Música

É o álbum do momento: Wet Bed Gang lançaram um disco surpresa este domingo

Chama-se “Ngana Zambi” e é o maior trabalho de sempre do grupo português. A NiT falou com dois dos membros, Gson e Kroa.
O novo disco saiu este domingo.

A história dos Wet Bed Gang — quarteto de rap formado por Gson, Kroa, Zizzy e Zara G — começou a ser contada há já alguns anos. O primeiro grande impacto nacional que o grupo teve foi com o single “Não Tens Visto”, em 2016.

Depois, sucederam-se muitos outros temas soltos, e alguns EP, que os tornaram num autêntico fenómeno de popularidade. De Vialonga para o mundo, são uma das bandas portuguesas mais ouvidas na Internet — só para ter uma ideia, somam mais de 188 milhões de visualizações no YouTube e têm mais de 310 mil ouvintes mensais no Spotify.

Este domingo, 21 de fevereiro, chegou o primeiro álbum à séria dos Wet Bed Gang. Chama-se “Ngana Zambi”, tem 17 faixas (algumas das quais singles já conhecidos) e o narrador é Bonga. É ele que guia os ouvintes pela viagem deste disco, que homenageia, como sempre, Rossi — fundador do coletivo que viria a dar origem aos Wet Bed Gang e figura de padrinho que morreu antes de o grupo se lançar a sério. 21 de fevereiro é o dia do seu aniversário.

“O álbum é praticamente uma compilação do que temos vindo a fazer nos últimos tempos. Temos músicas que já estavam preparadas [desde o ano passado] e outros temas que são um pouco mais recentes. O importante é ter música intemporal, o que nós sentimos está lá”, explica Kroa à NiT.

“Nós não pensámos em ter o Bonga logo de início, mas sabemos que ‘Ngana Zambi’ não é uma expressão que faz parte da gíria natural. Então pensámos em alguém que tivesse toda a credibilidade e que, melhor do que nós, conseguisse explicar isso. ‘Ngana Zambi’ é um símbolo de proteção, é o que o álbum significa para nós. Nós temos o Rossi, acaba por ser o nosso ngana zambi, temos os familiares que estão à volta do álbum, os membros do grupo que não cantam mas que estiveram sempre connosco. E é isso que o álbum transmite”, acrescenta o rapper.

É uma expressão angolana que pode significar algo como “anjo da guarda”, em português. “Desde pequeno, não tive oportunidade nenhuma de conhecer a minha cultura nos canais informativos. Nas grandes estações de televisão nunca me educaram muito naquilo que é a minha cultura. Tive que ir buscar por mim”, explica, por sua vez, Gson. “E agora temos esta responsabilidade de mostrar um bocado aos afro-descendentes, e não só — aos portugueses em geral, que vivemos todos esta cultura — e temos a oportunidade de mostrar de onde é que vimos. Sempre faltou à informação falar daquilo que é África, que tem muita influência naquilo que é a cultura portuguesa neste momento.”

Kroa explica que todos cresceram a ouvir Bonga, que é “um símbolo da música africana”. “Acho que não havia ninguém com maior credibilidade, até para os nossos mais velhos que nos vão ouvir. É um nome quase sagrado, um ícone dentro de ambas as culturas. É quase como ter o Cristiano Ronaldo a falar de desporto.”

Gson diz que “Bonga é uma Amália da música angolana”. “Também é muito ativista à maneira dele, fazia muito sentido ser ele a falar no nosso álbum.”

Sobre o impacto internacional que o grupo cada vez mais tem tido, Gson garante que ainda há um longo caminho a percorrer. “Sinto que ainda há muitas barreiras a quebrar, ainda há algum preconceito que tem que ser rompido, a luta ainda é muito grande — não só pela expressão da Wet Bed Gang, mas pela expressão da comunidade toda. Sem dúvida que ainda há muito para crescer em Portugal. E se há muito trabalho em Portugal, então nos outros sítios… Angola é terreno nosso, mas é uma terra de que ainda temos muito por descobrir, aprender, crescer lá. Cabo Verde, Guiné, claro que sim, e também recebemos muitas mensagens do Brasil.”

Apesar de a fasquia já ser alta há alguns anos — enaltecida pelos EP “Filhos do Rossi”, “IV” e “Stay Inside” — o rapper explica que os Wet Bed Gang têm sempre de criar música “sem expetativas nem peso, com leveza”. “Tens de criar com a mesma mentalidade que tinhas no dia 1, quando ninguém te conhecia.”

Gson diz que é um álbum “eclético e rico”, mas que a tentativa para ser versátil às vezes também é um fardo. “A única cena um bocado ingrata é que a nossa versatilidade também nos escraviza um bocado no sentido em que há muitas pessoas que gostavam que a Wet fizesse sempre a mesma coisa. E depois há outras que reclamam por acharem que a Wet faz sempre o mesmo [risos]. A grande diferença é que, sempre que fazemos algo diferente, um ‘Já Passa’, ‘Head na Glock’ ou ‘Funge’, são sons que não têm tanta longevidade como os que o público mainstream quer ouvir. E por norma os sons que batem mais fazem com que a Wet seja conhecida por aquilo e a única coisa ingrata é essa: podem não reconhecer a nossa versatilidade.”

As maiores saudades, asseguram, são dos concertos — a grande especialidade dos Wet Bed Gang nos últimos anos, quando percorreram discotecas e festas de norte a sul do País (e não só) em centenas de datas. Por enquanto ainda não é possível apresentar “Ngana Zambi” ao vivo, mas não foi isso que os impediu de lançar o projeto.

“Os concertos são uma parte muito importante de uma carreira, especialmente agora que somos jovens. Mas já não podíamos estar a depender dos timings e com isto do corona é sempre muito improvável. Acho que era um bocado ingrato, tanto para nós como para o público, não partilharmos todos esta obra mais cedo. Desculpe-me lá, senhor corona, mas tinha que ser, tínhamos que lançar, e foi num dia de celebração, de festa.”

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