Música

De “Portas do Sol” ao álbum: a jornada de Nena, a nova artista pop portuguesa

“Ao Fundo da Rua” é o primeiro disco da cantora e compositora de 25 anos — e os concertos de apresentação já estão marcados.
Nena lançou o seu primeiro disco.

Nena surgiu com estrondo em 2020, com um single que invadiu as playlists de algumas das maiores rádios nacionais, e que se tornou um êxito digital. Falamos de “Portas do Sol”, no qual a jovem artista lisboeta — hoje com 25 anos — relatava uma pequena história de amor enquanto passeava por vários sítios da capital portuguesa.

Dois anos depois, “Portas do Sol” já soma mais de cinco milhões e 200 mil visualizações no YouTube. No Spotify, são mais de nove milhões e 200 mil plays. Os números são impressionantes e refletem a quantidade de pessoas que descobriram Nena neste período.

Seguiram-se outros singles, como “Do Meu ao Teu Correio”, “Passo a Passo” ou “Segui”, que culminaram na passada sexta-feira, 18 de novembro, com a edição do álbum “Ao Fundo da Rua”. Inteiramente escrito e composto por Nena, é o seu primeiro disco. 

O álbum vai ser apresentado a 2 de dezembro no Casino Estoril (espetáculo que já se encontra esgotado); e a 25 de janeiro na Casa da Música, no Porto, para o qual ainda existem bilhetes, disponíveis entre 15€ e 20€. Os convidados especiais confirmados são Bárbara Tinoco, João Só e Carolina de Deus. A NiT falou com Nena sobre o projeto. Leia a entrevista.

O trabalho que acabou de lançar é o culminar de uma jornada que começou com o single “Portas do Sol”. Estava à espera que o tema tivesse tanto impacto?
De todo. Admito que, quando lancei a música, achei só que ia experimentar e ver o que acontecia. Nunca pensei que iria ter o sucesso que teve. Por isso admito que foi assim a minha porta de entrada no mundo da música e para ir a tantos sítios, para fazer tantos concertos, para poder lançar o meu disco. Estou eternamente agradecida à atenção que as pessoas deram a esta música.

Sei que pode ser difícil dizer, mas o que é que acha que resultou tão bem com o single?
Na altura estávamos em pandemia, foi em 2020, e acho que o tema da música — que fala de casa, de Lisboa, especialmente para todos os portugueses que estão cá e também lá fora… Acho que as pessoas se relacionaram de alguma forma. A música dá-nos aquela sensação de amor, nostalgia, um bocadinho tudo num só. A melodia fica definitivamente no ouvido e isso ajuda [risos], a que as pessoas queiram cantar e partilhar, o que é ótimo.

Há alguma história sobre a composição dessa música em particular? Como é que pensou nela?
Há muitas pessoas que me perguntam isso, mas não há nenhuma história, não é verídico. O que sabia é que queria muito escrever sobre Lisboa, já tinha aqui este bichinho há muito tempo, especialmente porque é uma cidade com tanta história e por isso queria um bocadinho criar aquela sensação de um amor passado, com a história passada de Lisboa, e tentar desenvolver uma metáfora entre os dois. Comecei a escrever, acho que foi a música mais rápida que escrevi — foi mais ou menos entre 15 e 20 minutos. E ainda bem que as pessoas gostaram tanto [risos].

Suponho que também tenha influenciado aquilo que depois o disco se tornou.
Definitivamente. Gostei muito da receção que esta imagem de Lisboa e de cidade teve com a música, e por isso quis pegar no meu disco e falar das ruas de Lisboa, das ruas das nossas cidades, dos sítios onde vivemos. Tentar ir buscar essa ideia de: o que é que se passa na tua rua? Ao fundo da rua? A “Portas do Sol” ajudou-me a chegar a esta dinâmica, de perceber que queria exprimir isto no meu álbum.

E houve algumas ruas que a tenham inspirado em particular? Ou trata-se de algo mais imaginário e abstrato?
É completamente abstrato, não há assim nenhuma rua em específico que me tenha inspirado. Diria que as ruas lisboetas me inspiraram, mas claro que isto depois se aplica aonde quer que as pessoas estejam — a ideia é que se relacionem com a sua própria rua. Para mim foi mais Lisboa porque é de onde sou. Mas quero que as pessoas sintam que também estou a falar das ruas onde elas vivem.

Para que todos se consigam relacionar, claro. Escreve e compõe música desde cedo. Sempre quis fazer vida da música, ou nem por isso?
Tirei um curso, estou a terminar agora o meu mestrado — vou entregar a tese, aliás —, e trabalho também em part-time. Por isso, neste momento estou a fazer um bocadinho de tudo [risos]. Mas quero muito fazer música da minha vida e é esse o plano. Mas, pronto, faz parte, acho que uma pessoa vai percebendo isso com o passar do tempo e tenho vindo a perceber que música é mesmo aquilo de que gosto mais de fazer. 

Está a estudar na área da comunicação, não é?
Sim, na área de marketing e comunicação.

Mas quando começou a compor, com 12 anos, tinha a ambição de fazer música profissionalmente? Ou era só uma diversão, na altura?
Queria muito fazer música, desde sempre. Mas admito que fui por aquele caminho mais “seguro”, porque queria tirar um curso e gosto bastante de estudar, sempre gostei de aprender e de ler. Também foi um curso que me deu algumas ferramentas para todo o tipo de coisas e nunca é tempo perdido. São coisas que fazem parte do meu caminho e que me ajudam de alguma forma a também estar mais à vontade. 

O processo da construção do disco em si foi mais complexo do que estava à espera? Ou acabou por ser simples porque já faz música há vários anos, ainda que não de forma profissional?
Começámos a fazer este disco já há dois anos. Também por causa da pandemia, houve assim muitos intervalos grandes. Foi um processo mais demorado do que eu achava, porque já tinha as músicas todas feitas há muito tempo. O que foi mais demorado foi a parte em estúdio, perceber o que é que queria exatamente que as músicas se tornassem. Mas foi um processo mesmo bom. Adoro estar em estúdio, é mesmo bom poder ver as nossas músicas a transformarem-se assim numa coisa grande. E sempre com aquela sensação de que quero entregar isto ao público. Porque, quando escrevo, admito que escrevo para mim. Estou a escrever porque preciso de escrever. E no estúdio há aquela sensação de “quero entregar isto ao público”. Já estou desejosa de voltar a estúdio, no fundo é essa a sensação com que fico.

Estava a referir que compôs a “Portas do Sol” muito rapidamente. Tem alguma fórmula criativa que costume usar, ou acontece de forma muito natural, quando tem uma ideia e começa a desenvolvê-la?
É totalmente espontâneo. Pego na guitarra, começo a tocar e vejo para onde é que a minha voz me está a levar. E se tenho uma ideia específica do que é que quero escrever, tento um bocado incorporar isso. Às vezes começo a escrever com uma ideia e depois vai para outro lado completamente oposto. Depende muito, mas para mim é totalmente espontâneo. E sei que vou gostar da música se fizer logo tudo. Se deixar nas minhas notas para depois acabar, já sei que se calhar não vou agarrar a música da mesma forma. Aquilo de que gosto mesmo é ter aquela inspiração repentina e escrever tudo em papel e também gravar. Isso diz-me logo se a música vai ter sucesso ou se gosto ou não da música.

E depois há o processo mais pensado do estúdio e da gravação, com foco no resultado final para apresentar ao público.
Exato!

Suponho que agora também esteja ansiosa pelos concertos de apresentação que vai ter.
É verdade [risos]. Ao longo deste ano dei alguns concertos, com algumas destas canções, mas estes vão ser os dois primeiros em que vou apresentar oficialmente o disco — a 2 de dezembro no Casino Estoril, que já está esgotado, e estou mesmo muito feliz; e a 25 de janeiro de 2023 na Casa da Música, no Porto, para a qual ainda há bilhetes. Estou mesmo muito contente, porque apresentar um disco, além de estar a mostrar as canções ao vivo para todas as pessoas, inclui toda aquela coisa de pensar num cenário e na forma como o espetáculo se vai desenvolver. É super especial. É criar aquela imagem real com aquilo que estava a tentar dizer nas canções. 

Qual diria que é a sua maior ambição na música?
Não sei, sinceramente sei que isto vai parecer um bocado clichê, mas só quero mesmo passar uma mensagem e que as pessoas se sintam bem a ouvir as minhas músicas — ou que sintam alguma coisa, ou que se relacionem com as músicas. Que, no fundo, tornem o dia de alguém melhor. É mesmo o meu objetivo com o facto de estar a partilhar as minhas músicas. Em outubro apareci na Times Square, numa playlist que é a Equal do Spotify, e foi espetacular — nunca imaginei que iria aparecer. São coisas que vão acontecendo e eu não estava de todo à espera. Acho que aquilo que também é especial neste caminho todo é sermos surpreendidos pelas coisas que vão acontecendo. Mas não penso muito no que é que pode acontecer [risos].

Estava a falar da importância da mensagem e que deseja que as suas músicas toquem as pessoas, no fundo. Suponho que, com o “Portas do Sol” e os singles que se seguiram, tenha recebido muitas reações através das redes sociais ao longo dos últimos dois anos. Esse feedback do público é importante para si?
Super importante, não há nada de que goste mais do que ler as mensagens, do que ter alguém no fim do concerto a vir dizer-me porque é que a música lhe tocou de alguma forma. Acho que é super especial. Pelo menos levo um bocado a coisa assim. Ainda bem que tenho a oportunidade e que honra é poder partilhar o meu talento com uma pessoa que precisa de ouvir alguma coisa especial ou de ouvir uma canção que lhes toque. Fico mesmo muito feliz de poder fazer isso. 

Obviamente, este caminho de dois anos de construção do álbum há-de refletir o seu amadurecimento musical. Sente que é hoje uma artista mais completa do que era há dois ou três anos? Cresceu nesse sentido?
Não sei [risos], claramente em estúdio aprendemos muito e estou sempre a ouvir e a descobrir artistas novos. De futuro, quero continuar a ser eu, Nena, e a fazer aquilo de que gosto, mas quero experimentar coisas novas. E este disco está exatamente o que era suposto ser.

O que é que gostaria de fazer a seguir?
Em termos musicais, gostava muito de experimentar coisas novas. E acho que, quem sabe, hei-de ter essa oportunidade, esperemos [risos]. Não consigo dizer especificamente, acho que só o tempo em estúdio o dirá, de ver o que sai de diferente, mas tenho ouvido artistas de música folk, de que gosto muito hoje em dia, talvez quem sabe espreitar por aí [risos], não sei.

Imagina-se, um dia, a escrever e a compor para outras pessoas?
Sim, gostava muito. Ainda não tive a oportunidade de o fazer, mas gostava muito de explorar essa parte, definitivamente. Quis focar-me neste primeiro álbum, mas agora quem sabe… Gostava muito de escrever para outras pessoas. 

Tem alguns duetos de sonho que gostaria de concretizar?
Gosto muito de Os Quatro e Meia, do Miguel Araújo, da Carolina Deslandes, da Bárbara Tinoco, do Tiago Bettencourt… Acho que é uma questão de ver quem é que gostaria de fazer alguma coisa em conjunto mas gostava muito de fazer duetos. E a Bárbara Tinoco vem também cantar ao Casino Estoril, no dia 2, vai ser mesmo giro!

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