Música

Eurovisão: o que explica o desastre britânico dos zero pontos?

James Newman ficou em último. Há quem diga que se trata de uma vingança pelo Brexit, outros apontam que a canção era uma “treta”.
James Newman foi o concorrente britânico deste ano.

Em geral, pode-se dizer que a Eurovisão correu bem este ano. As audiências televisivas foram positivas, as canções tiveram impacto em vários países e, sobretudo, a organização conseguiu montar sem grandes obstáculos (embora com grandes desafios) aquele que foi um dos maiores eventos-piloto da Europa desde o início da pandemia.

3500 pessoas testadas à Covid-19, sem máscaras nem distanciamento social, assistiram às performances na Ahoy Arena, em Roterdão, nos Países Baixos. Como os The Black Mamba anteciparam em entrevista à NiT, este modelo pode abrir portas para que outros grandes eventos musicais possam adaptar-se e decorrer nos próximos tempos.

A banda italiana Måneskin foi a vencedora do concurso — embora a sua conquista rapidamente tenha ficado envolta numa polémica, devido a um movimento do vocalista que terá levado muitos espectadores a pensar que estava a consumir cocaína em direto (uma imagem divulgada entretanto mostra que a explicação dada pela banda bate certo).

Portugal, com The Black Mamba e a canção “Love is On My Side”, ficou em 12.º lugar — foi a segunda melhor classificação nacional do século XXI, só atrás do feito histórico de Salvador Sobral, que venceu o concurso em 2017.

Outro dos assuntos mais comentados em relação à edição deste ano foi o desastre britânico. O concorrente James Newman ficou em último lugar da competição e não recebeu qualquer ponto — nem do júri nem do público de cada país.

As redes sociais dos britânicos — e as caixas de comentários dos jornais online — encheram-se de críticas à Eurovisão, com muitos cidadãos a dizerem que se tratava de uma espécie de vingança da Europa por causa do Brexit, a saída do país da União Europeia.

Alguns políticos também reagiram neste sentido, como um dos maiores promotores do movimento pró Brexit, Nigel Farage. “Já o disse antes, mas temos de deixar esta farsa globalista da Eurovisão”, escreveu o político britânico nas redes sociais.

Contudo, também têm sido muitas as personalidades a oporem-se a esta tese. “O Reino Unido não teve pontos nulos na Eurovisão devido a uma qualquer vingança sinistra por causa do Brexit”, declarou o apresentador de televisão Piers Morgan. “Tivemos pontos nulos porque tínhamos uma canção da treta, interpretada por um cantor da treta, que fez uma performance da treta. Fim”, escreveu no Twitter.

“Para aqueles que veem a Eurovisão como uma guerra por procuração, que sirva para vingar ressentimentos geopolíticos por trás do glitter e dos calções apertados, as hipóteses do Reino Unido seriam sempre diminutas na edição deste ano do concurso”, escreveu uma editora do “The Guardian” num texto sobre as críticas e o fenómeno.

“Basicamente qualquer país podia ter uma razão para ter ressentimentos contra o Reino Unido. Se calhar as nações europeias não nos perdoaram pelo Brexit. Os russos ainda não conseguem acreditar que nós não engolimos aquela história de os seus agentes secretos terem visitado a catedral de Salisbury. E os australianos podem estar doridos da sequência de acordos comerciais. Mas talvez — apenas talvez — a nossa participação não tenha sido incrivelmente boa”, acrescentou a jornalista Helen Pidd.

A verdade é que o fenómeno não é novo. Na última edição, a de 2019 — em 2020 o evento foi suspenso por causa da pandemia — o Reino Unido também ficou em último lugar, embora tenha conseguido 16 pontos.

Nos meios de comunicação britânicos, há quem explique isto pela forma pouco consistente como os concorrentes do país são escolhidos. Ao longo dos anos, houve vários concursos diferentes, com regras distintas, para apurar o representante do Reino Unido. Na maioria dos casos era o público quem tinha o direito de decidir: primeiro por carta, depois por televoto e através da Internet. Mas também houve edições em que a decisão era interna, da estação pública BBC.

Após alguns anos em que o público pôde decidir, para a edição de 2020 e de 2021 os concorrentes voltaram a ser escolhidos internamente, pela BBC Studios em colaboração com a editora BMG, sem o escrutínio dos cidadãos em geral.

Neste ano, o artista selecionado foi James Newman, cantor e compositor de 35 anos que já trabalhou com nomes como Rudimental, Kesha, Armin Van Buuren e Calvin Harris. O tema que levou à Eurovisão foi “Embers”.

O que acontece é que, ao contrário dos The Black Mamba, por exemplo, James Newman não teve a experiência de passar por diferentes etapas até conquistar o seu concurso nacional. Além disso, não teve de fazer qualquer performance nas semifinais da prova, porque o Reino Unido é um dos big five — os cinco países que todos os anos passam diretamente à final da Eurovisão.

Os Big Five são o Reino Unido, Espanha, Itália, França e Alemanha desde 2011. A regra começou em 2000, mas só com os Big Four — Itália fez um longo interregno de participar no festival. A razão é muito simples: estes são os países que contribuem com mais dinheiro para a European Broadcasting Union, a entidade que organiza o Festival Eurovisão da Canção. Ou seja, são os países que mais pagam a festa. Esta foi considerada uma regalia dada a estes estados.

Embora o Reino Unido tenha um lugar reservado na final de todas as edições, talvez o caminho curto percorrido pelo respetivo concorrente o torne mais frágil aos olhos do público — e faça com que tenha menos espaço e tempo para divulgar a sua música ou trabalhar na sua performance.

Desde que esta regra foi criada, só por duas vezes um dos Big Five venceu a Eurovisão. Aconteceu em 2010, quando o tema vencedor foi “Satellite”, da cantora alemã Lena; e agora, com a vitória dos Måneskin. Sempre que um Big Five vencer a Eurovisão, a final do ano seguinte tem menos um concorrente, já que esse país acumula a função de anfitrião com a de Big Five. É o que vai acontecer com Itália no próximo ano.

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