Música

Diogo Costa: o violinista que quer levar a música clássica a todos os portugueses

Aos 25 anos, é um dos jovens mais talentosos do País — e um dos finalistas do concurso New Talent. Conheça a sua história.
É um dos fez finalistas do New Talent (Foto: Enric Vives-Rubio/OSF)

Ainda hoje, Diogo Costa não sabe muito bem porque é que decidiu levantar o braço naquela aula de Educação Musical, no longínquo 6.º ano da escola. A verdade é que, na altura, pareceu-lhe uma ótima ideia emprestar a voz ao tema criado pelo professor, que iria ser apresentado num evento musical da pequena cidade com pouco mais de 14 mil habitantes, nascida no sopé da Serra da Estrela.

Este não era um evento qualquer. “Era algo francamente notável para o meio em que acontecia: um festival da canção como deve ser, parecido com os da RTP dos anos 60, com orquestra e tudo. Uma coisa a sério”, recorda. Mais de dez anos depois, ainda não sabe muito bem porque é que se voluntariou. O que sabe é que essa foi uma decisão que lhe mudou a vida.

Subiu ao palco, cantou e perdeu. A derrota valeu pela experiência de estar pela primeira vez rodeado de músicos profissionais e instrumentos desconhecidos. Prometeu a si próprio nesse dia que haveria de experimentar tocar pelo menos um deles. Assim foi. Bateu à porta da escola, pediu para aprender. Que instrumento? O que calhasse. Nas mãos caiu-lhe um violino. “Talvez tenha sido um golpe de sorte, por acaso até foi o violino. Deve ser das poucas coisas da minha vida que aconteceram um bocado por acaso”, conta à NiT. A paixão foi instantânea.

Aos 25 anos, é violinista profissional e um dos finalistas da segunda edição do New Talent, o concurso que elege os melhores jovens talentos do País na área do lifestyle com menos de 27 anos — e cujo vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal. A mestria musical é óbvia, embora não seja essa a principal razão da chegada vitoriosa à lista dos dez finalistas.

Ainda assim, o violino é peça imprescindível na história que começa com um jovem nascido numa pequena aldeia do interior do país — e que chega até Lisboa, entre projetos que procuram repensar o papel da música clássica no País e nesta nova era.

Há música na aldeia

Descobriu a paixão já significativamente tarde. “As educações artísticas sérias e feitas como devem ser começam entre os três e os oito anos. Eu comecei aos 15. Não quer dizer que tenha feito tudo às três pancadas. Foi mais condensado”, explica. A verdade é que este atraso teve que ser compensado com o dobro do trabalho, para ser possível alcançar o nível dos que haviam partido bem antes de si. “É matemática básica”, nota.

Ao contrário de muitos colegas que se apaixonaram pela música, Diogo não quis viajar para longe para aprender a tocar numa das várias escolas privadas que existem pelo País. Começou na escola de música local e na adolescência inscreveu-se no Conservatório de Seia.

Começou a tocar aos 15 anos

O jovem nascido na aldeia de Póvoa da Rainha não se sentiu limitado pelas escolhas. “Tive a sorte de ter um conservatório que me deu uma educação espetacular até ao 12.º ano”, conta.

Sem um impulso familiar — recorda que a única experiência musical da família vinha do avô materno, antigo membro da filarmónica local —, teve também que batalhar para conquistar a confiança dos pais, naturalmente cautelosos.

“É uma questão social e cultural. Quando há poucos exemplos de sucesso à nossa volta, desconfia-se sempre se [ser músico profissional] é uma boa hipótese. Não foi fácil convencê-los de que me queria dedicar a isto a 100 por cento. Depois da decisão, apoiaram-me sempre muito.”

Com muita coisas contra e poucas a favor, Diogo persistiu. “Tive que ir à descoberta de quem eu era.”

Profissão: músico

“Sou um defensor acérrimo de que o talento é um mito, não há talento. Há é pessoas com mais ou menos predisposição para fazerem as coisas de forma mais rápida. Chamamos-lhe vulgarmente talento, mas facilidades na aprendizagem de um instrumento é coisa que não existe”, atira logo à partida, assim que ouve falar em talento.

Confessa também que além do início tardio, sente muitas dificuldades iniciais em tudo o que envolva atividades motoras. O exemplo? Os carros. “Tenho tendência para ser altamente descoordenado no início, mas depois aprendo e torno-me bastante eficiente. Hoje conduzo muito bem. Senti o mesmo com o violino”, recorda, antes de sublinhar que mais importante do que o talento é o trabalho.

“Exige muito de nós, muita dedicação. É quase como uma religião: temos que ter uma fé muito grande e dedicarmo-nos cegamente àquilo.”

Nos planos profissionais nem sempre houve um plano B totalmente delineado. Não é que nunca tenha pensado no que faria se o violino não lhe tivesse sido posto nas mãos. Apaixonado por fotografia, tem várias máquinas e há mais de uma década de se dedica ao hobby, sem nunca o tornar público. E também tem jeito para cozinhar.

“Acho que tenho tendência natural para profissões ligadas à criatividade. Não me consigo ver atrás de um balcão de um serviço público ou como gestor”, diz sobre os planos que nunca passaram da fase abstrata. “Nunca os ponderei seriamente. Esta é uma carreira que para ser bem-sucedida temos que dar 200 por cento.”

Terminado o conservatório, candidatou-se e garantiu um lugar na Academia Nacional Superior de Orquestra, onde fez a licenciatura. Acabou por fazer o mestrado na Universidade do Minho para poder dar aulas de violino — parte de uma espécie de plano b.

“O plano está a correr como é suposto. Estou a fazer a minha vida, a tocar em orquestras”, explica, apesar de notar que “poucas coisas dão estabilidade no meio artístico”.

Quer promover a música clássica atraves do digital

Além das participações em orquestras — colabora regularmente com a Orquestra Sem Fronteiras, um projeto que leva a música clássica ao interior do País —, começou a apostar na produção de concertos e, eventualmente, de conteúdos digitais.

“Houve uma altura em que tive que fazer uma escolha: ou faço algo que não tem nada a ver com a música para ganhar dinheiro, ou começo a fazer outra coisa que não envolva tocar violino, mas que esteja relacionado com a música”, explica.

Chega ao New Talent muito graças a esta vontade de procurar outros desafios, assente num conselho que guardou dos tempos de estudante. “Deram-me um conselho que poucos colegas meus ouviram. ‘Se partires uma mão, vais fazer o quê da vida? Não vais tocar violino. Vais fazer o quê?”.

A música clássica para todos

Começou tudo com a pandemia. Apesar de explicar que nada do que pretende fazer é novo fora de Portugal, por cá, o panorama ainda está a dar os primeiros passos. Fala, claro, da comunicação digital do meio artístico.

O confinamento obrigou muitos músicos “a repensar as carreiras” e no caso de Diogo, motivou-o a encontrar novas formas de comunicar o seu trabalho, visto que os palcos estavam temporariamente encerrados.

A primeira ideia: um podcast. Encomendou um gravador, recordou as aprendizagens das aulas de acústica e começou a gravar conversas com convidados no “Música para 40 Dias”. Com cinco episódios lançados, o projeto viveu na época de confinamento, como forma de dar a conhecer amigos e colegas “com projetos fantásticos em áreas diferentes da música”, mas com muitas dificuldade em “fazerem a promoção do seu trabalho”.

Divulgou o que faz um técnico de som que grava a Orquestra da Gulbenkian ou o talento de um português que toca um instrumento quase extinto, o alaúde, e que “canta e toca ao estilo dos bardos”. Mas o mais importante era quebrar o mito de que a música clássica é um género elitista.

“Esse é o meu propósito número um. A pessoas têm uma ideia pré-formada da música clássica que se desconstrói em cinco segundos. Acham que é apenas Mozart e Beethoven. É que a música clássica define-se tradicionalmente por negação de tudo o resto. É tudo o que está para trás de 1920 que não é jazz, rock ou pop. É um bocado ingénuo achar que 400 ou 500 anos de música são todos iguais ou parecidos”, explica.

Diogo tem uma ideia simples: mostrar que a música clássica é muita coisa, está em muitos sítios e serve muitos propósitos. “Eu próprio não gosto de toda a música clássica dos últimos 500 anos. Interessa-me alguma. Outra nem tanto”, conta.

Ao lado dos colegas, diz já ter identificado a prioridade para a próxima década das artes: a educação do público, isto é, mostrar porque é que a arte, e neste caso a música, é tão importante para a nossa vida. E nessa luta, não se importa de assumir um papel de impulsionador, sobretudo no digital.

Além do podcast, reuniu diversos músicos para lançar vídeos num formato diferente. Ao contrário do live streaming, tão em voga durante o confinamento, Diogo optou por uma abordagem distinta. “Não querendo ser presunçoso, quisemos fazê-lo de uma forma mais elaborada. Tocamos todos juntos, mas em diferido. Cada um fazia a sua parte, gravava e depois editávamos. Tínhamos um produto mais interessante”, recorda.

Desse trabalho surgido no confinamento surgiram outras oportunidades. O diretor da Orquestra Sem Fronteiras convidou-o a replicar a ideia do podcast, num projeto chamado “Abertamente”, que aborda não só a música mas também as artes em geral e a sociedade. Entre música clássica, pode discutir-se, por exemplo, os efeitos da cultura na economia.

Para o futuro, não tem dúvidas: quer tocar violino, mas quer também continuar a produzir conteúdos digitais que abram novos caminhos à música pela qual se apaixonou. E é também por isso que concorreu ao New Talent. O prémio? Servirá para criar uma plataforma de conteúdos digitais que ajude a divulgar o trabalho e o talento de outros músicos.

“Temos que pensar porque é que fazemos as coisas, porque tocamos esta música, a quem queremos chegar. Fazê-lo de forma absoluta, sem pensar, é um desperdício do nosso tempo, porque não estamos a chegar às pessoas, ao público que ainda nos ouviu mas que podia gostar de nos ouvir.”

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