Música

Como Sean Riley se fechou numa casa para fazer um disco com The Legendary Tigerman

“Andaluzia” é um novo EP, gravado em Espanha, que vai agora ser apresentado em Lisboa e no Porto. É o segundo trabalho da dupla.
Sean Riley é o líder dos Slowriders.

Afonso Rodrigues e Paulo Furtado são companheiros de música (e vida) há vários anos, desde que se conheceram em Coimbra há já bastante tempo. O primeiro é mais conhecido como Sean Riley, líder dos Slowriders e membro dos Keep Razors Sharp; enquanto o segundo forma a one man band The Legendary Tigerman, que se desdobra em múltiplos projetos. Juntos têm também a Casa Tigre, em Lisboa.

Em 2018 juntaram-se para uma road trip pela Califórnia que deu origem ao álbum com o mesmo título. Mais recentemente, a 10 de maio, a dupla reuniu-se para outro projeto, o EP “Andaluzia”, obviamente gravado no sul de Espanha. Sean Riley é o autor das canções, mas Tigerman é o responsável pela gravação, arranjos e demais produção.

O projeto vai ser apresentado nesta quinta-feira, 26 de maio, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. O concerto já está esgotado. A 2 de junho, o espetáculo de Sean Riley acontece no Passos Manuel, no Porto, com bilhetes ainda à venda por 10€. Leia a entrevista do músico com a NiT.

O novo disco, “Andaluzia”, é mais um resultado da sua relação de amizade e de trabalho com o Paulo Furtado. Quando e como é que se conheceram?
Há pouco tempo tivemos essa conversa entre os dois e não temos bem um momento definido [risos]. Eu a dada altura estava em Coimbra na universidade e estava na Rádio Universidade de Coimbra. Depois passo a ser diretor de programação, estou cada vez mais envolvido com as atividades da rádio, começámos a programar palcos de concertos para fora da rádio, para a Queima das Fitas, etc. E aí começa a minha proximidade ao Paulo. Mas acho que depois o momento de viragem em que deixamos de ser simplesmente conhecidos e passamos a ser amigos tem a ver com a altura em que damos o primeiro concerto de Sean Riley. O Paulo aparece nesse concerto super entusiasmado, na altura oferece-se para produzir o nosso primeiro disco, que ainda iríamos gravar. Ou seja, existiu uma primeira fase em que nos conhecemos na rádio, e depois outra em que nos tornamos mais amigos com a banda. Depois a nossa relação foi passando por vários patamares.

Como, por exemplo?
Há uma altura em que ele me convida para fazer uma versão de “Lights Out” em dois concertos de Wraygunn — na altura, salvo erro, na Aula Magna e no Teatro Sá da Bandeira. Esse convite acaba por resultar nos Slowriders abrirem uma tour de Wraygunn. Vamo-nos tornando cada vez mais próximos. Quando vim viver para Lisboa ele já cá estava e aí a nossa relação deu mais um salto e passou a uma proximidade muito maior. Atualmente temos uma relação de família, mais até do que só amizade.

Fizeram o “California” em 2018, quando estiveram lá. A ideia de fazerem esse disco — ou um álbum em conjunto — já tinha muito tempo?
Nesse momento em que fui viver para Lisboa, o Paulo estava-me sempre a desafiar para fazer um disco a solo. “Tu devias fazer um disco, gosto do teu registo de guitarra e voz”, que é uma coisa que existia mais no início de Slowriders. Ele tem um estúdio em casa e então estava-me sempre a dizer: “’bora articular isto, fazes um disco em minha casa, eu gravo, produzo, etc.” Mas aquilo foi andando e nunca evoluía, depois comecei com os Keep Razors Sharp, havia sempre outros projetos e nunca chegava o timing daquele disco. E há um dia em que estamos no 49, na Galeria Zé dos Bois, e ele a contar-me que conseguiu fechar o deal para gravar no Rancho De La Luna o álbum dele que viria a ser o “Misfit”. E fiquei super entusiasmado com aquilo. Era um sítio icónico e mítico pelo qual tinha um super fascínio. Então disse: “gostava muito de fazer parte disso, gostava pelo menos de passar lá, nem que seja no último dia de gravações para não interromper o vosso processo, mas pelo menos presenciar-te a gravar no rancho, era uma coisa histórica”. Então ele disse-me: “que tal vires e a seguir fazemos uma road trip?” Isso para mim era perfeito. E ele: “então olha, já que vamos fazer uma viagem trazes uma guitarra, eu levo uns microfones e gravamos o disco que nunca gravámos enquanto viajamos”. E foi assim, tão simples quanto isso.

Depois dessa experiência tiveram logo a ideia de partir para outros projetos semelhantes, mas noutros sítios?
Nós gostámos tanto dessa aventura e da forma como fizemos as coisas de forma pouco convencional — porque normalmente vamos para estúdio com um produtor, com um grande cenário, ensaios e tudo para fazer um disco, não é? Ali foi uma coisa muito imediata: guitarra, um microfone, hoje dormes em São Francisco, amanhã não sei onde e gravas aqui. Foi uma coisa pouco formatada, muito livre, imediata, muito de feeling e, acima de tudo, o foco era a experiência, a viagem, mais do que tecnicamente as canções estarem bem gravadas ou acabadas ou ensaiadas. A ideia era a aventura e poder passar a quem ouve um registo o mais próximo possível de uma demo quando acabas de escrever uma canção. 

Em que sentido?
Normalmente, quando acabas de escrever uma canção, gravas sempre, seja num iPhone ou no que for, um registo. O que acontece é que essas canções vão sendo aperfeiçoadas, até que muitas vezes vão dar a um sítio já muito distante daquilo que é a conceção original. A ideia era não dar muito tempo a isso: escreveste esta canção, vais gravá-la tal e qual ela te sai de imediato sem grande pensamento ou raciocínio e dar esse registo o mais cru e fiel possível. Tendo sempre em conta que a experiência era o mais importante para nós, obviamente que foi muito satisfatório chegar ao final daquele projeto. E ficámos logo com a semente de que no futuro poderíamos fazer outros projetos. Não tínhamos que necessariamente sermos só nós, não tinha que ser em viagem, mas algo que estivesse ligado a alguma deslocação, ires e gravares num sítio que não fosse um estúdio profissional. Essa ideia ficou, fomos falando e, depois, a dada altura tínhamos um intervalo temporal, também por causa da pandemia, que nos permitia fazê-lo e lancei o desafio: porque é que não aproveitamos agora para fazer uma parte dois do “California”? A ideia original era irmos para Tânger, em Marrocos. 

Porquê?
O primeiro disco estava muito ligado à beat generation, o facto de ser feito on the road, do percurso que fizemos, mas também, por exemplo, por termos incluído um excerto de um poema do Allen Ginsberg. Se calhar até há uma ligação à beat generation em muitas coisas que fazemos. Tânger também foi um ponto de passagem importantíssimo para a beat generation, porque não fazer a segunda parte deste projeto lá? Mas com a pandemia, complicações em Marrocos com as viagens, não se podia entrar de carro, os vistos, entrar com material… Falámos com algumas pessoas experientes em produzir em Marrocos, e aconselharam-nos a não o fazer. Então, next big thing: o sul de Espanha. O Furtado fez um levantamento de casas fixes ali à volta de Cádiz, e depois aquela em que ficámos até foi uma sugestão de outra pessoa, apaixonámo-nos por aquela casa em frente ao mar e pelo facto de ser uma antiga barraca de pescadores… Agarrámos no carro e conduzimos até lá.

Neste caso, não foi uma road trip, mas a experiência de estarem fechados naquele sítio, num ambiente diferente do vosso dia a dia. De que forma estar naquele local na Andaluzia o inspirou musicalmente?
O facto de termos ido para aquele sítio que é uma espécie de praia/colónia balnear mas em novembro, estar absolutamente deserto, estarmos em frente ao mar mas serem dias cinzentos, ventosos, com alguma chuva. Cada vez que colocávamos os fones, entrava pelos microfones o som do vento e do mar, essa proximidade com os elementos. Tudo isso ajudou um bocado à natureza contemplativa e melancólica do disco. Conduziu-nos um bocado nos arranjos e se calhar até nas minhas interpretações. Permitiu-nos estar relaxados, são músicas lentas. Todo o cenário à nossa volta, essa invasão da natureza à música, influiu imenso naquilo que fizemos. Aliás, acabámos por deliberadamente gravar o vento e o mar e incluí-los nas músicas.

Se o disco tivesse sido gravado, como suposto, em Tânger, seria completamente diferente.
De certeza. Quando fazes um disco destes, tem uma grande componente de interpretação live — ou seja, guitarra e voz gravadas ao mesmo tempo, num take. Esse take é sempre obviamente muito influenciado pela tua disposição, pelo teu estado de espírito, por como tu estás naquele momento. E obviamente que isso é afetado por tudo aquilo que está à tua volta, seja as pessoas, a arquitetura, a natureza, a temperatura. 

A parte da escrita é diferente?
É, sem dúvida, afetada pelo sítio onde estás e pela forma como te sentes, mas neste caso a maior parte da escrita — tanto aqui como no “California” — já estava feita. Tudo o que são estruturas das canções, acordes, letras, etc., já vão feitas. Metade da “Randomnly” foi escrita em Espanha, e talvez qualquer coisa da “One Day”. O resto já tinha uma progressão de acordes e uma letra. Os arranjos é que foram 100 por cento feitos lá pelo Furtado. O que acontece é que, mais uma vez, como isto são canções gravadas de uma forma muito livre, como não há um metrónomo e depende muito da interpretação, independentemente de a escrita estar mais ou menos alinhada, naquele momento a forma como interpretas a canção vai definir aquilo que a canção é. Há muitas formas de dizeres a mesma coisa apesar de estar escrita: o sítio onde quebras uma frase, a harmonia que dás no refrão, tudo isso é feito em função dessa tal disposição que tens naquele momento e tudo isso é, obviamente, muito variável.

Na Califórnia estavam em viagem, neste caso estavam mais fechados. Por causa disso, procuraram sair um pouco da bolha e terem outras experiências ali à volta que também vos ajudasse nesse imaginário no disco? Ou, pelo contrário, fizeram questão de ficar mais por aquele sítio?
A Califórnia, pelo próprio tipo de projeto que nos tínhamos proposto a fazer, obrigava-nos a conduzir 400, 500 ou 600 quilómetros dia sim, dia não. Aqui o propósito era um bocadinho diferente. Também tínhamos menos tempo, não existiam tantas coisas à volta que quiséssemos visitar, então a ideia era passarmos tempo juntos e podermos passar tempo isolados do resto do mundo, do nosso mundo habitual. Ali estávamos muito em contacto com a natureza, víamos a praia e o mar de casa. Circulávamos pouco dali. Vínhamos cá fora, fazíamos fotos e registos em vídeo, dávamos uns passeios a pé, mas basicamente o único momento do dia em que saíamos era à hora de jantar para ir a um restaurante comer qualquer coisa e voltar para a música. Não tivemos muita interação com outras pessoas ou espaços.

Está nos planos fazerem mais discos em conjunto, ligados a um sítio ou a uma viagem?
Não temos nenhum plano definido, não há nada escrito, mas há uma vontade. Aquilo que prevemos é que, enquanto nos mantivermos próximos e espero que seja para o resto da vida — e sendo a música uma das coisas mais importantes e presentes —, estou certo de que arranjaremos maneira de voltar a gravar qualquer coisa num sítio qualquer.

Talvez concretizar o tal disco em Tânger?
Talvez, mas temos um plano de voltar a atravessar o Atlântico. São coisas que demoram tempo, que precisam de muita preparação, mas, quem sabe, está tudo em aberto. 

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