Música

Do génio à loucura: a espiral descendente da mente de Kanye West

A estrela emergente do hip-hip tornou-se num ícone, aventurou-se na política e acendeu polémica atrás de polémica. Ninguém percebeu que estava doente.
A carreira de Kanye West é uma montanha-russa.

Domingo, dia do Senhor. Em Atlanta, no estado norte-americano da Geórgia, é dia de Kanye West colocar as vestes brancas e caminhar sobre a água ao som de um gospel épico e arrepiante. Ao seu lado, três dos quatro filhos, apresentados por um pastor e celebridade de televisão.

O cenário bizarro da missa dominical do músico não é uma estreia absoluta. Repete-se semanalmente, ao mesmo ritmo que o mundo se questiona sobre o estado da sanidade mental de West, cujos últimos anos parecem estar a levá-lo numa espiral de loucura sem fim à vista.

As missas onde a figura de Kanye é tão ou mais destacada do que a dos símbolos religioso são apenas parte do puzzle. Ao mesmo tempo, o artista de 43 anos terá já gasto mais de seis milhões de euros na campanha presidencial rumo às eleições de novembro — apesar de apenas ter presença garantida no boletim de voto em 10 estados norte-americanos.

Será mesmo apenas mais uma estratégia brilhante de marketing? Mais do que uma discussão sobre se Kanye West está irremediavelmente perdido ou se é apenas hoje um dos motivos de chacota da praça pública norte-americana, discute-se a sua saúde mental do homem que diz que visitar a sua mente “é como visitar a fábrica da Hermès”.

As pistas podem ter sido dadas pelo próprio ao longo as últimas duas décadas, onde foi quase sempre protagonista pelos piores motivos: das tiradas xenófobas às controvérsias racistas, de agressões a colapsos mentais em público. Recordamos os momentos mais polémicos.

Um homem devoto

Deus nunca esteve muito longe. “Jesus Walks” foi um dos temas mais bem-sucedidos do disco de estreia em 2004. Em 2013, fundiu-se com a entidade para dar o nome ao sexto trabalho, “Yeezus”. Em 2019, regressou com uma reinvenção do gospel “Jesus Is King”.

“Definitivamente voltei a nascer”, explicou sobre a sua recém-descoberta devoção, numa entrevista à “GQ”. Diz que Deus fala diretamente consigo e, pelo caminho, o músico aproveitou para justificar algumas das suas loucuras. Em 2008, invadiu o palco dos MTV Video Music Awards — onde Taylor Swift recebia um prémio — para lhe roubar o microfone e, indignado, reclamar que o troféu deveria ter sido entregue a Beyoncé.

“Se Deus não me quisesse no palco para dizer que a Beyoncé tinha feito um vídeo melhor, ele não me teria sentado na primeira fila”, revelou West, que justificou ainda os rumores de que estaria bêbado durante a cerimónia: “Só bebi Hennessy porque não queria ir à cerimónia, já sabia que era uma farsa”.

O momento da invasão de palco que ainda ninguém esqueceu

O renascimento como um cristão devoto parece ser agora a base de toda a sua vida — e a justificação para todas as tropelias, disparates e vitórias. O novo gospel levou-o também a pensar renunciar o género musical que o tornou famoso.

“Pensei em não voltar a rappar, porque rappava para o Diabo durante tanto tempo, que já nem sabia como rappar para Deus”, explicou, antes de confessar como é que passou de “alcoólico funcional” à sobriedade: “Um dia estava no escritório a trabalhar na minha coleção de roupa, havia vodka no frigorífico e pensei em tomar uma bebida. Olhei e disse para mim mesmo: ‘Diabo, não me vais vencer hoje.’ Essa declaração é como uma tatuagem. Nunca mais bebi”.

Em 2019, Kanye afirmou ter recebido 68 milhões de euros de reembolso fiscal, que o teria ajudado a limpar a dívida que tinha acumulado. “Deus está a usar-me para se exibir”, atirou. O mundo ficou confuso. Ele explicou: “As pessoas precisam de ouvir estas coisas vindas de alguém que foi atirado para a dívida pelo sistema, mas que agora pode falar destes valores porque está ao serviço de Cristo.

A verdade é que muitos alegam que este reembolso não foi tanto obra de Deus, mas fruto de leis e isenções fiscais aprovadas por Donald Trump — o seu grande amigo e potencial rival em mais uma aventura de West, desta vez na política.

Rei do hip-hop (e do flip-flop)

É um termo atirado recorrentemente na gíria política norte-americana para descrever o momento em que um político se contradiz. E é a forma perfeita de descrever o percurso político de Kanye West que começou muito antes do que a maioria julga.

Ainda era o próximo grande nome da música norte-americana quando, em 2005, lançou um violento ataque ao então presidente George W. Bush, que acusou de “não querer saber dos negros” afetados pelo furacão Katrina.

Anos mais tarde, não só haveria de aparecer ao lado de Hillary Clinton — à época a candidata rival de Trump — como faria uma inversão total apenas um ano depois. “Disse-vos que não votei, não foi? O que não vos disse foi que se tivesse votado, teria votado em Trump”, revelou do alto do seu palco suspenso, num concerto na Califórnia, em 2016.

O monólogo que aborreceu a plateia durante 10 minutos ganhou contornos mais bizarros quando West abordou o tema do racismo. “Parem de se focar no racismo. O mundo é racista, ok? (…) É um facto. Vivemos num país racista. Ponto. E nenhum dos outros candidatos seria capaz de mudar isso”.

A paixoneta teria um dos seus pontos altos no final de 2016, com um encontro entre o músico e o presidente na Trump Tower, que haveria de tratar por “irmão”. Por esta altura, West já se posicionava como um potencial rival de Trump em 2020 — o artista havia anunciado a candidatura um ano antes, durante um concerto, ambição que concretizou meses mais tarde.

“Quando concorrer à presidência, preferia não concorrer contra alguém. Quero ser o tipo que diz ‘Quero trabalhar contigo’ [aos rivais]”, explicou numa entrevista à “Vanity Fair”.

Aparentemente, West falava mesmo de Trump, que visitaria novamente em 2018, desta vez na Casa Branca, com honras de visita à Sala Oval. Na cabeça, trazia o tão polémico boné vermelho com o slogan de campanha: “Make America Great Again”.

“Os meus próprios amigos tentaram assustar-me e dissuadir-me para não usar este boné. Mas este boné, de certa forma, dá-me poder. Tem qualquer coisa que me fez sentir como o Super-Homem. Criou um Super-Homem. Era o meu super-herói preferido e você fez uma capa de Super-Homem”, explicou enquanto se dirigia ao presidente.

Kanye vai concorrer contra Trump em 2020, mas pode ser um bom aliado

Regressados a 2020, Kanye é mesmo candidato, embora sem qualquer hipótese de disputar a corrida. Estará no boletim de voto em apenas alguns estados e, apesar da mais do que previsível derrota, alguns especialistas afirmam que a sua entrada em cena pode causar algumas perturbações nas contas dos candidatos crónicos: Turmp e Biden.

West vai a eleições em estados muito disputados e, nesses locais, o seu nome poderá ser suficiente para desequilibrar as contagens, roubando eleitorado negro aos democratas — ele que é aconselhado por antigos consultores republicanos.

Enquanto uns levam a campanha muito a sério, os mais sãos esbarram desde logo na ficha técnica: Kanye West apresentou a candidatura sob o nome do Partido do Aniversário. Porquê? “Porque quando ganharmos, vai ser o aniversário de todos”. E o que faria Kanye West na Casa Branca? Lutaria contra o aborto e a pornografia — e ofereceria um milhão de euros a todas as mulheres que tenham um bebé.

A loucura à vista de todos

“Deus fez-me ajoelhar por várias vezes. A primeira vez que aconteceu, pôs-me num hospital em 2016, onde eu comecei realmente a ler a Bíblia”, disse mais tarde sobre o episódio.

A 19 de novembro, durante um concerto da digressão Saint Pablo, os mais de 13 mil fãs presentes tiveram mais uma surpresa. Ao fim de três temas, a música parou, Kanye agarrou o microfone nunca mais se calou. Foram mais de 15 minutos ininterruptos de um monólogo quase impercetível, perante uma multidão agastada, até porque o concerto tinha começado com uma hora e meia de atraso. Atirou-se a Beyoncé, Mark Zuckerberg, Hillary Clinton e Jay-Z — músico com quem estava publicamente de relações cortadas e que nessa noite pediu para lhe ligar.

“Ainda não me ligaste. Jay-Z, eu sei que tens assassinos. Por favor não os mandes contra mim. Por favor, liga-me. Fala comigo como um homem”, disse antes de deixar um recado à imprensa: “Preparem-se para um dia em cheio, preparem-se porque o espetáculo terminou”. O concerto agendado para o dia seguinte acabou por ser cancelado a quatro horas do início. O resto da digressão também.

Dois dias depois, as autoridades californianas recebiam um pedido de ajuda pelo telefone. Kanye West ter-se-ia envolvido numa luta na casa do seu personal trainer. Durante mais de duas horas, amigos e autoridades tentaram convencer o músico a ir até ao hospital de forma voluntária, para
receber apoio psicológico.

Estava longe de ser o único episódio que demonstrava a instabilidade de Kanye West. Durante os mais de 15 anos como figura pública nacional, foram muitos os casos mediáticos que colocaram o país a duvidar da sua sanidade.

Numa declaração que não só haveria de se tornar polémica como absolutamente contraditória, em 2013 defendeu Obama, alegando que só não foi capaz de avançar com as reformas que queria porque “não tinha as ligações necessárias”. “Os negros não têm o mesmo poder de conhecimentos que os judeus têm. Não somos judeus. Não temos família rica nem nada disso”, atirou.

Anos mais tarde, em 2018, voltou a ser criticado, desta vez pela comunidade afro-americana, depois de ter insinuado que a escravatura se tratou de uma “questão de escolha”. “Quando ouves que a escravatura durou 400 anos. 400 anos? Isso soa-me a escolha. Estavas mentalmente preso”, explicou. O músico ainda se tentou justificar e alegou estar a ser criticado por “lançar novas ideias”, mas de nada lhe valeu.

De volta a 2018 e ao internamento voluntário, a passagem pelo hospital durou apenas uma semana. Diagnosticado com uma “psicose temporária” fruto de um estado drástico de privação de sono, cansaço e desidratação, já ninguém podia ignorar de que algo de muito errado se passava na mente de Kanye West. Os episódios esporádicos eram cada vez menos espaçados e cada vez mais enigmáticos.

West revelou mais tarde que além do álcool, também as drogas tiveram um papel crucial nos momentos mais polémicos dos anos recentes. O vício em opiáceos, prescritos depois de ter feito uma lipoaspiração, terá sido um dos rastilhos da crise de 2016.

A versão gospel de Kanye West fez a estreia em Coachella, em 2019

“Dois dias antes de ir para o hospital estava sob o efeito de opiáceos. Estava viciado naquilo. Tinha feito uma cirurgia plástica porque queria estar bonito para vocês todos. Fiz uma lipoaspiração porque não queria que me chamassem gordo”, confessou em entrevista ao “TMZ”.

A verdade é que em 2020, pouco ou nada mudou. Num acesso de raiva e loucura, West lançou-se ao Twitter para falar sobre tudo, num chorrilho de tweets que rapidamente foram apagados. Neles, acusou a mulher e a sogra de tentarem forçá-lo a ser internado num hospital psiquiátrico.

O estado mental de Kanye West é hoje mais claro do que era há cinco anos. Quem sublinha isso mesmo é a mulher, Kim Kardashian, que revelou em julho que o marido sofria de doença bipolar. “Qualquer pessoa que o tenha ou que conheça alguém nesta situação, sabe o quão complicado e doloroso é entender tudo isto”, revelou, motivada a tornar o assunto público “por causa do estigma e das conceções erradas que as pessoas têm sobre a saúde mental”.

“Ele é uma pessoa brilhante, mas complicada. Além das pressões naturais de ser artista e ser negro, além de ter vivido a perda dolorosa da mãe, ainda tem que lidar com a pressão e isolamento de ser doente bipolar”, escreveu.

Um tema delicado que o próprio West havia abordado numa conversa com David Letterman: “É um problema de saúde. É como uma entorse no cérebro, como ter uma entorse no tornozelo. Se alguém tem uma entorse, não vais puxar por ela. Connosco é assim, uma vez que o cérebro chega a esse ponto, as pessoas fazem de tudo para o tornar pior”.

Kanye West é um enigma. Onde é que termina o génio dos golpes de marketing e começa a mente vulnerável de um homem doente? De pista em pista, entre confissões e revelações, o cenário vai ficando cada vez mais claro e, em certos momentos, assustador. Revisitar antigas declarações, como as que deu em 2018, ajudam a perceber quão perigosa pode ser a doença mental num homem com um ego gigante — e sem ninguém que lhe defina os limites. “Oh sim, pensei muitas vezes em matar-me. É sempre uma opção. Como diz o Louis C.K.: folheio o manual e pondero todas as possibilidades”.

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