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Eugénia Contente, a artista açoriana que trocou a arquitetura pela guitarra

Na rubrica desta semana de Embaixada dos Açores, Luís Filipe Borges fala com mais uma referência das ilhas.

Para a coleção pessoal de momentos perfeitos: entardecer na praia pequena de Água d’Alto, São Miguel. Eugénia Contente e a sua guitarra, a concentração suave, o sorriso rasgado, dois takes de “Era para Ser uma Balada” gravados ‘live on tape’ em pleno areal e para a segunda temporada de “MAL-AMANHADOS”.

Ela, a protagonista de hoje, acabou de tocar em Montemor-o-Novo e Alcobaça; e podem — devem — correr +ara vê-la em Porto de Mós, a 20 de julho, ou nos dias 15 e 16 de agosto, em Coimbra. Acaba de assinar com a Ibanez, umas das maiores marcas de guitarras do mundo.

Está em processo de composição de obras novas, em digressão com artistas diversos, e mantém as mesmíssimas graça e humildade de quando partiu da ilha rumo ao curso errado — este para trás das costas, entretanto; já São Miguel e os Açores estão sempre com a Eugénia onde quer que vá. Do prémio Novos Talentos FNAC aos International Portuguese Music Awards, do Hot Clube a líder da banda do “5 para a Meia-Noite”, do mar imenso às datas na estrada.

Abram alas para a Eugénia Contente, o seu jazz, o seu trio, a sua alegria e virtuosismo, os seus funk e fusion.

Um produtor de Hollywood está louco para fazer um filme sobre a tua vida mas falta convencer o estúdio, que só avança se for o Spielberg a realizar… ora sucede que dás por ti num elevador com o sôr Steven. Como venderias o teu peixe?
Podia romantizar a história de uma miúda que saiu do meio do Atlântico, aos 18 anos, para ir estudar para Lisboa, tirar um curso que nunca quis. Que fez mais diretas do que as que conseguiu contar para não falhar em nada na faculdade e conseguir tocar guitarra ao mesmo tempo. Que chorou em cima de maquetes, que incomodou colegas de casa com distorção e outros pedais. Que viu o maior número de concertos possível dos músicos que admirava, pensando que um dia seria ela em cima do palco. Que tocou num bar regularmente até às 4 horas da manhã, tendo de ir para o escritório no dia seguinte. Que começou a ser chamada para projetos maiores e que hoje em dia passa a vida na estrada, em palcos incríveis, rodeada de amigos. Seria um filme que, até à data, teria um final feliz.

Por outro lado, podia adoptar outra estratégia e teria óptimo clickbait para lhe fazer. Podia dizer que já dei um pontapé na cara de um polícia, sem nunca lhe revelar que tinha sido numa aula de kickboxing. Se calhar o senhor ia ficar mais entusiasmado!

O dia profissionalmente mais feliz da tua vida foi quando e porquê?
Diria que, numa primeira instância, terá sido no dia em que me despedi do escritório de arquitetura em que trabalhava. Pude finalmente fazer música a tempo inteiro e não ter de esperar pelas 19h para trabalhar no que gostava. Depois, tive um concerto do meu trio na Madeira em 2024 (“Carvão em Brasa”) e outro em São Miguel, no Tremor 2025, que foram particularmente especiais. Sou incapaz de não achar que a insularidade, sendo um fator comum, não teve importância. A magia das ilhas, associada a amigos, família e música, só pode resultar num excelente cocktail de emoções. Sentir que quem está a ouvir a minha música se consegue relacionar e curtir é mesmo muito recompensador.

O que é que Portugal Continental bem poderia aprender com os Açores?
Fazer com que o queijo fresco com pimenta da terra fizesse parte do couvert de todos os restaurantes!

De que forma o carácter atlântico, a açorianidade, o ser-se ilhéu influencia o teu processo criativo?
Acho que o facto de ter crescido em São Miguel rodeada pelo mar, por paisagens que mudam de humor como quem muda de camisola, ensinou-me a valorizar tanto o silêncio como a agitação. Tanto a força como a fragilidade. Acho que isso pode ter moldado a minha sensibilidade. Talvez por isso eu tenha duas formas vincadas de compor. Num dia sai-me um “Rubber Duck”, meio frenético, mais “selvagem”, noutro um “Interlindo”, mais delicado e contemplativo.

O maior disparate que já ouviste sobre as ilhas é?
Entre perguntas como “lá têm Multibanco?”, “dá para ir a pé de uma ilha para a outra, quando a maré está baixa?”, “paga-se roaming?”, “és dos Açores? Então conheces o João!”… a minha preferida talvez seja a da existência de ursos polares no Pico. Não há como não amar o conceito!

Que crime cometerias se não houvesse castigo?
Talvez mandasse prender fascistas numa ilha deserta e pusesse o Grândola a tocar, em loop, ininterruptamente, muito alto. O pátio dessa prisão ia ter uma passadeira rolante inalcançável, com malas de viagem a passar.

Como é que a tua família reage à tua profissão?

Atualmente, é uma realidade muito pacífica. Ficam todos contentes (não vale piadas fáceis) quando me veem na televisão, numa revista ou num concerto. Sinto que se orgulham. Também sinto que respiram um bocadinho melhor por saberem que o resultado das minhas opções se calhar não foi assim tão mau, até ver. Vou sempre a tempo de fazer asneira, mas creio que, para já, isto me anda a correr como planeei.

Aquele sonho por realizar é?
Acho que passa por viajar pelo mundo, a tocar a minha música em palcos jeitosos, com os meus amigos. Se for nos mesmos festivais que o Cory Henry, Cory Wong, Mark Lettieri, Isaiah Sharkey e puder privar com eles, melhor!

Finalmente, para acabar de forma fácil, qual é o sentido da vida?
Acordar sem despertador, ir treinar, comer um ceviche na praia, dar um mergulho, estudar guitarra até me esquecer das horas, conduzir a ouvir música, ir dar um concerto em que me divirto muito, acabar o dia rodeada de pessoas de quem gosto…não há-de ser o sentido da vida, mas são coisas que fazem muito muito muito sentido na minha.

“Ilhéus”

Restaurante?
A Tasca.

Vista?
Lagoa do Fogo.

Banhos/zona balnear?
Ilhéu de Vila Franca.

Ritual/tradição?
Vou sempre à Praia das Milícias ver o mar ou mergulhar, caso haja condições para isso.

Artista referência ou que admires nas ilhas?
O guitarrista Tiago Franco. Foi uma grande inspiração na adolescência, numa fase em que eu estava a decidir se queria fazer da música profissão. A culpa é também um bocado dele!

Obrigatório de visitar (museu, associação, teatro, bar, etc)
Ir ao Eco-Beach de Santa Bárbara ver o pôr-do-sol.

Tens dicas sobre spots açorianos que merecem atenção? Vistas deslumbrantes e menos conhecidas? Pessoas que vale a pena conhecer? Gostavas de sugerir uma história à Embaixada dos Açores ou contar um episódio hilariante sobre malta de fora que tentou apanhar o metro, achou que tinha de nadar até à próxima caixa multibanco ou estava convencida de existir um rio em São Miguel? Este é o endereço para onde podes mandar o que te apetecer: embaixadadosacores@nullnit.pt.

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