Música

Da depressão à sexualidade: Billie Eilish volta ao lado sombrio da sua vida no novo álbum

"Hit Me Hard and Soft" é o novo álbum que é editado esta sexta-feira.
Billie está de volta.

“Se não estiver a sofrer, não me sinto bem com o que estou a fazer.” Este é a filosofia de Billie Eilish, revelou em entrevista à “Rolling Stone”. Foi igualmente esta a inspiração para “Hit Me Hard and Soft”, o novo álbum editado esta sexta-feira, 17 de maio. A dor começa com a própria foto do disco em que vemos a artista imersa em água. “Foi como se me estivesse a afogar durante seis horas seguidas.”

A jovem de 22 anos revela que dá sempre tudo de si em cada um dos seus projetos e que acredita que é essa dedicação que fez com que ganhasse, até agora, nove Grammys, dois Globos de Ouro e dois Óscares. “Sempre fui assim e vou continuar. Muita da minha arte é fisicamente dolorosa e eu amo isso. Meu Deus, como eu amo”, reforça.

O novo disco contém dez temas e nenhum foi divulgado antes de o álbum ter sido editado, tudo para que os fãs pudessem ser surpreendidos. Em abril disse à “Rolling Stone” que não gostava de lançar singles antes da estreia dos CD porque não gosta “quando as coisas são tiradas do contexto” e comparou “Hit Me Hard and Soft” a uma “família”, acrescentando que “não quer ter um filho sozinho no meio da sala”.

Neste projeto, Eilish volta às temáticas que a ajudaram a popularizar em 2019, quando lançou “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?”, um bestseller que se destacou pelas faixas mais negras e que falavam abertamente sobre a depressão e distúrbios mentais contra os quais sempre lutou. Agora, leva-nos novamente ao seu universo conturbado. “Este álbum sou eu. Não é uma personagem.”

Embora 2019 tenha sido uma das alturas mais difíceis da sua vida, em grande parte devido à fama que alcançou quando tinha apenas 18 anos, admite que sentiu falta desta era. “Apesar de tudo, foi a melhor época da minha vida. Todo este processo de gravação fez-me voltar a ser a miúda que era no passado. Andava a fazer o luto por ela porque é como se tivesse sido afogada pelo mundo e pelos média, mas não me lembro exatamente quando é que ela desapareceu.”

Para Finneas, o irmão que trabalha sempre com a artista, o novo disco está repleto de “fantasmas do passado” e, juntos, tiveram e revisitar “as trevas que ela tentava esconder”. “Há histórias aqui que têm cinco anos. Voltámos à escuridão porque é isso que nós fazemos melhor e aquilo que mais nos inspira artisticamente”, diz à mesma publicação.

No projeto, Billie não foge de um outro tópico que tem marcado a sua carreira nos últimos tempos: a sua sexualidade — em 2023 confirmou que também gostava de mulheres após a sua orientação ter sido exposta pela revista “Variety”. Em “Lunch” fala abertamente sobre este período atribulado da sua vida.

“Foi esta canção que me ajudou a perceber quem é que sou. Escrevi uma parte antes de ter feito algo com outra rapariga e o resto veio depois. Sempre me senti apaixonada por mulheres, mas não percebia o que é que isso significava até ao ano passado, quando me apercebi que queria a minha cara numa vagina. Não pensava falar sobre a minha orientação e é muito frustrante ter sido obrigada a fazê-lo”, explica a natural de Los Angeles, nos Estados Unidos.

A composição do tema também foi uma forma de terapia e de conseguir ultrapassar o facto de ter sido exposta a todo o mundo sem a sua autorização. “Toda a gente decidiu o que é que eu era e não me consegui defender. Ninguém devia ser pressionado para ser uma coisa ou outra e acho que as pessoas querem muito pôr rótulos umas nas outras. A forma como eu fui tratada foi injusta, mas está no passado.”

Billie Eilish nasceu em 2001 em Los Angeles e começou a cantar com apenas oito anos no coro infantil local. Aos 11 já compunha as próprias canções. Sempre foi muito influenciada pelo irmão mais velho, Finneas O’Connell, que já tinha uma banda e com quem ainda costuma colaborar, seja no estúdio ou ao vivo, como aconteceu nos espetáculos que deu em Portugal.

A infância de ambos foi peculiar. Nunca foram à escola. Receberam todos os ensinamentos em casa e foram também alvo de uma dieta rigorosamente vegetariana. O seu primeiro single, “Ocean Eyes”, foi escrito por Finneas, até porque era suposto ser uma canção para a sua banda. Acabou por ser lançado por Eilish em 2016 na plataforma SoundCloud. Além de cantar, a jovem também dançava e decidiu enviar o tema para o seu professor de dança para que preparasse uma coreografia. Foi uma decisão estratégica essencial para o sucesso do videoclipe.

Um ano depois, lançava o primeiro EP, “Don’t Smile at Me”. Chegou aos lugares de topo no ranking de vendas dos EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália e começou a conquistar milhões de fãs em todo o mundo através da Internet. A partir daí, começaram as colaborações com outros músicos. Uma delas foi com Khalid, que resultou no single “Lovely”, editado em abril de 2018 e que acabou incluído na banda sonora da segunda temporada da série da Netflix, “Por Treze Razões”.

O seu primeiro álbum, “When We Fall Asleep, Where do We Go?”, chegou às lojas em março de 2019 e conquistou de imediato o primeiro lugar no ranking dos mais vendidos e ouvidos nos EUA. Só na primeira semana vendeu 313 mil cópias físicas nos EUA — um número impressionante na era do streaming. Foi, para a “Billboard”, o segundo melhor disco lançado nesse ano, apenas atrás de “thank u, next” de Ariana Grande.

O aguardado sucesso, “Happier Than Ever” foi editado no ano seguinte, em julho. Não foi um sucesso tão estrondoso quanto a estreia de Billie. Na primeira semana vendeu cerca de 238 mil cópias nos Estados Unidos. Mesmo assim, passou três semanas no top dos álbuns mais vendidos.

A sua música pop é relativamente alternativa, melancólica e mais obscura do que o habitual. Entre os seus singles mais conhecidos encontramos “Bad Guy”, que em 2019 foi considerado o maior sucesso do ano, com 19,5 milhões de cópias comercializadas.

Para a produção e composição dos seus temas, inspira-se em alguns artistas que apostam no mesmo estilo, casos de Lana Del Rey ou Lorde. Mas as suas referências vão muito mais além dessas: também já revelou a sua admiração por artistas como os Green Day, Avril Lavigne, Justin Bieber, Childish Gambino, Rihanna, ASAP Rocky ou Tyler, The Creator. “Passei por muitas fases. Quando era mais nova inspirava-me nos Beatles e em Avril Lavigne. Depois passei para os Green Day, My Chemical Romance e The Strokes. Com o passar dos anos, a Lana del Rey tornou-se tudo para mim”, brincou num vídeo partilhado no TikTok.

As letras são quase sempre autobiográficas. Numa entrevista com a revista “Paper”, Eilish chegou a confessar que a coisa mais difícil que teve de ultrapassar — e que está presente em muitas das suas músicas — foi uma relação com um rapaz que correu mal. Mas a sua música está também interligada ao estilo e à forma como se apresenta em público, com roupas muito largas e, por vezes, escuras. A moda é vital na sua imagem pública.

“Eu não passei por muitas coisas terríveis. Penso que a maior delas, sobre a qual tenho escrito bastante, foi a relação com um rapaz que me destruiu. Ele foi a minha vida durante um ano — e foi muito difícil. As pessoas dizem que ‘foi apenas um rapaz’, mas isso teve um enorme efeito em mim. Estava sempre distraída. Ele era terrível e tratava-me mal. Escrevi milhões de canções sobre ele.”

A luta contra a depressão e os pensamentos suicidas

Esse mau relacionamento não foi o único obstáculo que a artista teve de ultrapassar ao longo da sua vida. “Eu simplesmente odiava o meu corpo. Teria feito qualquer coisa para estar num corpo diferente“, disse em 2020 à “Vogue” norte-americana. A culpada? A puberdade, que admite “ter chegado demasiado cedo”.

“Queria ser modelo, mas era gordinha e baixa. Desenvolvi-me muito cedo. Já tinha seios aos nove anos. Tenho menstruação desde os 11. O meu corpo estava a caminhar mais rapidamente do que o meu cérebro. É engraçado, porque quando se é criança, nem pensamos no corpo e, de repente, olhamos para baixo e fica-se tipo: ‘Wow. O que posso fazer para que isso desapareça?’”, revelou.

A relação com o seu corpo tornou-se tão complexa que Billie chegou mesmo a ponderar o suicídio.  “Quando me perguntam o que é que eu diria a alguém que procura conselhos sobre saúde mental, a única coisa que posso dizer é: ‘Paciência’. Tive paciência comigo mesma. Não dei o último passo. Esperei. As coisas desaparecem.”

Aos 12 anos surgiram os primeiros sintomas de dismorfia corporal, um transtorno mental caracterizado pela distorção da auto-imagem. Seguiu-se a depressão, que Eilish ssocia a uma lesão contraída na dança, um grupo de amigos tóxicos e um relacionamento romântico com alguém que a tratou mal. Mas, acima de tudo, estava magoada com a sua aparência.

Fazia parte de um grupo de dança de competição e tinha de usar frequentemente roupas justas que a deixavam desconfortável. Aos 13 anos, uma lesão obrigou-a a interromper a sua carreira. Numa entrevista à revista “Rolling Stone”, em setembro de 2019, revelou que foi nessa fase que começou a depressão. “Tudo isso atirou-me para um buraco. Passei por uma fase de auto-mutilação (…) sentia que merecia a dor”.

“Sentia que nada importava. Tudo era inútil. Não só na minha vida, mas no mundo inteiro. Estava clinicamente deprimida. É uma loucura olhar para trás”, explica. A sua abertura sobre a saúde mental levou a que fosse acusada de mentir sobre o seu estado. Algumas pessoas alegavam que tinha mentido sobre o seu passado para ganhar simpatia do público. As acusações magoaram-na.

“Era uma instável miúda de 16 anos. Estou no lugar mais feliz da minha vida. Achava que nunca chegaria aqui a esta idade. Não achava que podia ser feliz novamente, mas aqui estou. Cheguei a um ponto em que finalmente estou bem. Não é porque sou famosa. Não é porque tenho um pouco mais de dinheiro. São tantas coisas diferentes: crescer, pessoas a entrar na minha vida, certas pessoas a deixá-la.”

Apesar de todos os problemas, nunca se poderá acusar Eilish de se manter fechada no seu quarto. De não conversar sobre os traumas e desafios em público. Abordou o tema das suas roupas largas em dezembro de 2019, no “CBS This Morning”, onde explicou que mais do que uma forma de ditar uma tendência, era uma escolha que se prendia com a forma como se sentia desconfortável com o seu corpo. “O relacionamento com o meu corpo tem sido o mais tóxico que se pode imaginar”, explicou. “A maneira como me visto tornou esse relacionamento muito melhor. É menos sobre o ‘meu corpo é feio, não quero que o vejam’, e mais sobre ‘não me sinto confortável a usar isto, estou confortável a usar isto.”

Foi também nessa entrevista que Billie revelou ter pensado em pôr fim à própria vida: “Pensei nisso uma vez, em Berlim. Estava sozinha no hotel e lembro-me de que havia uma janela. Estava a chorar e a pensar sobre como podia morrer. Eu ia mesmo fazê-lo.” Pensar na mãe foi a única coisa que a impediu de cometer suicídio.

Em 2019, a cantora decidiu procurar ajuda e descobrir formas de cuidar da sua saúde mental. Passou por terapia e privilegiou o tempo com os amigos e a família. Até encontrou um novo hobby: equitação. A música foi, naturalmente, outro dos tónicos, sobretudo a forma como exorciza nas letras o que lhe vai na alma. Isso e os fãs. “Agarro-os pelos ombros e fico tipo: ‘Por favor, cuida-te, sê bom e gentil contigo próprio. Não dês esse passo.”

Uma vida infernizada pelo Síndrome de Tourette

“As pessoas acham que os meus tiques são uma forma de tentar ser engraçada”, confessou a David Letterman em 2022. “Riem-se e sinto-me incrivelmente ofendida por isso.”

Durante a conversa com o apresentador, a artista revelou que tinha sido diagnosticada com Síndrome de Tourette. A condição que está habitualmente associada a tiques, movimentos físicos ou reprodução de sons de forma involuntária, é de menor gravidade, mas não deixa de afetar a sua vida.

“São coisas que a maioria das pessoas não repara se estiverem apenas a conversar comigo, mas para mim são muito cansativas”, explicou. Falou pela primeira vez no problema em 2018, apesar de ter sido diagnosticada logo aos 11 anos. “Fico muito feliz por poder falar sobre isto. Adoro responder às dúvidas das pessoas porque é muito, muito interessante, apesar de continuar incrivelmente confusa.”

“Nunca estou completamente livre de tiques, porque os tiques principais que faço constantemente, durante todo o dia, são algo como mexer na orelha para trás e para a frente, elevar a minha sobrancelha, estalar o maxilar, fletir os braços, os músculos”, explica. Tudo gestos que podem passar impercetíveis ao observador menos atento, mas em que Eilish repara e com os quais sofre.

O único momento de alívio surge quando está a cantar, em palco ou, por exemplo, a andar a cavalo. Todas as tarefas que exigem algum tipo de foco permitem que a artista norte-americana se esqueça por momentos dos tiques. “A reação da maioria das pessoas normalmente é o riso, porque acham que estou a tentar ser engraçada. E riem-se. Fico sempre ofendida e perguntam o que se passa. E respondo-lhes: ‘tenho Tourette’.”

A verdade é que o síndrome é mais comum do que o que se poderia pensar. Mesmo dentro da sua comunidade artística. “Há tanta gente que tem [Tourette] e que não o diz. Alguns artistas chegaram a confessar-me que têm. Não direi os seus nomes porque não é sobre isso que quero falar, mas perceber isso foi muito interessante para mim”, justifica. “Não é que goste de sofrer com isto, mas sinto que já é algo que faz parte de mim. Resignei-me e agora sinto-me perfeitamente confiante.”

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