Música

Foi morno, escuro e contido. Ou seja, foi um concerto muito Interpol

A banda quase não interagiu com o público, mas os grandes clássicos acabaram por aquecer a plateia no Parque da Bela Vista.

Uma luz vermelha ténue, quatro figuras quase imóveis e a voz grave de Paul Banks foram suficientes para anunciar o regresso dos Interpol aos palcos portugueses. A banda nova-iorquina, umas das mais esperadas do primeiro dia do MEO Kalorama, subiu ao Palco MEO por volta das 23h15 desta sexta-feira, 28 de agosto.

Abriu o concerto com “This Mirror Weighs a Ton”, tema que dá nome ao álbum lançado neste mesmo dia. A plateia já estava bastante composta quando começaram a tocar, mas continuavam a chegar pessoas à medida que os primeiros acordes se espalhavam pelo Parque da Bela Vista. Banks surgiu de fato preto e óculos escuros, com uma postura tão sóbria que parecia ter acabado de sair de um funeral. Não houve grandes cumprimentos, discursos ou tentativas de conquistar o público. Os Interpol limitaram-se a fazer aquilo que sempre fizeram: tocar.

Essa distância faz parte da personalidade da banda. Num concerto dos Interpol, por vezes parece que os músicos nem estão ali. Quase não procuram o público, não correm de um lado para o outro nem fazem grandes gestos. Em contrapartida, as guitarras melancólicas e a voz profunda de Banks enchem o espaço com uma melancolia serena que acompanha o grupo há quase três décadas.

“All the Rage Back Home” trouxe o primeiro aumento de intensidade. O ritmo mais forte começou a fazer algumas cabeças balançar nas primeiras filas e, quando a música terminou, surgiu a primeira grande ovação da noite. A plateia ainda estava longe da euforia, mas começava a responder.

Seguiu-se “C’mere”, recebida com atenção quase religiosa por quem ocupava as primeiras filas. Os fãs acompanhavam cada acorde enquanto Banks continuava quase impassível atrás dos óculos escuros e Daniel Kessler tratava de construir as guitarras cortantes que continuam a ser uma das marcas do grupo.

Musicalmente, havia pouco a apontar. A frieza do espetáculo não resultava de falta de qualidade, mas da própria forma como os Interpol sempre se apresentaram ao vivo. O problema é que, num grande palco de festival, essa contenção nem sempre se transforma em intensidade. Durante vários momentos, banda e público pareciam observar-se à distância.

“Evil” ajudou a quebrar esse equilíbrio. O clássico de “Antics”, lançado em 2004, trouxe um registo mais energético e provocou algumas das primeiras reações espontâneas da plateia. A partir daí, o concerto ganhou músculo e os temas seguintes mantiveram uma pulsação mais forte, ainda que sem provocar uma verdadeira explosão no recinto.

Os Interpol chegaram ao MEO Kalorama num momento importante da carreira. Esta sexta-feira lançaram “This Mirror Weighs a Ton”, o oitavo álbum de estúdio e o primeiro em quatro anos. Produzido por Andrew Wyatt e gravado em Nova Iorque, o disco representa também um regresso à cidade onde a banda nasceu, em 1997.

O novo trabalho conta com 12 temas e mistura sintetizadores, cordas, sopros e guitarras acústicas com o ambiente sombrio que os tornou num dos nomes mais importantes do renascimento do post-punk e do indie rock nova-iorquino no início dos anos 2000.

A sétima música da noite, “See Out Loud”, foi uma das primeiras oportunidades para perceber como o novo material funciona num palco deste tamanho. Apesar do ambiente morno, a canção recebeu aplausos e pareceu agradar aos fãs, mostrando que nem todos tinham ido ao festival apenas para ouvir os discos que marcaram a juventude de uma geração.

Logo depois, “Untitled” voltou ao passado. O tema de abertura de “Turn on the Bright Lights”, álbum de estreia editado em 2002, confirmou que a música dos Interpol continua a ter força mesmo quando os próprios músicos fazem tudo para não ocupar demasiado espaço. A interpretação foi poderosa; a reação à frente do palco, bastante mais contida.

Foi preciso chegar “Obstacle 1” para a temperatura subir de verdade. Um dos maiores clássicos da banda fez o público dançar e trouxe um dos raros momentos da atuação em que a voz de Banks encontrou um coro do outro lado da barreira. O refrão foi acompanhado por muitos dos fãs e mostrou que, apesar do tom morno da noite, a plateia ainda estava à espera de ser conquistada.

A diferença entre as músicas novas e os grandes temas dos primeiros discos tornou-se, aliás, uma das características da atuação. Os Interpol não vieram apenas fazer uma viagem nostálgica aos anos 2000, mas foi sempre que regressaram a esse período que o público respondeu com mais força.

Na reta final ainda houve espaço para “NYC”, “Iron City”, “The New” e “PDA”, numa sequência que voltou a cruzar diferentes momentos da discografia. “Iron City” levou novamente o concerto ao álbum lançado esta sexta-feira, enquanto “PDA” recuperou o primeiro disco e voltou a encontrar uma plateia mais disponível para se fazer ouvir.

A interação, porém, continuou reduzida ao mínimo. Paul Banks quase não falou ao longo dos cerca de 50 minutos de atuação e os agradecimentos foram breves. Não houve longas conversas sobre o novo álbum, declarações sobre Lisboa ou tentativas de criar uma falsa proximidade com milhares de pessoas. Para o bem e para o mal, os Interpol permaneceram fiéis à sua natureza.

“Slow Hands” ficou responsável pelos últimos minutos e trouxe uma última descarga de energia antes da despedida. No final, Banks limitou-se a agradecer ao público antes de a banda abandonar o palco.

Foi um concerto morno, sobretudo quando comparado com aquilo que um palco principal de festival pode proporcionar. Mas também foi um espetáculo muito Interpol: escuro, reservado, sem excessos e musicalmente sólido. Quase 30 anos depois da formação, podem continuar a parecer indiferentes a tudo o que os rodeia. Quando começam a tocar, porém, é difícil confundir aquelas guitarras e aquela voz com qualquer outra banda.

Carregue na galeria para ver alguns dos melhores momentos do concerto dos Interpol no MEO Kalorama.

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