Música

Francis Mann foi um dos primeiros guitarristas dos Xutos: “Não sabia se ia ter andamento para eles”

O músico fez parte da banda nos primeiros anos e acabaria por lançar cinco discos a solo. O sexto chega às lojas esta segunda-feira, 1 de setembro.

No currículo de Francis Mann desponta quase sempre uma entrada: antigo guitarrista dos Xutos & Pontapés. Um facto que é apenas um entre muitas contribuições para a música portuguesa, numa carreira longa e recheada de projetos, incluindo cinco álbuns em nome próprio.

O sexto chega já esta segunda-feira, 1 de setembro. Pretexto ideal para uma entrevista à NiTfm, onde recorda a passagem pelo icónico grupo nacional, os primeiros passos na música e os anos de parceria com Jorge Palma.

Tudo começou com uma paixão pela bateria, muito antes de se cruzar com a guitarra. “Quando era miúdo, como todos, ou quase todos, queria ser baterista. Então improvisava uns tambores e tocava bateria lá com os rapazes do bairro”, conta o artista de 71 anos.

Foi só mais tarde, já no liceu, que se cruzou com o instrumento que viria a marcar o seu percurso, quando um colega apareceu com uma guitarra e começou a tocar temas dos The Beatles. “De repente, há um gajo que lhe diz assim: ‘Toca o malhão’, que obviamente ele não conhecia”, recorda. “E o gajo faz assim uns acordes à procura do tom e começa a tocar o malhão.” A agilidade impressionou-o. Tinham 10 ou 11 anos. E a bateria ficou definitivamente para trás.

Mais tarde ainda tentou aprender a ler pautas e ter uma formação musical mais técnica, mas percebeu logo que nunca seria esse o seu caminho. Numa apresentação, tocou o tema “Horizons” dos Genesis em vez da peça de guitarra clássica que lhe tinham pedido. Um espírito rebelde que nunca perdeu.

O caminho até aos Xutos foi gradual. Começou numa banda do irmão de Kalú, baterista dos Xutos. Passaram um ano a tocar rock por Sintra e arredores, temas das bandas da altura, “Santana, Aerosmith, Genesis”, recorda. Kalú, era o baterista da banda e chegou a levar o Tim. Pouco depois, veio o convite: “Eles gostaram e perguntaram: ‘Não queres ir lá meter umas guitarradas nos Xutos?’ (…) E pronto, eu fui e fiquei.”

Mann recorda bem o primeiro concerto que viu da banda, ainda antes de se juntar à formação, num concerto de passagem de ano. “Tocaram a mil à hora, estavam tão nervosos.” Tanto que o espetáculo durou apenas 15 minutos. “Mas a energia daquela secção rítmica… O Kalú, o Tim, o Zé Leonel e o Zé Pedro a tocarem aqueles riffs de guitarra, tudo muito certinho, mas com um balanço brutal. (…) Quando no fim me perguntaram se me queria juntar à banda, eu disse: ‘Não sei se tenho andamento para isto, mas quero pois.’”

Com eles gravou o primeiro disco da banda, “78/82”, e os singles “Sémen” e “Toca e Foge”. Em 1983, decidiu sair e avançar a solo, com um registo mais virado para o rock progressivo instrumental. Dessa fase saíram dois dos seus álbuns: “Stilleto”, editado em 1986, e “Rota dos Ventos”, lançado três anos depois.

Foi também por essa altura que participou na produção do disco “Só”, de Jorge Palma. O primeiro encontro com o cantor aconteceu por acaso. Enquanto esperava por um estúdio da Valentim de Carvalho, perguntou a Palma se podia assistir à sessão. “A regra de ouro [neste tipo de situações] é não abrir o bico, não mandar palpites a ninguém.”

Mas Palma estava com dificuldade num dos versos: havia uma sílaba a mais. “Quem está metido até aos joelhos ou até à ponta dos cabelos na música [não consegue ver com clareza], percebes? Cá de fora é fácil dizer, olha, o botão está ali.” A sugestão de Mann foi usar uma tercina para encaixar “três tempos em dois”.

A resposta do músico português teve graça. “‘Quem é aquele gajo? Ainda o vou fazer produtor do meu disco’”. A partir daí, Francis ganhou confiança para fazer mais sugestões. “E depois ficámos muito amigos. (…) Ajudei também no ‘Bairro do Amor’ como assistente de produção”, acrescenta.

Agora prepara o lançamento de “Aquarius”, o seu sexto trabalho. Este novo álbum dá continuidade à fase mais experimental da carreira, com “elaboradas tapeçarias sonoras”. Para Mann, é essencial que o som o inspire. “Se eu não tiver um som que me inspire, não consigo tocar. Ou aliás, consigo, mas toco mal.”

Destaque ainda para “Quinto Império”, uma faixa inspirada na ideia de criar um tema ligado a Portugal. “Não é música portuguesa”, sublinha. “É música feita em Portugal.”

A inspiração veio de Fernando Pessoa, mais concretamente de uma biografia que estava a ler. Ficou agarrado à forma como o poeta falava do “império das ideias”, em que Portugal influenciaria o mundo, não com força militar, mas com arte, pensamento e harmonia musical.

“Aquarius” chega às lojas a 1 de setembro.

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