Música

Eric Clapton não tem dúvidas: quem se vacinou contra a Covid-19 foi alvo de “hipnose”

O músico tem adotado um polémico discurso negacionista em relação à pandemia e às vacinas. Mas também se vacinou.
Eric Clapton tem 76 anos.

Ao longo destes quase dois anos de pandemia, Eric Clapton tem-se afirmado como um dos mais conhecidos negacionistas em todo o mundo. O músico britânico de 76 anos tem se manifestado contra as restrições, as vacinas e afastou-se de amigos próximos que não toleram o seu discurso.

Agora, Eric Clapton veio dizer — numa entrevista ao canal de YouTube The Real Music Observer — que quem recebeu uma vacina para combater a Covid-19 foi alvo de “hipnose de massas”. O músico citou uma teoria de Mattias Desmet, professor de psicologia numa universidade belga, precisamente sobre hipnose de massas.

“Assim que comecei a procurar pelos sinais [de hipnose], comecei a vê-los em todo o lado”, disse. “Lembrei-me de ver coisas no YouTube que eram tipo publicidade subliminar.”

Esta teoria, disseminada no circuito de propaganda e desinformação negacionista, foi desvalorizada e descartada por diversos especialistas científicos.

O próprio Eric Clapton vacinou-se contra a Covid-19 — recebeu duas doses da AstraZeneca, que alega que lhe provocaram enormes efeitos secundários. “Tomei a primeira dose da vacina da AstraZeneca e sofri uma reação severa imediata que durou durante dez dias. Acabei por recuperar e foi-me dito que teria que tomar outra 12 semanas depois. Seis semanas depois, ofereceram-me a segunda toma e avancei, desta vez com mais conhecimento sobre os perigos”, escreveu na altura.

“É escusado dizer que as reações foram desastrosas. As minhas mãos e pés ou estavam congelados, dormentes ou a arder. Ficaram inutilizados durante duas semanas. Temi nunca mais voltar a tocar — sofro de uma neuropatia periférica e nunca me devia sequer ter aproximado da agulha. Mas a propaganda disse que as vacinas eram seguras…

Uns fãs ficaram chocados, outros apressaram-se a recordar que os sintomas revelados por Clapton, além de não serem sequer semelhantes aos mais comuns — e revelados pela farmacêutica como resultado dos ensaios clínicos —, já tinham sido reportados pelo músico em 2013, que atribuiu então os efeitos a problemas neurológicos. Traços de um comportamento que, como a NiT já havia revelado neste artigo, transformaram Clapton num odiado negacionista.

A jornada de Eric Clapton — de músico adorado a negacionista desprezado

Conor Clapton tinha quatro anos quando, num acidente trágico, caiu da janela da casa de família em Nova Iorque, no 50.º andar de um edifício residencial. O pai, Eric Clapton, um dos mais prolíficos músicos do planeta, exorcizou a dor com uma das suas mais famosas criações.

Com “Tears in Heaven”, que bateu recordes de vendas, o mundo comoveu-se com a dor de Clapton. Trinta anos depois, o mundo parece unir-se no ódio conjunto ao guitarrista que se estreou nos Yardbirds, explodiu nos Cream e cimentou a sua carreira a solo como um dos melhores do rock e do blues. Mas o que leva um herói a cair do altar e a tornar-se no alvo de tanta raiva?

No verão, Clapton recusou dar concertos em salas de espetáculos que exigissem a apresentação de certificado de vacinação. Um par de meses antes, lançava-se num discurso público raivoso contra as vacinas, fazendo as tais alegações em relação às doses que recebeu da AstraZeneca.

No final de 2020, uniu-se a Van Morrison para assinar um tema que se opunha ferozmente aos confinamentos. “Queres ser um homem livre ou queres ser um escravo? Queres ouvir estas correntes até estares deitado na tua campa?”, rezava a letra de “Stand and Deliver”. Isto no meio de constantes comentários online e fora da Internet, onde o músico questionava tudo, de estudos científicos à opinião de especialistas, que classificava como “mera propaganda”.

Clapton parece resignado. Num podcast mostrou-se ciente de que a própria família e os amigos acham que é “um maluquinho”. “Durante os últimos anos, tenho assistido a muitos desaparecimentos, muitas pessoas a fugirem de forma rápida. Foi, para mim, uma forma de refinar o tipo de amizades que mantinha. Reduziu-se a um grupo de pessoas que obviamente amo e de quem preciso.”

Um dos amigos de longa data que decidiram cortar ligações foi Robert Cray, o músico de blues que se mostrou chocado com a escolha de Clapton misturar a escravatura e o confinamento no tema “Stand and Deliver”. Enviou-lhe um email para esclarecer o assunto.

“A reação dele foi dizer-me que se estava a referir aos escravos de Inglaterra”, conta. Clapton nunca se retratou e Cray deixou de responder, além de ter cancelado a sua presença na digressão americana do músico britânico. Nem isso impediu Clapton de voltar a lançar mais dois temas relacionados com o confinamento.

“Falei com outros músicos, velhos amigos, grandes artistas que não vou revelar quem são, mas todos dizem: ‘Que raio é que ele está a fazer?’”, confessa o produtor Russ Titelman, que trabalhou com Clapton no seu recordista disco “Unplugged”.

“Ninguém com quem eu tenha falado e que conheça o Eric tem uma resposta”, diz o baterista Jim Keltner, que conhece Clapton há mais de cinco décadas. “Estamos todos no mesmo barco. Ninguém consegue perceber o que se passa.”

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