Música

D.A.M.A: “O isolamento em casa tem sido uma grande seca”

O quarto álbum da banda, "Sozinhos à Chuva", sai esta sexta-feira. A NiT falou com os três músicos, que estão infetados com Covid-19.
Este é o quarto álbum da banda

Depois de dois anos sem editar nenhum álbum, o novo trabalho dos D.A.M.A chega às lojas esta sexta-feira, 30 de outubro. “Sozinhos à Chuva” promete ser inovador e traz um formato, segundo a banda, nunca antes visto em Portugal: é para ser ouvido do início ao fim e não faixa a faixa.

O lançamento deste álbum estava previsto acontecer de outra forma. Devia ter sido em abril, por isso foram lançadas algumas músicas desde o início do ano, que culminariam num único trabalho. No entanto, a pandemia trocou as voltas a Miguel Coimbra, Miguel Cristovinho e Francisco Pereira, também conhecido por Kasha.

Mudaram de ideias e criaram um novo conceito, do qual ainda nenhuma música foi apresentada. O conjunto todo, que dizem contar uma história do princípio ao fim, chega ao público só agora, sem qualquer tipo de antevisão. Apenas alguns fãs mais sortudos tiveram a oportunidade de ouvir o álbum, a poucos dias do seu lançamento.

Curiosamente, este momento que devia ser de celebração e concertos está também a ser marcado de outra forma, uma vez que os elementos da banda estão infetados com Covid-19, o que os obriga a ficar em quarentena em casa. Nada que assuste estes jovens, que em entrevista à NiT contam tudo sobre o novo trabalho.

O que é que podemos esperar deste novo álbum?
Miguel Cristovinho: Podemos esperar a essência com que sempre marcámos as nossas canções, eu diria. Acaba por ser um álbum que soa bastante a D.A.M.A.. No entanto, nota-se que somos nós passado seis ou sete anos de vivências, de trabalho e de crescimento. Quando começámos éramos três jovens, agora somos três jovens adultos. Já se passou muita coisa e já crescemos e vivemos coisas diferentes. Continuamos a olhar para a vida com um sorriso e com um lado positivo praticamente sempre. Apesar de ser um disco melancólico, no geral, acho eu — porque também remonta a períodos um bocadinho mais melancólicos da nossa vida — é um disco que no final deixa uma mensagem positiva.

Kasha: Podemos esperar um álbum todo interligado em termos sónicos. Para reforçar, na verdade tudo mudou menos a nossa génese, que somos três amigos que se adoram e adoram partilhar a sua arte com quem a quer ouvir.

E o que é que o distingue dos outros?
Miguel Coimbra: Este disco está todo ligado do início ao fim, portanto, é um álbum diferente no sentido em que pretende levar as pessoas numa viagem. O disco é feito para ser ouvido da primeira à última música sem interrupções. Esse é o objetivo com que nós fizemos o disco, como ele todo sendo uma peça só em vez de ser uma peça com várias pecinhas. Claro que as pessoas podem ouvir individualmente as músicas se quiserem, podem ouvir as que gostam mais, mas nós recomendamos que o disco seja ouvido do início ao fim sem interrupções e isso é o que as pessoas devem esperar também.

Kasha: Foi a isso que nos propusemos. Durante os anos entre os álbuns nós vamos vivendo outras coisas e a nossa personalidade vai-se moldando, sendo que o que se mantém é a verdade com que nós fazemos a nossa arte. O desafio é grande, nós procuramos sempre reinventar-nos e inovar sem perder a nossa identidade. É o quarto álbum, há essa responsabilidade também. Até vamos um bocadinho contra a prática do mercado de ser muito single, single, single. Quisemos fazer uma obra una e dar primazia a uma coisa a que não se dá muita primazia hoje em dia que é o álbum todo. Uma viagem única, una. Nós começámos a lançar músicas desde janeiro e mesmo essas canções não vão entrar neste disco porque nós, depois de fazermos estas canções, reparámos que não faziam sentido, não eram da mesma viagem, o que tornava a obra menos una. Então decidimos pô-las de parte e por isso o que vamos ter são músicas completamente novas e que as pessoas nunca ouviram.

Que viagem ou história conta esse álbum?
Miguel Cristovinho: Acho que a viagem cada pessoa vai fazer a sua. Aquilo foi a viagem que nós fizemos, é a viagem que estamos a contar, é uma viagem de superação, de força, de união, de partilha…

Kasha: De tristeza e incerteza também, em algumas músicas.

Miguel Cristovinho: Sim, de tristeza, incerteza e dúvida também, mas que culmina em alguma paz e tranquilidade. Nós procurámos que as músicas falem por si. E falam. Mas acho que é uma experiência também individual de cada pessoa, porque há músicas que se calhar nós compomos com uma sensação em nós e depois tu vais ouvir e estás a viver uma coisa qualquer na tua vida que faz com que aquela música te ressoe de outra forma. Todas as músicas vão ser lançadas amanhã [sexta-feira, 30 de outubro], todas as músicas têm o mesmo peso comercialmente. Claro que vamos dar alguma importância a cada uma delas quando lançarmos vídeos, é claro que as rádios vão escolher os temas que querem passar e como tal essa música pode ser mais comercial do que as outras mas, para nós, as músicas são todas uma peça integrante de uma viagem global. Essa viagem global há de ser a viagem pessoal que cada uma das pessoas que ouvir o disco do início ao fim vai fazer. Para nós é uma viagem que passa por uma série de sentimentos, alguns sentimentos que são mais frágeis e outros que são mais fortes, mas é assim mesmo que é a vida de toda a gente.

Miguel Coimbra: Nós também temos umas palavrinhas que vão dando indícios à pessoa da energia que está a ser transmitida ao longo do disco. Pequenas palavrinhas como culpa, medo, aceitação, amor, paz, razão… Ao longo do disco vamos dando essas pequenas pistas às pessoas para guiar um bocadinho o sentimento, também.

O que é que há de diferente neste álbum depois de um ano e meio sem música nova dos D.A.M.A?
Miguel Coimbra: Nós queríamos fazer um disco que nos superasse. Aquilo que nos propusemos a fazer, que é um álbum todo ligado do início ao fim, é exatamente isso, aquilo que nunca tínhamos feito, uma coisa que também nunca foi feita em Portugal e nós quisemos fazer. Quisemos propor-nos esse objetivo de não só ligar as músicas entre elas musicalmente, mas também que a nível de sentimento e sensações fizesse sentido.

E como é que surgiu essa ideia?
Miguel Coimbra: Foi uma ideia maluca que surgiu de um debate sobre o que é que nós poderíamos querer fazer. Nós tínhamos pensado fazer isso para um espetáculo ao vivo e também há outro artista internacional que fez uma coisa parecida, que é o Mike Posner, que ligou também um álbum inteiro, e isso ficou na nossa cabeça. Fomos desenvolvendo o conceito ao longo do tempo, não foi uma coisa que surgiu de um momento para o outro, foi sendo falada e só no final é que começou a fazer sentido. A verdade é que fomos construindo isto mas só no último mês de produção é que as coisas se começaram a ligar e a fazer sentido. Foi uma coisa que foi acontecendo.

De onde é que vem o título “Sozinhos à Chuva”?
Kasha: É uma aprendizagem e uma constatação também, este disco. Uma aprendizagem no sentido em que, de facto, este é o nosso disco mais colaborativo de todos e daí o sozinhos faz sentido, porque está no plural. Se duas pessoas estão sozinhas, elas estão acompanhadas e por isso uma das descobertas deste álbum é, de facto, a verdade de que pertencemos a algo maior e na partilha da arte é que reside a nossa maior força. É uma coisa que nós já fazíamos muito entre os três mas que, por isso, talvez o nosso círculo estava um bocadinho fechado. Agora, pelo facto de termos o nosso próprio estúdio, proporcionou-se ter mais artistas a irem lá e a colaborarem nas músicas. A chuva representa todas as coisas pelas quais nós temos passado. As coisas boas, as coisas más, as ótimas, as horríveis. A verdade é que nos últimos sete anos temos vivido juntos as mesmas coisas. Juntos e unidos e é assim que queremos continuar.

E como é que foram surgindo essas colaborações?
Miguel Cristovinho: Cada uma delas tem a sua história. Por exemplo, pessoas que já fazem muito parte do nosso círculo, que são as mais óbvias, a Bárbara [Bandeira], o Ivo [Lucas], a Carolina [Deslandes]. Temos uma relação pessoal tão forte que a relação profissional é quase uma necessidade obrigatória, porque nos damos muito bem e porque, para nós, estar em estúdio não é nunca estar a trabalhar, estamos todos em estúdio porque gostamos muito uns dos outros e daquilo que fazemos. E depois as pessoas um bocadinho mais fora da caixa foram o T-Rex, o Lutz. O Lutz foi um amigo nosso que nos mostrou que ele estava a fazer uma coisa muito forte no rap, a começar agora, e nós vimos e ficámos espantados. Dissemos: “Este miúdo tem 17 anos, vamos dar-lhe uma oportunidade”. Falámos com ele e ele ficou super radiante. Aliás, ele tinha ido ao nosso concerto no Meo Arena quando era uma criança, tem uma fotografia connosco e toda a envolvência dessa história fez com que desse super certo. O T-Rex foi uma daquelas parcerias de século XXI, pelo Instagram. Fomos para o estúdio logo no dia e desde aí que ficámos amigos. O Mike 11 é uma pessoa que até já podia estar naquela lista do início porque é muito nosso amigo, partilhámos coisas muito fortes em estúdio e a nossa relação pessoal desenvolveu-se bastante.  Por último, o Nélson Freitas foi a pessoa, destas todas, com quem provavelmente já estivemos mais vezes em estúdio e nunca tínhamos tido nenhuma colaboração. Ele ouviu o tema, foi ter connosco e fizemos tudo no mesmo dia.

Essas colaborações estendem-se também à parte da letra e composição musical ou isso mantém-se do vosso lado?
Kasha: Mantém-se do nosso lado. A nossa maior colaboração a nível de produção foi com o Francesco Meoli, o nosso pianista e diretor musical. Está connosco desde que dávamos concertos na escola e por isso ver a participação dele neste álbum é algo incrível porque ele também começou a produzir, não só a tocar piano. Mas o grosso continuamos a ser nós e as nossas características que nos permitem ser bastante auto-suficientes.

Vocês fizeram um listening party e deram a conhecer o novo álbum a um grupo restrito de fás. Como é que isso correu?
Kasha: Foi incrível.

Miguel Cristovinho: Foi muito fixe, sentimos mesmo a energia. Não estávamos com as pessoas que costumam estar na fila da frente dos nossos concertos há bastante tempo, porque não há concertos e nós não somos um projeto que, por norma, tenha espetáculos de sala. Portanto, daquelas dezenas de milhares de pessoas que vão a um concerto, nós conseguimos reconhecer aquelas cem caras que ficam sempre nas filas da frente.

Kasha: Além disso nunca sabemos o que as pessoas vão achar. Se vão gostar ou não, se estamos muito diferentes ou o que quer que seja. O que garantimos sempre é que aquilo que lançamos é algo que nos orgulha e é a nossa verdade. Tudo o resto é uma consequência, por isso estávamos ávidos de ter esse feedback e ver que as pessoas gostaram e que nos dizem que está incrível e que superámos as expectativas delas. É sempre bom para nós.

Foi esse o feedback que vos deram até agora?
Kasha: Foi, mas também são aquelas pessoas que conhecem mesmo e sabem o ponto de onde vem a nossa arte. Por isso se vai a esse ponto elas reconhecem logo. É bom saber que lhes tocámos no ponto em que costumamos tocar.

Já tinham preparado algumas canções que foram lançando ao longo do ano e que deviam ter culminado no álbum mas depois a pandemia trocou-vos as voltas. Como é que fizeram essa viragem no plano inicial?
Kasha: Nós somos bons a praticar o desapego. A realidade mudou completamente, não faria sentido mantermos uma realidade que já não existe, por isso adaptámos.

Como é que toda a situação da pandemia e da falta de espetáculos influenciou o vosso trabalho nos últimos meses?
Miguel Cristovinho: Acho que das coisas que me deixa mais feliz é sentir que, independentemente de estarmos a viver um período de dificuldade, isso não interferiu em nada naquilo que é o nosso propósito nem na nossa arte. Quando as pessoas têm que se preocupar em pôr comida na mesa, às vezes não há espaço para ser pretensioso nem luxuoso, é preciso ser objetivo e conciso. Nós, felizmente, tivemos a sorte de podermos abstrair-nos dessa dificuldade. Claro que um artista sem concertos é um artista praticamente sem rendimentos. Nós felizmente temos alguns porque somos compositores e a SPA [Sociedade Portuguesa de Autores] defende os compositores nesse aspeto. A única coisa que está presente no disco é que se a vida está difícil, provavelmente a nossa música vai estar um bocadinho mais melancólica em alguns pontos. De resto, só tivemos que não lançar o disco numa certa altura para nos preocuparmos com as pessoas que mais amamos em vez de nos preocuparmos com a música, estar com mais cuidado, não fazer eventos gigantescos. Na nossa arte a única coisa que importa e que influencia é mesmo o que está à nossa volta.

Como é que tem sido trabalhar no setor da música neste ano tão atípico?
Kasha: Acima de tudo tem sido difícil trabalhar. Não há concertos, por isso continuamos a trabalhar e felizmente temos o nosso estúdio, que é a nossa casa. É para lá que vamos quando acordamos, para criar arte. No resto é difícil porque estamos a falar de uma coisa insubstituível. Um concerto de drive-in ou em que as pessoas estão separadas e com máscara, tanto para o artista como para o público a experiência é completamente diferente hoje em dia. Por isso todos queremos voltar à sensação de partilha em que as pessoas estão juntas e nós no palco a vê-las juntas, todos numa energia una. Por agora, isso não é possível e continua a ser muito difícil fazer previsões, com os casos a aumentar. Resta-nos ter esperança que tudo mude e volte à normalidade.

Isso obrigou-vos a repensar a forma como fazem os espetáculos ao vivo?
Kasha: Nos concertos que demos, sim. Mas a nossa ideia é que haja tour de verão normal em 2021. O que vamos adaptar nós adaptamos sempre, que é um espetáculo novo todos os anos.

Miguel Coimbra: Nós pensámos para este disco fazer um concerto de celebração do lançamento em que vamos tocar o disco na íntegra. Uma coisa que para nós faz sentido, tocar a peça toda e levar as pessoas nesta viagem, ao vivo. O que nos leva a pensar é que não pode ser uma coisa para milhares de pessoas, tem que ser uma coisa mais reduzida, temos que cumprir com as normas de segurança. Há toda uma logística da sociedade de hoje em dia que tem que ser respeitada e temos de ir ao encontro disso. Temos que pensar de forma um bocadinho diferente, mas está em nós a esperança de poder fazer a tour normal, em que tocamos para toda a gente e onde sentimos o que temos vindo a sentir nos últimos anos.

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Será também uma sensação agridoce lançar agora o novo álbum numa altura em que estão todos confinados.
Miguel Cristovinho: Há uma razão para tudo. Para nós estarmos em casa é para podermos acompanhar tudo o que as pessoas estão a postar online.

Miguel Coimbra: Nós gostamos de ver o lado positivo das coisas e também da realidade à nossa volta. Se isto aconteceu agora é porque tinha que acontecer. Mas já estamos a acabar os dias de quarentena obrigatória, amanhã [sexta-feira, 30 de outubro] já vamos testar novamente e mal dê negativo e estejamos todos em segurança, voltamos à carga outra vez.

Isso alterou os planos para o lançamento?
Kasha: Claro. Nestas semanas íamos gravar conteúdos, videoclipes, íamos fazer uma promoção mais presencial, por isso alterou completamente. Mas é olhar para o lado bom das coisas más e adaptar.

Como é que têm sido estes últimos dias, em que estão em isolamento em casa?
Kasha: Uma pasmaceira.

Miguel Coimbra: Têm sido estar em casa a apanhar uma grande seca. À espera. Mas temos estado ligados, a dar entrevistas, a acompanhar o lançamento do álbum de uma forma diferente, longe uns dos outros. Mas hoje com a tecnologia estamos mais perto e aproveitamos para fazer outras coisas, para cozinhar mais, para jogar um bocadinho de PlayStation, no meu caso e do Miguel Cristovinho. O Francisco tem estado a tratar das limpezas de casa e do seu cabelo, que está fantástico [risos].

Miguel Cristovinho: Uma coisa é certa, nunca senti tanta expetativa para um álbum nosso. Temos recebido mensagens de toda a gente, até porque este álbum demorou muito tempo a ser feito.

O que é que se segue agora em termos de promoção do álbum?
Miguel Cristovinho: Estamos um bocado dependentes do que vai acontecer com a pandemia. Nós gostávamos muito de pensar que em 2021 os concertos normais voltam, que no verão vamos ter uma agenda cheia de concertos com milhares de pessoas, todas perto umas das outras e sem máscaras. Tudo aquilo que chamamos de vida normal. Não sabemos se isso vai acontecer ou não, todas as semanas saem coisas novas, por isso não vale a pena fazer grandes previsões do futuro porque o amanhã pode ser um dia que não estávamos à espera. Mais vale aproveitar o dia de hoje, que é aquilo que temos.

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