Música

Da leucemia à Covid-19: a história de Magazino, o DJ que nunca desistiu

Luís Costa morreu esta quinta-feira. A última vez que passou música foi em outubro, depois de lançar o livro de memórias.
Foto de Ruben José.

Há dois anos que Luís Costa, mais conhecido como o DJ Magazino, lutava contra a leucemia. O músico de 44 anos, natural de Setúbal, morreu em casa esta quinta-feira, 9 de dezembro. Era DJ há cerca de 25 anos — desde a adolescência — e um dos principais rostos da Bloop Recordings, editora e promotora essencial no circuito português de música eletrónica.

A última vez que passou música foi na tarde de 16 de outubro, quando atuou no regresso das festas da Bloop na Piscina Olímpica do Restelo, em Lisboa. Foi um set apoteótico, rodeado de amigos e fãs que vibraram completamente com o set que criou.

Nessa mesma semana, Magazino editou o livro de memórias “Ao Vivo”, criado em colaboração com a jornalista Ana Ventura. Está dividido em três grandes capítulos: a vida pessoal, a carreira enquanto DJ e a luta pela vida que travou todos os dias durante dois anos, sempre com o seu característico (e improvável) otimismo.

Antes desta atuação no Restelo — e de dois livestreams que fez durante a pandemia — a última vez que tinha passado música fora a 1 de dezembro de 2019, em Viena, a capital austríaca. Magazino sentia-se, como descreveu à NiT no ano passado, “demasiado cansado e exausto” há alguns meses. “No dia 2 voltei e não me sentia nada bem. Pensava que era do jet lag, das viagens, hotéis, camas diferentes. Voltei na segunda-feira e na quinta ia tocar em Moscovo, na Rússia. Mas entrei no hospital na segunda-feira de manhã e já nem saí, fiquei logo lá.”

Foi diagnosticado com leucemia, um tipo de cancro que ataca a medula óssea. Inicialmente, pensava-se que podia tratar do problema apenas com quimioterapia, mas passado algum tempo percebeu-se que seria mesmo necessário um transplante de medula.

“Estive ali dois ou três meses mais triste. Porque é que me aconteceu a mim? Mas depois houve uma fase em que me dei conta que isso não me ia levar a lado nenhum, que não me ajudava, e percebi que a única maneira de dar a volta à situação era com ânimo positivo, e tenho pensado mesmo assim, genuinamente.”

Magazino deu entrada no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa em junho de 2020. A ideia era ficar internado algumas semanas para fazer os necessários tratamentos de quimioterapia, enquanto se continuava a procurar um dador que fosse compatível para realizar o transplante.

Quando o surto de Covid-19 aconteceu no IPO, no final desse mês, o DJ foi um dos mais de 100 infetados. Teve de ser transferido para o Hospital de Santa Maria, onde estaria isolado, e os sintomas não tardaram a aparecer.

Começou a sentir falta de ar e a respiração pesada. “Depois nem me lembro, puseram-me oxigénio, meteram-me em coma, ligaram-me a um ventilador e fiquei ali. Entre o sexto e o oitavo dia de coma, os médicos não acreditavam que sobrevivesse, estava com febres altíssimas de 41 graus. Além da Covid-19 e da leucemia, alojou-se o género de uma bactéria no meu corpo que supostamente entrou pelo catéter que tinha e provocou uma infeção gigante. É um milagre estar vivo. Mas estou muito feliz e motivado por estar aqui. Não senti nada, nem me lembro disto, só me apercebi da gravidade da situação dois ou três dias depois de acordar do coma, quando os médicos vieram falar comigo.”

Magazino não se lembra do período de insconsciência — nem sequer dos dias anteriores, quando já estava bastante afetado pela Covid-19. “Fiquei um mês em coma e durante esse período apareceu um dador compatível a 100 por cento. Disseram-me quando estava em coma, mas não me lembro de nada. A única coisa de que me lembro são ondas a bater com muita força na areia e um turbilhão gigante de cores à minha volta.” Como se fosse um sonho? “Sim, algo do género.” 

Acordou com menos 21 quilos — passou de 71 para 50. Não conseguia falar, não conseguia andar e nem sequer se reconhecia — nas primeiras horas depois de acordar não sabia quem era. Os médicos explicaram-lhe que é algo que acontece a quem está tanto tempo em coma, que é comum.

Mostraram-lhe vídeos dele a passar música ou a dar entrevistas, mas Magazino, que ficou sem cabelo por causa da quimioterapia, não se reconhecia. “Foi um choque muito grande nessa noite, diziam-me que era uma pessoa com muito sucesso na minha área, mas eu não…” O episódio de como se voltou a recordar da sua própria vida é curioso.

“No dia seguinte acordei, voltaram a falar comigo, estava ainda muito baralhado e confuso, mas o que aconteceu? Na televisão do meu quarto estava sempre a passar um anúncio da MEO em que a protagonista é uma grande amiga minha. E apontei para a televisão e disse que era ela. Eles começaram a perguntar: mas se é uma grande amiga, de onde é que a conheces? Começaram a puxar por aí. Ela acompanhou-me em várias tournées e depois fez-se luz, reconheci-a daí. Trabalhou comigo na Bloop, lembrei-me das tours e aí fez-se luz e percebi, ‘realmente é verdade, sou a pessoa de quem vocês têm mostrado nos vídeos’. Só um dia depois é que caí em mim e foi só por causa do anúncio da MEO. Tive a oportunidade de falar com essa pessoa, a Marie, e ela ficou emocionada ao ouvir isto.”

Depois, começou a passar os dias a fazer fisioterapia ou terapia ocupacional, a reaprender a fazer tarefas tão básicas como comer ou lavar os dentes. “A terapia serve para ganhar massa muscular, para voltar a andar.”

Quando esteve no IPO, os amigos lançaram campanhas de recolha de sangue e de medula óssea em Lisboa, Setúbal, Cascais e Porto, o que originou uma onda de solidariedade. Foi assim que o seu dador foi encontrado.

“Estreitei a relação com a Associação Portuguesa contra a Leucemia. Há tanta gente a precisar de um transplante de medula, só quando estive internado no IPO é que percebi isso. E não se fala muito sobre isto porque as pessoas normalmente retraem-se, acanham-se, escondem um bocado a doença, mas não há nada para esconder, não percebo. Têm é que lutar pela vida e serem pró-ativos. Há pessoas que criticam por me ter exposto. Penso o contrário. É por me ter exposto que foi possível arranjar um dador de 10 em 10.”

O livro de Magazino foi publicado em outubro.

Infelizmente, o facto de existir um dador perfeitamente compatível não foi suficiente. “A minha medula tinha de produzir cinco por cento de células cancerígenas para poder fazer um transplante em plena segurança. Neste momento estou em 40. Já tive em 17, em 18, em sete, isto é muito volátil. E com 40 por cento é bastante perigoso — estou fazer quimioterapia de maneira a tentar baixar essa percentagem”, explicou-nos Luís Costa quando publicou o livro “Ao Vivo”. “Queria muito editar este livro ainda em vida. Esse objetivo consegui realizar e estou muito feliz.”

A vida no IPO — e a música como parte essencial do dia a dia

No hospital, o DJ tentou que o seu espírito positivo e otimista contagiasse outros doentes. Levou um teclado para tocar à tarde, leu livros e até tinha um diário onde escrevia, além de ter uma máquina para fazer exercício. 

“Partilhava com toda a gente e animava ali bastante o pessoal. A ideia também era essa. Às vezes, há aqueles que são mais negativos e falam muito da doença e pouco da solução. Sempre apelei a todos os que passaram pelo meu quarto, sempre fiz questão de não falarmos sobre a leucemia, falarmos sempre sobre a solução e falarmos muito sobre o futuro, não sobre o passado. A música ajudava a isso também.”

O único momento que esteve sem ouvir música foi na altura em que estava a recuperar do coma. Voltou a ouvi-la cerca de uma semana depois. Nos dias anteriores, ainda tinha muitas dores de cabeça quando experimentava. “Toco muita música intemporal, tanto posso tocar música de 1995 como música de 2021 que ainda não saiu mas à qual já tive acesso. O meu ideal é tocar discos que nunca ouviste na vida e provavelmente nunca ouvirás, é o meu motto. Isso faz com que tenha de ter um trabalho muito grande de pesquisa. Só toco house e techno, mas não comecei a ouvir esse tipo de música agora, comecei a ouvir coisas não tão brutas”, contou-nos.

Magazino não tem dúvidas de que a leucemia e, posteriormente, a Covid-19, o tornaram numa pessoa diferente. “Era uma pessoa realista, por vezes até pessimista, neste momento isso alterou-se por completo, porque isto mudou a minha vida. Tenho muito mais vontade de viver o dia a dia, tenho uma enorme alegria de viver. Desde que percebi que o que passei foi quase um milagre, fiquei muito mais motivado para estar aqui, é incrível. Estou muito diferente.”

Entretanto, as reações nas redes sociais, de amigos e fãs, multiplicam-se um pouco por todo o lado. Cristina Ferreira e Joana Cruz foram algumas das pessoas que partilharam mensagens de homenagem ao músico.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT