Música

Da Weasel: o regresso emocionante (e incrível) da doninha no NOS Alive

15 anos depois, uma das mais importantes e populares bandas portuguesas deu um concerto único. Será que foi mesmo assim?
Adivinha quem voltou.

Em 2007, quando andava na escola, escrevi um trabalho para a disciplina de Música sobre os Da Weasel. Além de serem a minha banda portuguesa favorita — ainda são —, o que me levou a escolhê-los foi o facto de estar entusiasmado para o concerto que dariam algumas semanas depois no Pavilhão Atlântico. Foi um espetáculo marcante para a carreira dos Da Weasel, registado em DVD, e tive o privilégio de poder estar na assistência. Felizmente, os meus pais também eram fãs.

15 anos depois, jamais me imaginaria a escrever profissionalmente sobre a atuação do retorno da banda, cuja atividade decidiram terminar em 2010. Esta introdução serve para exemplificar o quanto os Da Weasel significam para tantas pessoas da minha geração, mas sobretudo daquela acima da minha, daqueles que puderam acompanhar a doninha no final dos anos 90 e início dos 2000.

Foi a primeira vez que uma banda portuguesa, por si só, esgotou um dia inteiro no NOS Alive. Relembre-se de que os Imagine Dragons, que também tocaram neste sábado, 9 de julho, no Passeio Marítimo de Algés, só foram confirmados mais tarde — nem sequer estavam previstos para a edição de 2020 do festival, a primeira a ser adiada por causa da pandemia.

Graças a esta epidemia mundial, os Da Weasel tiveram três anos para se preparar para o concerto desta noite. E os fãs puderam processar a informação — e inevitavelmente criar expetativas — sobre um dos espetáculos mais aguardados do ano em Portugal. Finalmente aconteceu.

Passava pouco das 21 horas quando o som se começou a ouvir do Palco NOS, o que gerou uma onda de entusiasmo na plateia. De seguida, os Da Weasel apareceram em palco, entrando de rajada com “Loja (Canção do Carocho)”, do álbum que os fez definitivamente furar no circuito mainstream, “Re-Definições” (2004).

15 anos depois, Carlão tornava-se de novo Pacman, ao lado do irmão Jay no baixo, e dos amigos Virgul (vocalista), Quaresma (guitarrista), Guillaz (baterista) e DJ Glue. Mostraram-se de imediato em boa forma — e toda a experiência que acumularam, na banda e nos projetos que agarraram a seguir, foi obviamente determinante para um concerto tecnicamente muito bem conseguido. As poucas falhas que existiram só ajudaram a humanizar a performance.

O alinhamento prosseguiu com “A Essência – Vem Sentir” e a popular “Força (Uma Página de História)”. “Custou mas foi, porra”, exclamou Virgul perante a multidão que cantava as letras da banda fundada em Almada no início dos anos 90. A balada “Dúia”, a seguir, provocou um enorme coro em uníssono — e, olhando para a multidão, encontrava-se um público completamente transversal a vibrar em comunhão.

A homenagem a “Jay”, a viagem só de ida ao “Carrossel”, o eterno single “Dialetos de Ternura”, o hardcore de “Bomboca (Morde a Bala)” ou “GTA” ajudaram a reafirmar pela enésima vez os Da Weasel como a banda de fusão que são. Com bagagem do heavy metal e do hardcore, com a linguagem, a cadência e a intervenção social do rap, sonoridades de reggae ou dub, influências múltiplas. Os Da Weasel têm o próprio género de música.

“Que maravilha! Obrigado, Alive. Obrigado, Lisboa. Obrigado tudo, porra!”, gritou um Carlão visivelmente feliz e comovido do palco. Lamentavelmente, “Casa – Vem Fazer de Conta” não contou com a participação de Manel Cruz — ele que atuou no palco secundário também neste dia de NOS Alive — mas o público substituiu bem o artista portuense ao entoar o refrão magnético da canção. 

“Mundos Mudos” foi interpretada de forma sublime, em “Niggaz” regressou a energia visceral que também sempre caracterizou a banda — com Virgul a servir como o excelente hype man que sempre foi (antes de se emancipar com a sua melodia ragga nas canções). O alinhamento contemplou ainda “O Puro”, “Outro Nível”, “Pedaço de Arte” e, claro, uma “Re-tratamento” cantada por mais de 50 mil pessoas em simultâneo. No final houve até um momento acappela em que Virgul pediu ao público para cantar sozinho, num dos segmentos mais comoventes do espetáculo.

Antes da sempre atual “Todagente”, Carlão ainda revisitou “Bora Lá Fazer a Puta da Revolução”. Já na bem-disposta “Toque-toque”, o rapper desceu até ao fosso para ir buscar a filha mais nova e cantar com ela ao colo. “Hoje temos uma responsabilidade acrescida porque os nossos filhos estão cá. Vão apontar todas as falhas que fizemos. Antes não existiam”, brincou Virgul.

Os Da Weasel não saíram sem interpretar o primeiro single de todos, “God Bless Johnny”, quando ainda cantavam em inglês — foi, sem dúvida, a faixa menos familiar para a multidão neste que foi um alinhamento equilibrado. O final chegou, claro, com a energia e a cumplicidade de “Tás na Boa”. “Sejam felizes, obrigado”, disse Virgul, num concerto de poucas palavras, mas de muitos sorrisos e brilho nos olhos. 

A despedida, com os seis elementos bem junto do público, chegou com o piano de “A Palavra”, de Bernardo Sassetti, num momento melancólico que pode ter servido para os Da Weasel dizerem uma coisa: não contem com o nosso regresso. Depois de tantos ensaios e reencontros, tenho dúvidas de que os Da Weasel não tenham mais páginas para adicionar à sua rica história. Mas o grupo não se quis comprometer e encerrou o filme, talvez prudentemente, sem um final aberto. Cá estaremos para todas as sequelas que desejarem conceber.

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