Música

Fez música para as Kardashians e “The Walking Dead”. Agora, Jim Bianco vive em Lisboa

A canção “Easy Street” mudou-lhe a carreira de forma inesperada. À NiT, o músico fala também da mudança para Portugal e da nova fase artística.

A carreira de Jim Bianco começou no circuito de pequenos palcos de Los Angeles. Nascido em Brooklyn, Nova Iorque, tornou-se uma das figuras da cena do Hotel Café, espaço ligado a uma geração de cantautores da cidade. Seguiram-se anos de digressões, discos e concertos, antes de começar a escrever e produzir música para televisão, cinema e publicidade.

Foi também através desse trabalho nos bastidores da televisão que Bianco acabou ligado ao universo das Kardashians, uma das famílias mais mediáticas dos Estados Unidos. Kim, Kourtney e Khloé Kardashian, juntamente com Kris, Kendall e Kylie Jenner, transformaram um reality show sobre a vida familiar num fenómeno mundial e, mais tarde, num império que se estendeu à moda, beleza, publicidade e redes sociais. 

“Keeping Up with the Kardashians”, estreado em 2007, acompanhou a família durante mais de uma década e foi sucedido por “The Kardashians”. Bianco compôs e produziu música através de uma empresa de Los Angeles cujos temas eram depois selecionados pelas equipas responsáveis por algumas dessas produções. 

“Easy Street”, por exemplo, nasceu fora da sua carreira a solo, num projeto chamado The Collapsable Hearts Club, que criou com Petra Haden. A canção chegou à equipa de “The Walking Dead” quando esta procurava música para um episódio da sétima temporada. O supervisor musical Gabe Hilfer encontrou-a durante a seleção e Scott Gimple, responsável pela série, aprovou a escolha. Bianco contou noutra entrevista que nunca soube ao certo como a gravação lhes tinha chegado às mãos.

Hoje, o músico de 50 anos escreve e produz canções para diferentes artistas e formatos audiovisuais. Desde 2022, vive em Lisboa com a mulher, Sarah, e a filha, Ever Bird. Foi a partir da capital portuguesa que falou com a NiT sobre as voltas que uma canção pode dar depois de ser gravada, o trabalho nos bastidores da televisão e o que encontrou na cidade.

Construiu grande parte da sua carreira nos Estados Unidos. Porque decidiu trocar Los Angeles por Lisboa?
Quando cheguei aqui, em julho de 2022, senti-me muito bem. Os portugueses são acolhedores e genuínos. Ao mesmo tempo, comecei a ficar mais atento à segurança da minha família. Havia algumas coisas a acontecer politicamente nos Estados Unidos que nos fizeram sentir que talvez fosse o momento certo para experimentar viver noutro lugar. E acabámos por encontrar esta cidade maravilhosa.

Passou cerca de 15 anos à procura de uma canção que pudesse mudar a sua vida. Imaginava que seria “Easy Street”?
Não. (risos) No fim, a música que mudou a minha vida foi uma canção extremamente alegre usada para torturar alguém numa série de televisão sobre zombies. É ridículo e incrível.

A equipa de “The Walking Dead” escolheu-a para a cena em que Daryl é torturado ao som da mesma música, vezes sem conta. O que sentiu ao ver o resultado?
Achei a utilização da música muito boa. É uma melodia suave, alegre, e eles puseram-na a tocar muito alto, repetidamente. Há algo de engraçado e perturbador nesse contraste. Ao ver a cena, pensei no absurdo de ter passado tantos anos à procura da canção que mudaria a minha vida e descobrir que era esta, usada para torturar alguém psicologicamente numa série de zombies.

Percebeu logo a dimensão que aquela cena ia ganhar?
A música toca dez, quinze vezes. O episódio foi visto em muitos países e, de repente, as pessoas perguntavam: “O que é esta música?” A reação foi enorme. Comecei a receber telefonemas de rádios a perguntar: “Quem és tu? Como é que isto aconteceu?” Foi uma loucura.

Dois anos depois, agentes federais puseram “Easy Street” a tocar junto de pessoas que protestavam contra a política de imigração em Portland. Como reagiu ao saber que estavam a usar a sua música daquela forma?
Foi surreal. A música tinha-se tornado viral porque toda a gente viu aquela cena na série. Depois, passaram a usá-la contra pessoas reais que estavam a protestar. Eu tinha escrito a canção para me divertir e, de repente, estava envolvido numa disputa com o governo dos Estados Unidos. Exigi que deixassem de a usar daquela forma. É uma história louca.

Como é que começou a criar música para produções ligadas às Kardashians?
Foi através de uma empresa de música em Los Angeles para a qual escrevo e produzo temas que depois são propostos a programas de televisão. A minha música acabou por ser usada em algumas produções ligadas às Kardashians. Sobretudo pop moderno, hip-hop e temas com muita energia, que ajudam a dar uma determinada atmosfera às cenas.

Chegou a trabalhar com alguma das Kardashians ou a conhecer a família?
Nunca trabalhei diretamente com elas. Passou tudo pelas equipas de produção e de música. Também nunca conheci ninguém da família. Bem, tirando os seis meses em que namorei com a Khloé, em 2019. Estou a brincar. (risos). A verdade é que há muitos compositores, produtores, editores e supervisores musicais envolvidos. Sou uma parte de um processo criativo muito maior. E, por acaso, nunca sequer vi o programa.

O que o atrai nesse trabalho para a realidade televisiva?
Um programa desses precisa de muita música. Para quem compõe, há um desafio criativo nisso: perceber o que está a acontecer numa cena e encontrar uma forma de comunicar essa sensação. É um processo muito interessante. Além disso, tem de ser tudo muito rápido, não há muito tempo para pensar em cada criação. É algo quase instintivo. 

Que emoções pode ter de criar para uma única produção?
Podes precisar de alegria, tristeza, tensão ou mistério. Noutro momento, a música tem de ser divertida ou dar vontade de dançar. Tens de passar de uma emoção para outra e fazer com que cada uma funcione numa peça musical muito curta. Esse é o desafio.

Esse tipo de trabalho levou-o a escrever música que nunca teria feito para os seus próprios discos?
Sim, e essa é uma das partes mais divertidas. Posso fazer algo mais indie e depois passar para pop ou para uma música mais emotiva. Tenho de entrar num género, perceber o que o define e criar algo que funcione dentro dele. Isso mantém o trabalho fresco. Estou sempre a aprender novos truques e novas formas de fazer música.

Viver em Lisboa também mudou a sua forma de fazer música?
Muito. Vejo músicos incríveis aqui. O talento dos artistas portugueses e brasileiros impressiona-me. Vejo percussionistas e saxofonistas a tocar com uma naturalidade que me inspira. Estar em contacto com essas pessoas e esses sons abriu-me novas possibilidades.

Sente que encontrou uma segunda vida artística em Portugal?
Sim. É quase como uma nova vida para mim. Estou exposto a todo este movimento, a músicas e influências diferentes. Lisboa tem sido uma experiência musical muito diversa. Há sempre alguma coisa nova para descobrir.

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