Música

Dua Lipa, a estrela pop que cresceu no Kosovo — e que não tem medo da política

A cantora passou a infância em Pristina, é uma defensora das suas raízes albanesas e vive sozinha em Londres desde os 15 anos.
A cantora vem a Portugal em 2022

Bastou uma simples publicação no Twitter para incendiar a rede social e transformar um mar de elogios numa onda avassaladora de críticas. Na descrição, a estrela pop limitou-se a partilhar a definição do dicionário de autóctone: “Habitante de um local, indígena, por oposição aos descendentes de migrantes ou colonos.”

A acompanhar a descrição estava um mapa do território albanês que, de forma polémica, incluía o Kosovo dentro das fronteiras do país — algo que foi visto pelos críticos como um apoio demarcado à ambição dos nacionalistas albaneses de criarem a Grande Albânia, que nesse cenário aglomeraria todos os territórios onde vivem albaneses.

A publicação feita em julho de 2020 incendiou os ânimos no ainda (e sempre) delicado tema das fronteiras e etnias nos Balcãs. As críticas obrigaram Dua Lipa a esclarecer a posição: sublinhou que não é apoiante de qualquer tipo de separatismo étnico e que nunca pretendeu “incitar a qualquer tipo de ódio”.

“Todos merecemos ter orgulho na nossa etnia e do local de onde vimos. Queria apenas ver o meu país representado no mapa e poder falar com orgulho sobre as minhas raízes albanesas”, explicou a cantora que apesar de ter nascido em Londres, é descendente de kosovares. A publicação, aliás, vinha no seguimento de uma campanha para pedir à Apple que representasse o Kosovo nos seus mapas — algo que não acontecia dado o estatuto polémico do país após a guerra, reconhecido pelo ocidente, não reconhecido pelos aliados da Sérvia, que outrora controlou o território.

Apesar das críticas, a campanha surtiu efeito e a Apple incluiu os limites da fronteira do Kosovo no mês seguinte. A imagem de Dua Lipa saiu beliscada, mas foi apenas um contratempo. Não a impediu de manter o estatuto de grande nome revelação da pop ou sequer de menorizar o sucesso do disco lançado em 2020 em plena pandemia, “Future Nostalgia”, que acumulou seis nomeações para os Grammy e atingiu o número um da tabela de vendas no Reino Unido.

A carreira continua fulgurante e em 2022 passará também por Portugal, com a com concertos marcados para Braga e Lisboa no verão de 2022, respetivamente a 5 e 6 de junho — ela que já tinha passado pelo País em 2017, no palco do Meo Sudoeste.

Se temas como “Don’t Start Now” ou “One Kiss” a tornaram numa celebridade mundial, foi também a sua faceta de ativista que a ajudou a afirmar-se, sobretudo por nunca esconder o seu passado e as suas raízes. Apesar de ter nascido em Londres, a artista de 26 anos é também kosovar de etnia albanesa.

Assim que estalou o conflito nos Balcãs que deu origem à separação da Jugoslávia, milhares de famílias procuraram refúgio pela Europa fora. O destino dos Lipa foi precisamente o Reino Unido, onde os pais de Dua encontraram uma escapatória dos horrores da guerra.

Anesa estava a formar-se em Direito e Dukagjin em Medicina Dentária, mas viram-se forçados a abandonar os estudos assim que os bombardeamentos começaram em 1992. Os seus avós, ambos historiadores, viram-se apanhados no meio da luta étnica. “O meu avô paterno estava a escrever livros sobre tudo o que estava a acontecer e quando se deu a ocupação, os sérvios queriam que ele alterasse a narrativa. Ele recusou e perdeu o emprego”, conta. “Tudo isso faz parte de quem eu sou e quero lutar por aquilo em que acredito.”

Os pais mudaram-se para Camden, onde vivia uma grande comunidade de refugiados do conflito. Viram-se forçados a deixar de lado as ambições académicas e a sobreviver com recurso a empregos em bares e restaurantes. Dua nasceu em 1995, três anos depois da chegada da família ao Reino Unido.

Apesar das dificuldades, pôde formar-se naquela que era a sua paixão, as artes. Aos nove anos começou a frequentar a escola de teatro Sylvia Young, por onde passaram nomes como Rita Ora ou Amy Winehouse. Foi logo aí que a sua voz deu nas vistas, de tal forma que passou imediatamente para a turma dos mais velhos. “Estava aterrorizada, mas o professor foi a primeira pessoa que me disse que eu sabia cantar.”

Tal como muitos outros refugiados, os pais da cantora acalentavam o desejo de regressar à pátria assim que o conflito terminasse. Foi o que fizeram em 2006. Com apenas 11 anos, Dua Lipa acompanhou os pais na viagem de regresso a Pristina, a capital do Kosovo.

“Quando cheguei lá, era apenas a rapariga albanesa que falava albanês com sotaque britânico”, recorda. Acabaria por se adaptar facilmente. “Não me recordo de ter sentido um grande choque cultural”, conta. “[Pristina] era muito mais segura do que Londres e por isso podia fazer muito mais coisas. Podia sair com os meus amigos e ir até ao centro da cidade.”

Com a bandeira albanesa às costas num festival em Pristina, no Kosovo

Ao fim de quatro anos e já com uma noção do talento que tinha, percebeu que dificilmente poderia ambicionar a uma carreira na música a viver em Pristina. A muito custo, conseguiu convencer os pais a deixarem-na regressar a Londres.

Os pais ficariam no Kosovo e Lipa voltaria a Camden, onde iria viver com a filha de um casal amigo dos pais. Apesar de ser mais velha e de ficar encarregue de tomar conta da adolescente, não foi isso que aconteceu.

Dua Lipa passou assim a adolescência completamente sozinha na capital britânica, onde teve que se desenvencilhar. Começou a estudar a tempo inteiro na escola Sylvia Young e a tomar conta de si própria, tanto quanto possível.

“Cozinhar para mim e limpar a casa, foi duro. Percebi que não tinha ninguém que fizesse isso por mim e tornou-se difícil. Mas acho que esse tipo de coisas fizeram com que crescesse antes do tempo. Ajudaram-me a tornar-me mais madura e a ser quem sou hoje”, conta.

“Estou muito grata, apesar de me recordar que foram tempos difíceis. A minha mãe veio visitar-me uma vez, abriu o guarda-roupa e perguntou o que era aquela montanha de roupa. ‘É toda a roupa suja que nunca lavei’, respondi.

Fazia listas para tudo, “fazer os trabalhos de casa, limpar, escrever poesia”, recorda. Esforçou-se para tirar a nota máxima em matemática, só para que os pais lhe dessem autorização para fazer um piercing no umbigo. Depois cresceu e fez pela vida.

Começou por fazer alguns trabalhos como modelo com apenas 16 anos, depois de abordada na rua por um agente. Nunca sonhou ser modelo, mas viu a oportunidade como uma forma de dar nas vistas, de chegar ao contacto com outros nomes da indústria. A agência acabaria por lhe arranjar um trabalho num anúncio do programa “X Factor”, onde conheceu um produtor que trabalhara com artistas como Ed Sheeran ou One Direction. Foi através dele que conheceu o seu agente, Ben Mawson.

Por essa altura, Lipa trabalhava em bares da noite londrina, onde chegou a servir como porteira. “Era horrível. Tinhas que ser uma pessoa fria, estar ali de pé a dizer às pessoas que não podiam entrar. Quando tive que rejeitar alguns amigos meus porque estavam de sapatilhas, percebi que não era o tipo de local onde queria trabalhar.”

Ao mesmo tempo, partilhava no YouTube os seus vídeos a interpretar versões de temas pop do momento. Foi através dessa exposição que conseguiu um contrato com a TAP, a agência que representava Lana Del Rey.

“O meu objetivo não passava por fazer um disco, mas sim descobrir qual era o meu som. Dizia a toda a gente que queria soar como uma espécie de combinação entre J Cole e Nelly Furtado. ‘O que é que esta miúda tem na cabeça?’, diziam-me. Mas depois escrevi a ‘Hotter Than Hell’ e foi esse o tema que me garantiu o contrato para o primeiro disco, foi quando tudo começou.”

O sucesso era inevitável e apesar de ter aceitado interpretar temas escritos por outros compositores, sempre fez questão de assinar muitos dos seus temas — sobretudo inspirada pelo pai, também ele músico, membro de uma banda de rock albanesa.

Ao lado do sucesso, Dua Lipa manteve sempre vivo o seu lado de ativista, não só pela causa do país de origem, o Kosovo, mas também ao lado de muitas outras causas. É também uma fervorosa apoiante da causa palestiniana, apoiante do Partido Trabalhista do Reino Unido e chegou mesmo a dar um incentivo a Bernie Sanders durante a sua tentativa de se tornar no candidato democrata às presidenciais.

As suas opiniões têm quase sempre provocado uma onda de críticas, aliás comuns a artistas e desportistas que ousam sair da sua área e marcar a diferença. “Nas redes sociais dizem que me devia ‘calar e cantar’. ‘O que é que tu sabes sobre isso? Porque é que te importas com isso?’. Mas acho que as pessoas se esquecem do quão pequeno é o nosso mundo.”

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