Música

Flexões, dança do ventre e improviso: fomos ao incrível concerto interativo de Toy

O cantor português conquistou o Rock in Rio com uma atuação em que as pessoas escolhiam as músicas que o próprio interpretava.
Toy cantou os seus grandes êxitos.

Uma das propostas inéditas deste ano para o Super Bock Digital Stage, no Rock in Rio Lisboa, foi um concerto interativo de Toy. E o que é um concerto interativo de Toy? De telemóvel em riste, o público apontou para a lateral do palco e através de um QR Code chegou à aplicação onde podiam definir o alinhamento. Basicamente, podiam escolher uma de duas músicas a cada interpretação, decidindo o rumo do espetáculo à medida que ia acontecendo.

Mas, ainda antes disso, o concerto começou logo de forma inesperadamente interativa. O microfone de Toy estava demasiado baixo e o cantor começou de imediato a puxar pelo público para atingir o volume ideal. A multidão, entusiasmada por participar na engenharia de som de palco, foi correspondendo aos pedidos do cantor — “mais alto, mais alto, mais alto”. Bem tinham prometido que seria interativo.

Depois, Toy ainda improvisou num registo pausado — quase com flow de rap — enquanto rimava sobre o frio que não afetava o Rock in Rio (num dia em que o Parque da Bela Vista esteve de facto mais fresco a partir do final de tarde).

A primeira decisão chegou de seguida. De aplicação na mão, todos os que estávamos na plateia tivemos de optar entre “És tão Sensual” e “Vou Chorar Outra Vez”. Escolha fácil: “És Tão Sensual” ganhou a votação entre os presentes, e rapidamente um gráfico em direto apareceu no ecrã para demonstrar o grau de preferência do público. 

A fórmula manteve-se durante cerca de uma hora, enquanto Toy foi cantando temas como “Rosa Negra”, “Do Lado do Amor”, “Verão e Amor” (com a youtuber Owhana, que tinha pedido muito a Toy para interpretar o tema com o músico), “Chama o António” ou, claro, “Coração Não Tem Idade”.

A app onde o público escolhia a música.

Atrás de Toy e da sua banda, designs de karaoke aparentemente feitos em PowerPoint ou WordArt há pelo menos 15 anos — para os temas mais antigos; e imagens mais atualizadas, mas ainda assim de gosto algo duvidoso, para os singles mais recentes. Mas não podíamos pedir melhor: tudo encaixa na perfeição com o imaginário kitsch deste ícone da música romântica e popular portuguesa.

Houve ainda oportunidade para uma versão especial de “Estupidamente Apaixonado” com a atriz Mariana Pacheco, com quem Toy trabalhou na novela da SIC “Amor Amor”; ou para a apresentação do mais recente single, “Vai ao Castigo”, de estética rock, com um videoclipe com o ator Luís Aleluia a fazer de pai destroçado por se deparar com o facto de a filha ter iniciado a sua vida sexual. Toy consola-a no fim.

E como um espetáculo do cantor é um autêntico festival de variedades (no bom sentido), não faltaram ainda flexões em palco, interpretação de guitarra por cima da cabeça, dança do ventre e outras coreografias, beatbox, arranjos diversos, saltos e mais saltos, uma cover de Bob Marley e um solo de bateria antes do final.

Despretensioso, humilde e bastante mais talentoso do que muitos possam pensar, provavelmente António Ferrão não imaginaria que em 2022 teria estabelecido tão bem o seu lugar na cultura pop nacional. Bem-disposto, politicamente incorreto mas cada vez mais carinhoso, malandro mas sem as brejeirices de outrora, Toy está atualmente em pleno estado de graça. Isto acontece a um nível transversal — por exemplo, o músico é adorado pelos mais jovens, o que explica a sua presença tão regular em festas académicas e também num palco como o Super Bock Digital Stage.

Toy é um entertainer nato, um rei do improviso e do desenrasque de eventuais problemas — note-se a forma ímpar como deu a volta por cima de um problema de som e, mais tarde, de outro microfone que não se chegou a ligar. Merece toda a aclamação que uma imensa multidão lhe deu num festival como o Rock in Rio — e, acima de tudo, merece estar tão bem como parece estar na vida. Se todos fôssemos como ele, a Terra seria um lugar mais feliz. Ou como próprio declarou: “Se não existisse a puta da inveja, o mundo era muito melhor”, disse, apelando ao verdadeiro sentido de partilha. De facto, se é preciso festa e amor, chama o António.

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