Música

Como o maior publicitário português (e um dos melhores do mundo) se tornou músico

Hugo Veiga trabalhou para as grandes marcas mundiais, mas o seu sonho era lançar um álbum. Fê-lo aos 40 anos. Já o pode ouvir.
Hugo Veiga tem 40 anos e vive no Brasil há 15.

Coca-Cola, Burger King, Unicef, Dove, Kit Kat, Media Markt, General Motors, Nike, Motorola, Netflix, Tang, Nestlé, Mastercard, Allianz, Audi. O que têm em comum todas estas marcas? Todas passaram pelas mãos de Hugo Veiga, aquele que é considerado por muitos como o maior publicitário português. O criativo de 40 anos já arrecadou dezenas de prémios internacionais (incluindo o de Melhor Copywriter do Mundo no Cannes Lions) e foi distinguido pela revista “Time”.

Apesar de todo o sucesso que tem tido — com um percurso que faz com que seja atualmente um dos maiores responsáveis pela AKQA Brasil, país onde vive desde 2005 — há um momento da sua adolescência em que Hugo Veiga considera ter estado no seu “auge criativo”.

Com 16 anos, o adolescente da Maia era o vocalista de uma banda de grunge chamada Moda Foca. Nunca lançaram músicas a sério, eram uma banda de garagem, mas deram alguns concertos — o segundo foi o mais marcante. Aconteceu no Padaria Bar, perante uma plateia de cerca de 30 pessoas. “15 delas eram amigos, dez estavam bêbedos”, conta Hugo Veiga à NiT.

O que interessa é que foi uma sensação inigualável para aquele rapaz que estava em cima do palco e que passava seis horas por dia a ver MTV. “O palco era tão pequeno que fui para o meio da multidão — para mim aquilo era uma multidão. Nós tínhamos uma música que era muito a abrir, um ritmo bem pesado, e eu comecei a cantar lá no meio do mosh e o pessoal a moshar e um segurança a tentar proteger-me. Para mim aquilo foi o meu auge criativo, nunca me senti tão realizado como naquele momento. Foi um marco na minha vida, que guardo até hoje”, diz, com um sotaque portuense já com notórias influências brasileiras.

Apesar de serem uma “banda sem fãs nem talento”, uma “experimentação”, que viria a acabar dois anos depois (quando Hugo Veiga se mudou para Lisboa para estudar Publicidade e Marketing na Escola Superior de Comunicação Social), a paixão pela música persistiu. Daí estarmos agora a escrever este artigo e a contar esta história, poucos dias depois de ter sido lançado o primeiro álbum de Gohu, o nome artístico de Hugo Veiga. Mas já lá vamos.

Hugo Veiga sempre teve na criatividade a sua maior força, e apesar de a música ter ficado durante muito tempo em stand-by, desenvolveu outras expressões artísticas. Na faculdade, juntou-se ao grupo de teatro, onde seria colega do atual apresentador Pedro Fernandes, que estava a licenciar-se no mesmo curso e que se tornou um grande amigo.

Fez duas peças e certo dia Hugo Veiga foi com uns amigos a uma sessão dos Commedia à la Carte no Santiago Alquimista, também em Lisboa. Estava a ser organizado um campeonato de teatro de improvisação.

“O César Mourão veio à nossa mesa, perguntou se nos queríamos inscrever, nós dissemos que sim e nunca mais nos lembrámos daquilo. E um dia ligam-nos e dizem: vocês têm a primeira eliminatória na terça-feira. Fomos e acabámos por ganhar essa edição. Depois, participei com dois amigos — um deles era o Pedro Fernandes — e também ganhámos essa edição.”

O talento era notório e foram convidados para participarem como guionistas e atores dos sketches em “A Revolta dos Pastéis de Nata”, “Sempre em Pé” ou “5 Para a Meia-Noite” — tudo isto durante vários anos, enquanto Hugo Veiga já se tornava um publicitário de renome na sua área e até já tinha ido trabalhar para o Brasil.

Fez ainda dobragens para desenhos animados e em 2015 lançou um livro de contos chamado “Fricções” — que é relevante também porque marcou o seu regresso à música. Para acompanhar a edição do livro, compôs uma banda sonora de quatro temas. Só um deles acabou por sair, os outros ficaram na gaveta, mas o sonho de um dia lançar um álbum era antigo e ganhou uma nova vitalidade.

“No telemóvel tinha mais de 200 músicas que estavam no começo [risos]. Vinham-me à cabeça. Estava a tomar banho, a correr, a passear no parque, parava e gravava sons no telemóvel, uma melodia de voz a imitar um instrumento qualquer. Só que depois faltava o tempo para voltar a esses rascunhos para os transformar em música. E isso estava a pesar, não só na memória do telemóvel e computador, mas acima de tudo estava a pesar na alma. Meu, tenho que fazer qualquer coisa com isto. Sabes quando vais acumulando coisas no quarto e chega a um momento em que já quase não consegues andar? Estava a fazer-me mal, era uma coisa adiada de há muitos anos, tinha o sonho de lançar um álbum há muito tempo.”

E assim decidiu lançar o disco, “Terra da Faina”, já a pensar que o iria editar em 2020. Houve ainda outro motivo que o impulsionou para finalmente trabalhar num álbum seu. “A irmã de um amigo meu faleceu de cancro, ela era muito nova, fui ao hospital visitá-la e chegou a um momento em que comecei a pensar: se eu morresse agora, tirando a tristeza toda de deixar a família, de que é que me iria arrepender de não ter feito? ‘Tenho de fazer um álbum, não quero ter esse arrependimento no futuro.’ Já tinha umas músicas, comecei a trabalhar noutras e o processo foi andando.”

Hugo Veiga conta que as primeiras canções eram mais densas, dramáticas e musicalmente orgânicas. Depois, o produtor musical com quem estava a trabalhar, o brasileiro Emerson Martins, questionou-o se não queria experimentar algo um pouco mais pop, mais leve.

“E fiquei com isso. Como gosto de experimentar, como sou criativo, gosto de fazer coisas que são diferentes. E foi assim que nasceu o ‘Vai Ficar Fixe’, ‘A Santa Levantou a Saia’ ou ‘Olha eu Aqui’. Foram das últimas a serem feitas. Tinham uma coisa assim mais dançante, alegre.”

Hugo Veiga, que nos últimos anos ouve sobretudo música indie “mais calma”, deixou-se contagiar por instrumentais mais eletrónicos — também porque se tratavam de sonoridades que não conseguia produzir sozinho em casa, e agora tinha essa oportunidade — e começou a criar alguns dos temas que se tornaram mais icónicos neste álbum, com uma vertente quase satírica.

Gohu é mais ou menos “Hugo” ao contrário.

Curiosamente, o single “Vai Ficar Fixe” era para ser “Tá Tudo Fixe”, mas a pandemia trocou as voltas à canção — o que até foi algo positivo, segundo o autor. “Acho que foi uma coisa boa, teve outro significado para quem a escutou no contexto da pandemia. As pessoas estavam em casa há algum tempo, a maior parte das músicas era quase para cortar os pulsos, e esta foi de otimismo. Tirando isso, acho que foi importante lançar e fazer este álbum durante a pandemia porque tive quase um escape, uma bolha de felicidade de ter este projeto, que fiz em segurança e que me tem alimentado, que me permite viajar de outras formas.”

Para construir o álbum, Hugo Veiga ia registando melodias com o telemóvel para que o seu produtor construísse as músicas a partir das suas ideias. “É a coisa mais ridícula que possas imaginar, porque eu mando para ele: ‘pensei numa batida mais ou menos assim’, e começo a fazer o som com a boca. Metade do álbum é magia dele. Ele pega em grunhidos meus e concretiza-os.”

Hugo Veiga nunca estudou música, por isso foi sempre pedindo texturas ou sensações em relação à música que pretendia. “Ele é quase um tradutor de coisas que estão na minha cabeça e que consegue transformar em música real.” Na parte da criação, o artista explica que há pontos em comum, mas também diferenças, em relação à construção de uma publicidade.

“O destino final é igual, mas os processos são diferentes, porque os pontos de partida também são diferentes. O contexto de uma marca é totalmente diferente do contexto de uma música, até da liberdade. Num contexto de publicidade tens várias limitações, tens a mensagem que tem de ser transmitida, um budget específico, um público a quem te deves direcionar e tens de pensar dessa forma — e também de que forma é que uma comunicação de marca vai conseguir romper todo o ruído de comunicação existente. Com a música, é um processo mais livre. Mas ao mesmo tempo também tem de ser capaz de romper, porque há tanta música e tanta coisa boa, tem de trazer alguma coisa de novo. O destino final tem de ser algo que surpreenda, que seja novo, que te desperte a atenção. Ou te faz sentir algo que tu não sentias ou é uma mensagem que te diz muito, que te toca. E dessa forma consegues criar essa ligação com as pessoas.”

Ao contrário da publicidade, contudo, Hugo Veiga diz que na música tenta não pensar no que é que as outras pessoas vão pensar das suas criações. “É a pior coisa que pode existir, começares a pensar com a cabeça das outras. Deixas de ter critérios teus e perdes-te nessa busca pela aprovação de terceiros.”

Agora que o disco saiu — foi editado na sexta-feira, 13 de novembro — a grande pergunta pode ser: será que Hugo Veiga, o maior publicitário português, gostava de se tornar um músico profissional, por ventura a tempo inteiro?

“Se eu não gostasse da minha profissão como publicitário, talvez. É que eu amo a carreira de publicidade. Eu nunca fui tão feliz criativamente como sou agora na agência. Criativamente eu estou feliz na profissão. Só que a música é aquela paixão artística. De todas as expressões artísticas sempre foi aquela com que me relacionei diariamente… Eu não tenho essa pretensão de virar músico, mas lá está, o momento mais marcante da minha vida foi um concerto para 30 pessoas. Tentar recriar essas sensações é algo que quero. E quero continuar a produzir música. Eu não levo a vida a pensar que estou a fazer música para me tornar um artista de sucesso, não. Eu quero fazer música, em primeiro lugar para mim, para ir ao Spotify e ouvir, e é para os meus amigos. Como estou longe de Portugal, é uma forma de me manter ligado, até porque canto em português de Portugal e faço questão de usar expressões típicas, e essa conexão é através da música, é quase um presente que dou aos meus amigos, sei lá, se eles tiverem saudades podem-me ir escutar. Se me conseguir ligar a mais pessoas, fico super feliz, claro. Às vezes recebo tags de pessoas a dançar com as minhas músicas, é a melhor coisa que posso receber.”

A pandemia obrigou a que mudasse alguns planos e não conseguisse gravar todos os videoclips que queria — contudo, há um que está feito, para o tema “Monólogo Surdo”, e que poderá ser lançado em janeiro. O mesmo aconteceu com os concertos, algo que quer muito fazer, mas ainda só foi possível fazer uma pequena atuação num programa de televisão matinal da SIC. Em playback. “Apesar de a minha voz não ser boa, prefiro cantar ao vivo [risos]. Mas tenho um concerto marcado para um festival de verão em Braga [em 2021] e agora estou a tentar ter mais concertos em junho e julho, já que vou a Portugal.” No Brasil também quer fazer o mesmo, mas a indústria está igualmente parada.

Hugo Veiga vem a Portugal todos os anos, sobretudo à Maia, onde viveu dos seis aos 18 anos, e a Braga, onde vivem atualmente os pais e onde está toda a sua família materna. E também gosta, sempre que pode, de ir visitar os amigos em Lisboa, cidade onde também viveu e trabalhou antes de ir para o Brasil. Esteve por cá em agosto e setembro deste ano. “À medida que vou ficando mais velho vou ficando não só mais saudoso mas mais conectado com a minha família.”

Neste momento, de volta ao Brasil, com a aproximação da época festiva, antecipa uma segunda vaga da pandemia naquele país. Vai ter de esperar mais um pouco até voltar aos concertos. “Estares em palco a partilhar a tua música é uma sensação incrível, com o som ao vivo, vês as reações das pessoas diante dos teus olhos, os corpos a mexerem-se, é uma experiência única de conexão humana, de estares a partilhar algo que é muito íntimo e veres como isso impacta as pessoas.”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

Novos talentos

AGENDA NiT