Música

David Carreira: “Já atuei em todas as discotecas de Portugal e arredores. É o pior”

A NiT entrevistou o cantor, que está a celebrar 10 anos de carreira com uma série de concertos especiais em grandes salas.
O músico e ator tem 30 anos.

David Antunes — que assumiu o apelido artístico Carreira, na sequência do pai Tony e do irmão Mickael — apresentou-se na área do entretenimento como o protagonista da oitava temporada de “Morangos com Açúcar”. 

Nessa fase começou a gravar as músicas que formariam o seu primeiro disco, “Nº 1”, editado em 2011. Na altura era uma experiência — não algo que levasse propriamente a sério. Meio por acidente, meio por mérito, tornou-se no início de um percurso que o consolidou como um dos músicos mais populares de Portugal.

Os espetáculos previstos para o ano passado para celebrar o décimo aniversário de carreira transitaram para este ano devido à pandemia. David Carreira vai atuar a 26 de março no Pavilhão Multiusos de Guimarães, a 5 de novembro no Coliseu de Elvas e a 3 de dezembro no Pavilhão Rosa Mota – Super Bock Arena, no Porto. Ao longo do ano vai dar outros espetáculos, mas estes que celebram os dez anos de carreira terão experiências especiais.

A NiT encontrou-se com David Carreira poucas horas antes de um destes concertos oficiais de celebração, nos bastidores do Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Leia a entrevista.

Costuma sempre estar sempre tão tranquilo antes dos concertos?
Sim, neste se calhar mais do que nos anteriores. Sobretudo nestes especiais — são todos especiais, mas tens sempre aqueles de início ou fecho de tour, acabam por ter um significado mais importante — tento aproveitar ao máximo. Não estar muito preocupado sobre se vai falhar alguma coisa, se alguém se vai enganar nas coreografias ou se a luz não vai bater certo, ou se um arranjo não vai funcionar. No caso deste concerto é isso: os dez anos são um marco. É mais uma razão para celebrar e curtir e não estar muito preocupado como acabas por estar quando estás na rotina dos concertos numa digressão. Mas penso que esta é a melhor tour que já fiz até agora. 

Mais elaborada, porque também foi crescendo enquanto artista?
Sim, e a minha equipa também. Tenho um núcleo que se mantém, mas também tento ter cada vez mais pessoas que conseguem contribuir para melhorar a minha performance. Porque um concerto não sou só eu. Esta tour, como o álbum que se segue — que vai sair no fim do ano —, sinto que vai culminar numa cena que não sei se vou conseguir fazer melhor.

Suponho que a ideia seja sempre dar um passo maior a seguir.
Mas depois torna-se difícil. Apesar de o coliseu ser uma sala mais pequena do que a Altice Arena, que fizemos em 2019, sinto que este concerto é capaz de ser melhor. Porque tem todo um simbolismo por trás e alguns momentos em que saio do concerto e que conto uma história desses dez anos. Por exemplo, na introdução vou interpretar a primeira música que cantei aqui quando fiz o primeiro coliseu. É um bocado um piscar de olho de ‘bora reviver o que passámos aqui. E, por exemplo, mostramos um vídeo onde estou a criar o “Do Jeito Dela” para a Carol.

Qual foi o seu primeiro concerto?
O primeiro com banda foi na Suíça, mas já tinha feito muitas discotecas antes. Posso dizer que isso é o pior [risos].

É o circuito de entrar de madrugada, cantar poucas músicas e ir embora.
E entras quando o pessoal já consumiu, porque não é interessante para o dono da discoteca entrares antes. Então não é propriamente o melhor sítio para um cantor. O primeiro foi num club em Sernancelhe, não sei se se chamava Via Láctea… Foi no final de 2011, depois de lançar o álbum em outubro. Fui fazendo clubs porque queria apanhar “o pior público possível”, ou o pior sítio para tocar possível, para ganhar traquejo. Só comecei a atuar com banda um ano depois. Já tinha feito todas as discotecas de Portugal e arredores [risos]. Tenho histórias que hoje considero engraçadas — mas nessa época não eram.

Quer contar alguma?
Na altura da Páscoa, fiz um club que era o Cais ao Rio em Vila Real de Santo António, ao pé do parque de campismo. O club só abria no verão mas a dona tinha decidido abrir na Páscoa. Então o artista era eu. Chego lá, um espaço para 2 mil pessoas tinha umas 25 ou 15 pessoas em frente do palco. O pessoal da produção era mais do que o público. Portanto, tive assim umas histórias engraçadas [risos]. Um ano depois começámos a tour com o concerto na Suíça.

Aí com um espetáculo muito mais sério.
Sim, já com banda, com um espetáculo pensado… Ainda não tinha bailarinos, era só eu e a banda, mas já era… O primeiro palco que fiz na altura e que me fez pensar “sou um artista” foi o primeiro coliseu. Foi o primeiro palco em que fiz o desenho e disse que gostava de ter isto ou aquilo. Lembro-me de que fiquei a olhar e a pensar: estou noutro campeonato, já ninguém me pára [risos]. Penso que todos os cantores, quando chegam ao primeiro concerto emblemático, todos nós guardamos um bocado isto como o primeiro impacto, o “uau”.

Começou como jogador de futebol, mas teve de desistir por causa de uma lesão. Mais tarde começou a fazer trabalhos enquanto modelo. Tornou-se ator e só depois músico. Obviamente, a música sempre foi algo muito presente na sua vida. Quando percebeu que era realmente isto que ia fazer? Foi quando começou a trabalhar no primeiro disco?
Não, o primeiro disco foi só para fazer. Nunca pensei muito nas coisas, fui sempre fazendo. Apetece-me fazer isto, ‘bora fazer. E pensei: se isto correr bem, faço alguma coisa durante um ano à volta da música, não sei bem o quê. Se não correr bem, vou estudar. Era para tirar Economia, até tinha boas notas, por isso, estava numa de experimentar. Os “Morangos com Açúcar” foi a mesma coisa, ‘bora experimentar, faço o álbum durante os “Morangos”, lanço-o, aquilo corre bem e penso “olha, vou fazer uns clubs”. 

A participação nos “Morangos com Açúcar” aconteceu naturalmente depois dos trabalhos que fez como modelo?
Os trabalhos como modelo foram mais… chegavam umas propostas e “‘bora fazer”. Nunca pensei “quero ser modelo”. E na música só começo a perceber que posso pensar nisto a longo prazo a partir do primeiro álbum francês. Já tinha lançado dois cá. E com o terceiro, comecei a pensar “já são três álbuns, isto está a correr bem”. São sonhos que tu não imaginas que sejam para ti, às vezes, não acreditas. A sorte que tive é que as coisas correram bem.

Não foi só sorte.
Sim, mas acaba por ser um bocadinho, porque no início era muito verde. E tive a sorte de o primeiro single ter corrido bem, o primeiro álbum correu bem. Isso deu-me a possibilidade de fazer um segundo álbum, um terceiro…

Atualmente, olhando para trás, sentia aquela pressão de ser diferente do seu irmão e do seu pai? E de corresponder às expetativas das pessoas que o conheciam através deles? Ou não?
Nunca pensei nisso. Sempre soube o que queria e o que não queria fazer. E ia fazendo até perceber que gostava disto ou daquilo. Musicalmente também. Isto não quero fazer, ‘bora experimentar até encontrar o meu estilo musical. Em todos os álbuns é sempre assim. Não penso, antes de um álbum, “olha, quero fazer isto” e vou atrás daquilo. Não. ‘Bora curtir e o álbum vai surgir por si. Depois chega a fase em que vai surgir o núcleo do álbum e vais perceber que é aquilo. Ma minha carreira acho que sempre foi um bocado isso, nunca foi “quero fazer uma cena diferente para mostrar que sou diferente”. Fazia aquilo que sentia. Agora olho para trás e encontro cenas em que hoje não me revejo. 

Músicas que fez?
Sim. Mas isso é que é engraçado, porque mostra uma evolução. Certas músicas não canto ao vivo, apesar de saber que os fãs gostam muito. Porque sinto que já não sou eu. E outras continuo a cantar porque sinto que… não sou eu hoje, mas ainda me revejo nelas. Como o caso do “Perdido”, que fizemos um arranjo completamente diferente para este concerto e que parece uma nova música. Foi o primeiro som que gravei.

Musicalmente, consegue identificar o que mudou desde o seu primeiro disco? CAas tendências musicais e os gostos de cada um também se vão alterando.
Mudou bué, mas sinto que agora está a voltar um bocado ao que era há dez anos. Apercebi-me disso no “Perdido”. É um dance, uma música acelerada, e se ouvires o arranjo do primeiro álbum… na altura fui por uma onda muito eletrónica. Trabalhei com uma equipa de produtores em França que faziam muito hip hop, mas também cenas mais de DJ. Neste arranjo, mantivemos o BPM, só que em vez de um kick eletrónico temos uma banda. Fica bué atual, mas a música é a mesma. No caso do “Esta Noite”, o original tem aqueles sintetizadores à David Guetta que estavam a bater na altura. Hoje em dia tens a banda a malhar em cima e fica uma cena mais Jamiroquai, mais musical. Sinto que, à medida que fui envelhecendo, como qualquer cantor, fui-me tornando mais musical. E as próprias tendências estão a voltar um bocado a essa onda mais dance, mas com outros sons, mais orgânicos. Foi o que aconteceu ao longo da minha carreira — aos poucos tudo se tornou mais orgânico.

Neste novo álbum, que irá sair no final do ano, também é nessa direção que aponta?
É um misto [risos]. Tens um lado que é o antigo, dentro do que fiz até agora. É sempre fixe manteres essa linha, mas também trazer uma coisa nova. É como se o álbum tivesse duas direções diferentes. 

Continua a fazer muito trabalho como ator, que deve ser difícil conciliar com a música. Obviamente, gosta de ambas, e durante muito tempo focou-se mais na música. Nos últimos anos, talvez também por causa da pandemia, virou-se mais para a representação. Mas, este ano, tudo indica que os músicos vão poder voltar a viver normalmente da sua arte. Como vê as duas áreas neste momento?
Se me deres a escolher, é sem dúvida a música em primeiro lugar. Mas gosto muito de representar. No início da minha carreira, às vezes, ficava na dúvida sobre se deveria continuar a representar, porque em Portugal não é muito usual uma pessoa fazer duas coisas.

Especialmente a um nível tão popular.
O ser humano, no geral, tem a tendência de criar etiquetas. O que é que ele faz? Aquele gajo é do rock. Aquele é DJ, aquele é ator. E eu ficava na dúvida. Porque acabas por não mostrares o que és. Mas à medida que fomos avançando, para quê ficar só numa coisa? É óbvio que prefiro cantar, mas também quero representar. A pandemia deu-me a hipótese de poder voltar a representar, porque tinha pouca coisa na música. Para já, a ideia é manter as duas até conseguir conciliar. Até agora está a ser tranquilo, por enquanto, está a dar. E também vão surgir vários projetos ligados à televisão.

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