Enquanto muitos festivais apostam em grandes multidões e cartazes cada vez mais extensos, nas montanhas de São Pedro do Sul há um evento que segue o caminho oposto. O GOAT Community Intimate Festival regressa para a quarta edição entre 1 e 6 de julho e mantém aquilo que os fundadores consideram ser o segredo do sucesso: continuar pequeno.
A capacidade está limitada a cerca de três mil pessoas e os bilhetes esgotaram ainda em janeiro. Mais de 80 por cento dos participantes vêm do estrangeiro, sobretudo da Alemanha, Estados Unidos, Países Baixos e Reino Unido. Muitos regressam todos os anos e acabam por trazer novos amigos.
A história começou longe dos festivais. Em plena pandemia, cinco amigos naturais da região — João Silva, João Marcelino, Marco Pinto, Bruno Regueira e Gonçalo Gomes, todos com idades entre os 33 e os 38 anos — começaram a questionar o futuro do concelho onde cresceram.
“Esta zona tem cada vez menos pessoas. Temos as termas e a montanha. As termas já estavam bastante exploradas e sentimos que podíamos fazer alguma coisa diferente para trazer pessoas para cá”, conta João Silva, de 38 anos, licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade Lusíada do Porto e com experiência profissional em Ibiza na área da comunicação e da música eletrónica.
Durante os confinamentos da pandemia da Covid-19, os amigos começaram a convidar fotógrafos e criadores de conteúdos para conhecerem a região. As imagens das florestas, rios e montanhas começaram a circular online e rapidamente surgiram sugestões para organizar eventos no local. “Começámos a trazer amigos para fazer vídeos e fotografias. As pessoas diziam-nos constantemente que devíamos criar alguma coisa aqui na floresta e na montanha. Foi crescendo pouco a pouco”, recorda.
Os primeiros eventos foram pequenos e nem sequer deram lucro. Pelo contrário. “Perdemos dinheiro nas primeiras edições. Mas fazíamos aquilo de coração e íamos reinvestindo tudo o que conseguíamos”, admite.
A primeira edição do festival aconteceu em 2023. Desde então, o projeto cresceu todos os anos, mas sem abdicar da dimensão intimista que o distingue. “Se tivermos um festival com dez mil pessoas perde-se a magia. Quando é mais pequeno, as pessoas cruzam-se várias vezes durante os dias, criam amizades e acabam por formar uma comunidade. É isso que queremos.”
O conceito mistura música eletrónica, arte, natureza e bem-estar. Ao longo de cinco dias e cinco noites, os participantes podem assistir a atuações de dezenas de artistas nacionais e internacionais, participar em aulas de ioga, sessões de meditação, workshops, experiências de cura sonora, saunas e diversas atividades ligadas ao universo wellness.
O recinto fica instalado no Parque de Campismo Retiro da Fraguinha, em plena serra, e inclui zonas de glamping, campismo, mercado de criadores, espaços de alimentação e uma área dedicada às atividades espirituais e terapêuticas.
Este ano, o cartaz conta com mais de 75 artistas, incluindo nomes como Patrice Bäumel, Stavroz, Parra for Cuva, Xinobi, Guy Mantzur e Tim Green.
Os preços também cresceram à medida que o festival evoluiu. Os primeiros bilhetes desta edição foram colocados à venda por 250€ e os últimos custaram 325 euros, valor que inclui acesso a toda a programação durante os cinco dias. “O ano passado tivemos cerca de 800 mil euros de custos. A experiência melhorou muito, os artistas são melhores, as tendas de glamping têm mais qualidade e investimos bastante nas atividades de bem-estar”, explica João Silva.
Apesar do crescimento internacional, os fundadores garantem que o objetivo continua a ser o mesmo que existia no início: ajudar a dinamizar uma região do interior que tem perdido população nas últimas décadas. “Somos apaixonados por São Pedro do Sul. Este projeto nasceu porque sentíamos que a nossa terra precisava de mais vida. Hoje vemos estrangeiros que vieram ao festival e acabaram por comprar casa aqui. Isso deixa-nos muito felizes.”
Segundo o fundador, o evento funciona também como uma montra para o concelho. A organização procura incentivar os visitantes a conhecer restaurantes, aldeias, trilhos e outros pontos de interesse da região durante a estadia. “Queremos que as pessoas tenham experiências fora do recinto e descubram tudo o que existe aqui à volta. Isso acaba por beneficiar toda a economia local.”
Para os organizadores, no entanto, o maior indicador de sucesso continua a ser outro: a taxa de regresso dos participantes. Por isso, quem já esteve no GOAT tem prioridade na compra dos bilhetes para a edição seguinte.
E, ao que tudo indica, essa fórmula parece estar a resultar. Afinal, poucos festivais conseguem esgotar meio ano antes de começarem — ainda por cima no meio das montanhas de São Pedro do Sul. Pode saber mais no site oficial.
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