacender outras controvérsias. A “Rolling Stone”, numa longa peça sobre a nova faceta negra do músico, recorda o polémico episódio protagonizado por Clapton em 1976.

Em cima do palco, visivelmente embriagado e sob a influência de drogas, Clapton decidiu envolver-se na campanha política e demonstrar publicamente o seu apoio a Enoch Powell, político de extrema-direita e fervoroso apoiante de leis anti-imigração. Sem que nada o fizesse prever, Clapton questionou a plateia se havia estrangeiros presentes.

“Não vos quero aqui, nesta sala ou no meu país”, atirou o músico. “Ouçam-me, acho que devíamos todos votar no Enoch Powell, ele é o nosso homem, ele tem razão: temos que os mandar todos embora.”

O discurso podia ter terminado por aqui, mas não. “Não deixem que a Grã-Bretanha de transforme numa colónia negra. Mandem embora os estrangeiros. Expulsem os escarumbas. Expulsem os pretos. Mantenham a Grã-Bretanha branca”, disse. “Antigamente curtia era droga, agora curto o racismo. É muito mais pesado.”

Clapton perdeu o rumo de vez. “Mandem embora os escarumbas, os pretos, os árabes, os cabrões dos jamaicanos. Não pertencem aqui, não os queremos aqui (…) O que é que nos está a acontecer?”

A braços com um problema de dependência do álcool e das drogas, esperava-se que Clapton percorresse todas as capelas a pedir perdão pelo desastre. Não o fez. As desculpas chegaram tímidas e a custo. Chegou mesmo a menorizar o discurso racista como “algo cómico”. “Não percebo muito de política. Nem sequer sei se seria bom ou mau que ele [Powell] ganhasse. Não sei quem é o primeiro-ministro. Não sei o que me deu naquela noite. Deve ter sido algo que aconteceu nesse dia, mas saiu assim de forma esquisita.”

Voltou a reafirmar não ser racista em 2004, mas manteve-se firme na opinião dada em 1976: as políticas de imigração de Powell estavam corretas e o político era “extremamente corajoso”.

“Tenho alguma vergonha de ter sido um pouco racista, o que não faz sentido. Metade dos meus amigos eram negros, namorei uma mulher negra e representei um género musical de negros”, explicou num documentário sobre a sua vida. “Não me estou a desculpar, foi algo horrível de se dizer”, notou, antes de voltar imediatamente atrás. “Até acho que foi algo cómico.”

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