Música

Das violações a menores ao culto do sexo: os crimes que condenaram R. Kelly

Os rumores de que gostava de ter relações com menores circulavam há duas décadas. O cantor foi finalmente condenado a pena de prisão.
R Kelly foi condenado a 30 anos

Foram precisos mais de 20 anos de polémicas e acusações até que R. Kelly se encontrasse numa situação da qual não conseguiria sair. Durante mais de duas décadas, a fama do cantor de R&B perseguia-o.

Era acusado de gostar de jovens, muitas vezes demasiado jovens. Os rumores e as acusações nunca passaram disso mesmo. Quando as acusadoras não eram convencidas a calarem-se com acordos de confidencialidade mergulhados em dólares, os casos desabavam nos tribunais.

Agora, o julgamento de seis semanas que terminou com o júri, em setembro de 2021, a concluir que R. Kelly era efetivamente culpado, tem finalmente uma sentença. O músico irá cumprir 30 anos de prisão por atos de extorsão e tráfico sexual de menores.

Os problemas e polémicas que envolvem R. Kelly remontam a 1994, ano em que casou com a cantora Aaliyah, que viria a morrer num acidente de avião em 2001. No ano do casamento, Kelly tinha 27 anos. Aaliyah tinha apenas 15.

Tudo aconteceu numa cerimónia secreta, numa união que só aconteceu porque a jovem mentiu sobre a sua idade. O casamento viria a ser anulado em 1995. Saber-se-ia mais tarde que R. Kelly participou ativamente na mentira, ao ajudar Aaliyah a forjar uma identidade falsa.

Apesar de toda a polémica, nenhum dos dois artistas voltou a tocar no tema ou a falar sobre a sua relação íntima. Porém, R. Kelly viria a ter problemas dois anos depois, em 1996, quando foi acusado por Tiffany Hawkins de lhe ter provocado “dano pessoal e stress emocional”.

Hawkins teria estado numa relação com o cantor em 1991. Mais uma vez, a idade levantou suspeitas: ele tinha 25, ela 15. Kelly terminou a relação quando a namorada completou 18 anos. O caso acabaria por não chegar a tribunal e foi resolvido com um acordo extrajudicial.

Cinco anos depois, novo caso. Tracy Sampson processava o cantor que alegadamente a terá seduzido e com quem teve relações sexuais. Tinha 17 anos. “Ele tratava-me como um objeto sexual. Tentava controlar todos os aspetos da minha vida, inclusivamente aonde ia e com quem estava”, revelou.

Os casos começaram a avolumar-se. No ano seguinte, foi a vez de Patrice Jones acusar o ator de ter tido relações sexuais consigo quando era ainda menor. Da relação surgiu uma gravidez, terminada com um aborto. Em simultâneo, Montina Woods processou Kelly por este ter alegadamente gravado a sua relação sexual e ter deixado que as imagens circulassem em vídeos piratas. Todos os casos foram resolvidos com acordos extrajudiciais.

O escândalo rebentou definitivamente em 2002, quando Kelly foi formalmente acusado de 21 crimes de abuso sexual de crianças, uma acusação apoiada em diversos vídeos dos atos. No centro desse caso estava uma jovem que permaneceu anónima, mas que alegadamente seria menor à altura. O vídeo ficou famoso por alegadamente mostrar Kelly a urinar na menor.

O músico foi preso, mas saiu depois de pagar a fiança de perto de um milhão de euros. O caso chegaria a tribunal seis anos depois e Kelly foi ilibado por não ter sido possível provar que a jovem que estava nos vídeos era efetivamente menor. Ilibado mas não livre, voltou a ser detido para enfrentar mais 12 acusações com origem em novos vídeos — mais uma vez escapou do julgamento.

Apesar de ser, para parte do público e da indústria, um ativo tóxico, R. Kelly continuou a trabalhar e a lançar discos até que, em 2017, nova onda de acusações o arredaram por completo da vida pública. Nesse ano, uma reportagem do “BuzzFeed” revelava que o músico teria raptado seis mulheres naquele que seria uma espécie de “seita sexual”.

Kelly seduziria mulheres que lhe pediam ajuda para singrarem na indústria musical. O artista acolhia-as e, aos poucos, começaria a controlar “o que comiam, o que vestiam, quando tomavam banho, quando dormiam e quando tinham relações sexuais”, isto em “encontros que R. Kelly gravava”. A reportagem deu origem a uma longa lista de acusadoras.

Aaliyah e R. Kelly casaram-se quando a artista tinha apenas 15 anos

Jerhonda Pace foi uma das jovens menores com quem R. Kelly terá tido relações, mas que ficou presa a um acordo de confidencialidade. Em 2017, a jovem decidiu quebrá-lo para apontar o dedo ao músico. Já Kitti Jones acusou-o de a ter coagido a ter sexo com outras mulheres, de a ter agredido e de a ter obrigado a passar fome.

Pelo caminho, foi também processado por uma ex-companheira que o acusava de lhe ter passado doenças sexualmente transmissíveis. Os relatos começaram a surgir de dentro do próprio círculo próximo do músico. Lovell Jones confirmou à “BBC” que Kelly lhe havia pedido para procurar mulheres “que parecessem novinhas” em diversas festas. Era “sabido por todos” que Kelly preferia as jovens, referiu.

2018 foi finalmente o ano em que o público forçou um boicote total ao cantor, que ainda assim continuou a dar concertos, apesar da sua equipa pessoal, entre advogados e assistentes, começarem a desertar. “Só Deus me pode calar”, desafiou Kelly. “Devo ir para a cadeia ou ficar sem a minha carreira só por causa da vossa opinião?”

Em 2019, um documentário mudou tudo. “Surviving R. Kelly” revelou, ao longo de seis horas, um cenário macabro que convenceu finalmente a editora do músico a cortar ligações. Os concertos foram todos cancelados.

Foi também nessa sequência que foi divulgado um vídeo de Kelly a ter relações sexuais com uma jovem de 14 anos e que levou a uma acusação por abuso sexual agravado. O artista negou tudo. “Este não sou eu. Eu não fiz nada disto”, contou à “CBS”.

As autoridades voltaram à carga e a essa acusação juntaram mais 11 acusações de agressão sexual e abuso de menores entre os 13 e os 16 anos. E o cenário ficaria pior quando, nesse mesmo ano, foi acusado de tráfico sexual e prostituição.

De acordo com as autoridades, Kelly seria o cabecilha de um esquema de aliciamento de jovens menores, que depois eram recrutadas e transportadas pelos seus colaboradores, para terem relações sexuais que depois seriam gravadas. Foi também acusado de pagar a jovens menores em troco de sexo. “Para além de absurdas”, disse Kelly sobre todos os factos apresentados.

Seria apenas o início de dois longos anos de peripécias na justiça. Ainda na cadeia, em 2020, Kelly foi agredido pelo colega de cela e, um ano depois, a relação com Aaliyah voltaria para o assombrar: na sala de audiências, uma das advogadas do cantor confirmou que Kelly teve relações com a artista quando ela ainda era menor de idade.

Os vereditos de “culpado” começaram finalmente a chegar no final de 2021, quando ao fim de seis semanas, o júri decidiu confirmar que Kelly seria culpado das nova acusações que enfrentava. Nos bastidores, cenários mais negros se passavam.

Dois meses depois, um homem foi condenado a oito anos de prisão por ter intimidado uma das testemunhas de acusação no julgamento de R. Kelly. Michael Williams incendiou o carro do pai de uma das testemunhas para tentar evitar que fosse a tribunal.

Nada disso impediu a sentença que chegaria tarde, mas que acabaria por ser confirmada esta quarta-feira, 29 de junho, com Kelly a ser condenado a 30 anos de prisão, vinte anos depois de todas as suspeitas virem a público.

Kelly escapou sempre, até hoje

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