Música

Há 25 anos, Portugal contava as horas para a chegada dos Mamonas Assassinas

Era a primeira vez que a banda vinha cá e não havia quem não os quisesse entrevistar. O sucesso era uma inevitabilidade. Mas a tragédia impediu-o.
Banda não foi esquecida.

A 2 de março de 1996, há exatamente 25 anos, os Mamonas Assassinas andavam em tournée pelo Brasil. Saltavam de cidade em cidade, estado em estado, num avião privado. A banda voltava de um espetáculo em Brasília quando o avião em que seguiam se despenhou na Serra da Cantareira. Havia sete passageiros e dois pilotos a bordo. Ninguém sobreviveu.

No dia seguinte, 3 de março, os Mamonas Assassinas tinham um voo marcado para Lisboa. Era a primeira vez que a banda vinha a Portugal e havia deste lado do Atlântico um País em pulgas para os receber. A banda do “Vira, Vira”, com o sotaque carregado a imitar-nos, era já um sucesso por cá ainda antes de chegar.

Paulo Fernandes, na então editora EMI, era a pessoa que estava previsto ir buscá-los ao aeroporto. “Eu na altura era product manager, trabalhava os lançamentos deles e preparava-me para os ir buscar na madrugada em que iam aterrar em Lisboa. Ia conhecê-los pessoalmente quando chegassem. Os meus colegas no Brasil até me tinham avisado: prepara-te, que eles estão sempre a pregar partidas. Já estava naquela expectativa de ir preparado para tudo [risos]”. A banda, no entanto, nunca chegou.

Naquela altura a Internet ainda não era como a conhecemos, a circulação não seguia à mesma velocidade. Paulo soube da tragédia quando um jornalista lhe ligou. “Soube a notícia cedo de manhã e nem sequer foi pelos meus colegas no Brasil. Se não estou em erro, que já foi há muitos anos, até foi alguém da agência Lusa que me ligou a perguntar, na expetativa de que eu já soubesse”, conta. “Fui apanhado completamente de surpresa.”

“Por segundos”, recorda à NiT, “até pensei se era a sério. Nem queria acreditar no que me estavam a dizer. Só depois é que contactei os meus colegas no Brasil. A notícia foi terrível. A colega com quem eu falei atendeu-me a chamada a chorar. Eles eram uns heróis no Brasil, as pessoas adoravam-nos. E era transversal. Uma notícia destas foi algo chocante a todos os níveis.”

Não foi fácil preparar esta vinda a Portugal. Na altura, os Mamonas Assassinas eram a banda mais requisitada do Brasil. As suas letras politicamente incorretas eram acompanhadas de uma sonoridade musical que chegava a todas as faixas etárias e a todos os estratos sociais. Era algo de raro o que faziam e por isso todos os queriam.

As semanas da banda eram sempre de agenda cheia. Todas as cidades queriam um concerto dos Mamonas Assassinas, todos os jornais queriam uma entrevista e todos os programas de televisão os queriam em antena. A Globo chegou a tentar negociar um contrato de exclusividade, para fintar a concorrência, a EMI no Brasil disse que não. Não seria fácil a banda vir cá mas os próprios Mamonas Assassinas queriam visitar o País que inspirara um dos seus maiores sucessos.

“Eles conseguiram arranjar um espaço para vir aqui a Portugal. Queriam muito vir. Tinham uma grande expetativa aqui na Europa. A banda era muito espontânea, muito alegre, e havia uma grande curiosidade à sua volta”, recorda Paulo.

António Marinho trabalhava na altura também na EMI Portugal. Era com ele que estava a área da comunicação. António recorda que a banda era um sucesso monumental no Brasil e cá ia pelo mesmo caminho. 25 anos é muito tempo: Paulo Fernandes tem ideia de que a banda ia estar uns quatro, cinco dias em Portugal. António Marinho acha “que eram três dias, não mais do que isso”.

Uma coisa era certa, recorda António Marinho: “a agenda estava super lotada”. O sucesso dos Mamonas Assassinas prometia seguir pelo mesmo caminho em terras lusas. “A música passava em todo o lado”. Razão pela qual não havia rádio, jornal ou televisão que não os quisesse. Estavam previstas dezenas de entrevistas e aparições naqueles poucos dias. “A agenda deles era uma coisa abismal, havia muita gente que queria falar com eles. Mas nós com um bocadinho de jeito íamos conseguir fazer tudo”, recorda.

Por cá, a Rádio Cidade, que tinha uma ligação forte ao Brasil e muita presença entre as camadas mais jovens, tinha sido pioneira a dar a conhecer o fenómeno por cá. Mas um dos momentos altos ia ser num programa de debate televisivo que era então um dos programas de maior sucesso da SIC.

“A Noite da Má Língua” juntava à mesa, entre o debate e a sátira política, nomes como Rui Zink, Miguel Esteves Cardoso, Manuel Serrão ou Júlia Pinheiro. “Na altura, ‘A Noite da Má Língua’ não tinha músicos mas o jornalista Victor Moura-Pinto percebeu aquele fenómeno e contava com a música dos Mamonas Assassinas nas suas crónicas. E uma das coisas que conseguimos agendar era uma passagem surpresa pelo programa.” Por cá, não iam dar qualquer concerto com público, a ideia era apenas fazerem uns dias de promoção junto da comunicação social nacional.

Dinho, Sergio Reoli, Samuel Reoli, Alberto Hinoto e Julio Cesar Barbosa.

A moda do vira

É difícil de imaginar o que a banda ainda poderia ter feito por cá. Dinho, Bento Hinoto, Sérgio Reoli, Júlio Rasec e Samuel Reis de Oliveira tinham um toque especial ao combinar as letras bem humoradas com criatividade musical. Conseguiam dar nova vida a canções com as suas covers e aventuravam-se com facilidade, levando riffs rock bem orelhudos a paisagens sonoras tão díspares como o sertanejo, o pagode ou o nosso vira.

A 4 de março, dia em que, se não fosse a tragédia, estariam a celebrar com o público português, cerca de 65 mil pessoas juntaram-se para o funeral no cemitério Parque das Primaveras, em Guarulhos, São Paulo. Na altura houve escolas na zona que fecharam e vários canais de televisão interromperam a emissão para transmitir parte do funeral. O Brasil chorava a banda que mais o fizera rir. O relatório ao trágico acidente concluiu que terá sido falha humana, um misto de cansaço dos pilotos e de inexperiência do copiloto.

A banda foi um sucesso tremendo — e um daqueles que poderia nunca ter acontecido. Rafael Ramos, baterista de 16 anos que era filho do diretor artístico da EMI, é que insistiu que o pai desse uma oportunidade à banda. Depois de os ver ao vivo, João Augusto Soares arriscou.

A EMI queria pelo menos dez canções para aquele que viria a ser o único álbum de originais da banda. Na altura, os Mamonas Assassinas garantiram que já tinham sete canções e que numa semana poderiam compor as que faltavam. Na verdade, só tinham prontas as três canções que tinham enviado na demo para a editora. Numa semana, fizeram mais 12.

Ao longo dos anos a banda nunca foi esquecida. Continuou a ser alvo de biografias e documentários e há planos para uma minissérie sobre a história do grupo que começou o seu percurso em 1989 como Utopia, a tocar covers. O álbum “Mamonas Assassinas” continua a figurar entre os dez álbuns mais vendidos da história do país.

O único álbum de estúdio da banda é, ainda hoje, o disco de estreia mais vendido de sempre. “Pelados em Santos”, “Sabão Crá-Crá” ou “Robocop Gay” são algumas das canções que compõem o disco. No Brasil houve quem se chocasse mas também isso era recebido com humor. Sempre despretensiosa, a própria banda brincava, pedindo aos professores que deixassem a garotada cantar as suas músicas.

“Vira-Vira” foi uma das músicas que nasceram naquela semana louca de criação. Tem os falsetes de uma Maria, o sotaque aportuguesado e bigodaça de um Manel, rimas brincalhonas e uma coreografia saloia a acompanhar. Foi surreal. E especial. “Vamos lá, dançando raios, todo mundo comigo/Ô, a Maria se deu mal, vamo’ lá”. Vamos lá então.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT