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David Gilmour Vs. Roger Waters: a guerra que não parece ter fim

O cronista da NiT, Nuno Bento, é fã dos Pink Floyd e explica os últimos desenvolvimentos na guerra entre os membros da banda
David e Roger em 2010, numa rara noite de cessar-fogo

Quase tão antigo como o conflito israelo-palestiniano, e tão ou mais interessante, é o conflito Waters-Gilmouriano. Duas estrelas que durante duas décadas colidiram numa supernova criativa e que agora parecem não sair do buraco negro. As duas últimas semanas trouxeram muitas novidades, mas desta vez nem todas são más. Aqui o Nuno Bento, parte interessada neste conflito há mais de 30 anos, dá-vos o update do essencial.

Comecemos pelo fim. Esta segunda-feira, 7 de junho, saiu uma entrevista à revista “Rolling Stone” do casal inseparável John/Yok…, errr desculpem, David/Polly, onde o tio David atira a matar sobre o tio Roger. Na parte mais escaldante da entrevista, a inevitável pergunta dos Pink Floyd, David não mostrou a sua habitual contenção:

RS: Is there anything going on with Pink Floyd on the archival front? There’s been talk of an Animals reissue in recent years.

Gilmour: Well, a very lovely Animals remix has been done, but someone has tried to force some liner notes on it that I haven’t approved and, um, someone is digging his heels and not allowing it to be released.

Samson: But you don’t have liner notes, do you?

Gilmour: No, we’ve never had liner notes.

Samson: Why are you suddenly having liner notes?

Gilmour: Because someone wants them, and they got a journalist to write some, and I didn’t approve them. And he’s just getting a bit shirty. You know how he is, poor boy.

Ora, esta entrevista e esta resposta em particular, explicam o que aconteceu na semana passada na barricada do tio Roger que, como sabemos, não é propriamente conhecido pela sua contenção. Num vídeo carregado de veneno, o Roger anunciou o lançamento da nova remistura do álbum “Animals”, bloqueada desde 2018 pelo conflito Waters-Gilmouriano, tudo graças àbonomia do próprio Roger, que ia ceder pela sua parte e anuir ao lançamento sem as liner notes escritas por Mark Blake (autor de “Pigs Might Fly: The Inside Story of Pink Floyd”), que contariam a história por trás da criação do álbum e que David se recusava a incluir nesta reissue. Algumas notas sobre isto.

Em primeiro lugar, o David está (quase) correto em como, mal ou bem, os lançamentos dos Pink Floyd nunca têm liner notes. Curiosamente, a exceção de que me recordo é a caixa “Shine On”, que o próprio David lançou como projeto pessoal em 1992, possivelmente para “legitimar” os seus Floyd ao lado dos classic Floyd, numa altura em que o assunto ainda era, e muito, discutido. Hoje acho que não há discussão: os Floyd dos 80’s e 90’s são tão Floyd como os dos 70’s. Retirando essa (curiosa) exceção, de facto, os lançamentos dos Floyd costumam deixar a música falar por si e deixar o “behind the scenes” envolto em mistério.

Depois, como é óbvio, a inclusão destas liner notes é mais do interesse do Roger do que do David, uma vez que o Roger é que foi o principal responsável pela criação e pelo conceito do álbum “Animals”. Se David tivesse levado a sua ideia avante, o álbum “Wish You Were Here” teria sido formado por três longas composições: “Shine On You Crazy Diamond” no Lado A e “Raving And Drooling” e “You Gotta Be Crazy” no Lado B. Teria sido um álbum largamente instrumental mas, segundo Roger (e bem), sem um fio condutor. Com a composição conjunta do tema “Wish You Were Here”, o disco ganhou uma nova direcção e o resto é história. Para “Animals”, uma nova perspetiva orwelliana recuperou “Raving And Drooling”, de Roger, como “Sheep” e “You Gotta Be Crazy”, de David, como “Dogs”. A face política de então inspirou Roger para “Pigs (Three Different Ones)” (com a ajuda de um loop de Rick Wright e que nunca foi creditado) e estava assim feito o álbum mais sombrio dos Pink Floyd. Para Roger, ele compôs 4/5 do álbum. Para David, ele compôs metade, uma vez que “Dogs” compõem a quase totalidade do Lado A. Ambos têm razão à sua maneira, mas é impossível fazê-los concordar em quem fez mais ou em quem fez o que (o que, convenhamos, é um bocado triste quando pensamos que estes senhores já tem 80 anos). As liner notes de Mark Blake, mais elogiosas para o Roger, foram assim naturalmente vetadas pelo David. E assim chegámos a três anos de um conflito sem fim à vista. Até há semana passada.

O vídeo de Roger a anunciar a reedição de “Animals” apanhou toda a gente de surpresa, primeiro porque ninguém sabia por que este projeto estava bloqueado; e segundo, porque não lhe cabe a ele fazer esse anúncio. Para todos os efeitos, o Roger saiu da banda em 1985, anunciando que os Pink Floyd eram uma “força esgotada”. David tinha outras ideias e levou a bandeira dos Pink Floyd pelos anos 80 e 90, introduzindo a banda a novas gerações (eu incluído), provando que Roger estava errado. Entretanto, os Pink Floyd tornaram-se num million dollar business e Roger, responsável pela maioria da sua música, ficou de fora da esfera de decisões, por (má) decisão própria. Para o bem e para o mal, é assim que funciona. Chegados aos dias de hoje, temos o ridículo dos livros de Polly Samson a serem anunciados no site oficial dos Pink Floyd e os projetos de Roger Waters, (auto-denominado) génio criativo dos Pink Floyd, fora do site, fora do Facebook, fora de tudo. É ridículo, sim, mas o Roger só se pode culpar a ele próprio. Por mais que esbraceje e ataque o David, nada vai mudar nesse sentido.

Nesta guerra sem fim, o Roger foi suficientemente esperto ao antecipar os comentários da entrevista da Rolling Stone (certamente alguém o avisou do que aí vinha) e, com este vídeo, sair como o herói da situação para os fãs, e colocar o David entre a espada e a parede (e ao mesmo tempo lançar as famigeradas liner notes no seu site — o tio Roger não dá ponto sem nó — enquanto chamou David de “a jolly good guitarist and singer”). Depois da cedência de Roger, David está agora obrigado a lançar a remistura de “Animals”, sob pena de sair como o vilão da história que age puramente por despeito e perder a imagem de “nice guy” que tem na audiência. E esta é a única boa notícia para nós, fãs dos Pink Floyd, que estamos para este conflito como os filhos de um casal divorciado que não se consegue entender. Do mal o menos, vamos mesmo ter a caixa de “Animals”, com novas remisturas em Stereo e Surround e uma nova e mais recente imagem da magnífica Battersea Power Station, onde este que vos escreve trabalhou durante dois anos como Lead Engineer de Temporary Works (a jóia da coroa da minha carreira profissional).

Nesta altura, já não espero que os meus dois ídolos se entendam, mas como diz o David no fim da sua entrevista na “Rolling Stone”: “We live and we hope”.

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