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Cortar o cabelo, levantar ferro e cozinhar em casa: passámos 24 horas com Fernando Ribeiro

A NiT acompanhou o carismático líder dos Moonspell de manhã até à noite. Foi um dia a correr, com muitas surpresas pelo meio.

A música está longe de acabar, mas Fernando Ribeiro já definiu um grande objetivo para a sua vida. “A longo prazo, gostaria de poder folgar ao fim de semana e a um dia de semana, como a quarta-feira, para ter tempo de qualidade com a Sónia [Tavares], que também é muito ocupada, e com o Fausto [o filho]”, conta o artista à NiT.

Esta terça-feira, 31 de março, passámos 24 horas a acompanhar a rotina pessoal do vocalista dos Moonspell. Apesar de ter sido um dia sem concertos, a música preencheu grande parte da agenda.

No dia 3 de julho, a icónica banda de heavy metal vai apresentar “Far From God”, o 14.º álbum de estúdio. Esse lançamento será notícia em todo o mundo, da Alemanha à Argentina, especialmente entre a comunidade de metal. O que poucos fãs sabem é que são os próprios artistas que tratam do trabalho administrativo. 

“Nós temos um estúdio onde ensaiamos, gravamos e reunimos, mas isto é um trabalho diário das 9 às 17 horas”, revela. Quando o acompanhámos, Fernando Ribeiro, de 51 anos, estava a planear as festas de lançamento do disco em Portugal, a tour europeia para 2027 — “tudo é tratado com um ano de antecedência” — e o merchandise que esteve na digressão pela América Latina.

Entre um almoço na “melhor livraria do mundo”, uma ida ao ginásio e ao osteopata, o dia do cantor foi, tal como o próprio descreve, “mais intenso”. A noite terminou com um jantar ao lado de Sónia Tavares — a vocalista dos The Gift com quem está casado desde 2017 —, com um single malt escocês, um livro e um momento de profunda reflexão.

“É muito raro ter um dia de folga, mas sei que faço o que faço por um objetivo que é meu. Os Moonspell são meus e também dos fãs. Mesmo assim, gostava que o nosso País desacelerasse um bocadinho. Até os miúdos saem da escola e não têm muito tempo livre”, lamenta.

Antes da pandemia, Fernando Ribeiro confessa que tinha uma vida diferente, mas os confinamentos e as restrições acabaram por baralhar tudo. “Andamos sempre a correr contra o tempo.” Quando está em digressão, os dias sem espetáculos não são usados para conhecer novos destinos, mas sim para viajar de uma sala de espetáculos para a outra. 

Apesar de tudo, o músico admite que foi um “dia bastante porreiro”. A NiT mostra-lhe como tudo aconteceu, ao minuto.

— 8h28: “Acordei ainda há pouco, antes do meu alarme no telemóvel. O som é o Ascensão Lenta, algo mais tranquilo. Agora, vou levar o meu filho Fausto [de 13 anos] ao andebol, buscar o pão e depois sigo para o ginásio.”

— 9h10: “Vim a uma mercearia comprar pão, queijo fresco e fruta. Também vou comer o pequeno-almoço por aqui. A mercearia chama-se Frois e é uma loja anexa à Repsol. É a melhor mercearia de Alcobaça.”

— 9h42: “Agora estou a fazer trabalho administrativo dos Moonspell. Nós é que fazemos a nossa gestão da carreira. Faço este trabalho em casa. Nós temos um estúdio onde ensaiamos, gravamos e reunimos, mas isto é um trabalho diário das 9 às 17 horas. Hoje estou a finalizar as festas de lançamento em Portugal, a tour europeia em 2027 e o merchandise que esteve na nossa digressão na América Latina.”

— 11h23: “Vou para o ginásio. Normalmente treino três vezes por semana no New Ground Fitness, um ginásio em Alcobaça que pertence ao vocalista dos Plastic People. Não é um ginásio chato, com tudo a exibir-se. O João Gonçalo faz Hyrox e provas e eu treino mais manutenção e pesos. Também faço exercícios de cardio.

— 13h07: “Fim do treino. Eu e o João costumamos ouvir música e estamos sempre a conversar, por isso os treinos duram cerca de hora e meia. Antes da pandemia fazia natação e ginásio, mas ainda não me consegui orientar para voltar. Decidi ir para o ginásio como forma de prevenção e manutenção. Eu sou alto, tenho 1,90 metros, e ando sempre marreco nos autocarros e aviões. Treino com o João há três anos. Só não vou mais vezes porque não consigo. O sonho é começar a participar nas corridas que ele organiza. Quando estou em digressão, a última coisa que quero é meter-me num ginásio, embora vá às vezes nos hotéis, mas descansar também é muito importante. Se tiver uma hora para dormir, durmo.”

— 14h25: “Estou a acabar de almoçar na Arquivo, em Leiria, que é a melhor livraria do mundo — e eu já vi algumas. Tem a parte da restauração e venho cá muitas vezes, não só para me abastecer de livros. Desta vez pedi a salada Arquivo com ovo escalfado, rúcula e salmão. Acompanhei com vinho branco.”

 

— 15h03: “Agora estou na livraria. Comprei o ‘Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule’, do Edouard Louis, ‘Cartas da Guerra’, do António Lobo Antunes, e ‘Coração Sem Medo’, do Itamar vieira Júnior. Ler é o meu passatempo favorito. Neste momento estou a ler ‘O Arquipélago da Insónia’, do Lobo Antunes, e depois vou passar para as ‘Cartas da Guerra’. Ele é um autor incrível e já li muito da obra dele. Também estou a ler o manuscrito de ‘Good Night, My Orphaned Land’, do Kobi Farhi, que ainda não foi editado em Portugal. Depois vou lendo o que aparece, como poesia. Também estou a acabar o ‘Circle of Days’, do Ken Follet, que é uma seca e nunca mais acaba. Faltam 200 páginas.”

— 15h30: “Vim ao armazém da editora dos Moonspell para ter uma reunião com o sócio com quem criei a Alma Mater Books and Records, que começou com os Moonspell, mas que agora tem outras bandas do heavy metal. Por enquanto só temos grupos portugueses e brasileiros, mas no segundo semestre vamos editar bandas de heavy metal da Angola, Egito, Botswana e de outros países de África.”

— 16h07: “Estou num barbeiro porque pareço um selvagem. Vim ao Dr. Barber, em Leiria.”

17h38: “Estou em casa a responder a uns emails mais administrativos. Os Moonspell vão ser capa de uma revista internacional que vende cerca de 20 mil por mês. Este é um formato que já não se vê tanto.”

— 19h04: “Vim a um osteopata perto de casa. Tenho um problema lombar e venho cá uma vez por semana.”

— 20h03: “Estive numa reunião porque estou a criar uma empresa nova de metal para trazer mais bandas a Portugal. Agora, antes do jantar, vou fazer as redes sociais dos Moonspell.”

— 20h40: “Comecei a fazer o jantar. Normalmente, sou eu o cozinheiro aqui em casa e costumo preparar o jantar. Para desagrado do meu filho, a comida vai ser guisado de frango. Ele queria outra coisa. Tive de fazer uma corrida ao supermercado, porque não tinha ervilhas e cenouras.”

— 21h15: “Estou a jantar com a Sónia [Tavares]. Hoje comemos mais tarde, o final de tarde foi mais corrido. Normalmente jantamos mais cedo, pelas 20h30, mas o Fausto também teve treino de andebol hoje.”

— 22h05: “Estou a beber um single malt escocês. Termino sempre o jantar com isto. Ajuda-me a relaxar após dias mais intensos.”

— 23h20: “Para terminar o dia, vou ler um pouco de ‘As Cartas da Guerra’ e já vou dormir. Hoje acabou por ser um dia diferente. Fiz mais coisas para mim, embora também estivesse a trabalhar.”

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