Música

Há dois anos com leucemia, Magazino lança uma autobiografia sem filtros

“Ao Vivo” conta a sua história pessoal e carreira e também relata a jornada que fez nos últimos tempos enquanto luta pela vida.
O livro foi escrito por Ana Ventura e Magazino.

Magazino é um dos principais DJ portugueses dedicados à música eletrónica. Rosto da icónica Bloop Recordings, com uma carreira de cerca de 25 anos, a sua vida mudou drasticamente no final de 2019. Foi diagnosticado com leucemia, um tipo de cancro que ataca a medula óssea. Inicialmente, pensava-se que podia tratar do problema apenas com quimioterapia, mas passado algum tempo percebeu-se que era mesmo necessário um transplante de medula.

A doença dura desde então. Pelo meio, Luís Costa — nome civil de Magazino — teve de enfrentar um coma de duas semanas, uma infeção de Covid-19 e uma bactéria que contraiu no hospital de uma das vezes que esteve internado, como explicou no ano passado numa entrevista à NiT.

Esta quinta-feira, 14 de outubro, é lançado “Ao Vivo”, um livro de memórias, assinado pelo próprio e pela jornalista Ana Ventura, sobre a jornada que o trouxe até aqui. Está dividido sobretudo em três grandes capítulos: a vida pessoal, a carreira enquanto DJ e a luta pela vida que trava todos os dias há quase dois anos, sempre com o seu característico (e improvável) otimismo.

Trata-se de uma edição da Showtime Books e os direitos de autor vão reverter para duas instituições que trabalham com doentes de leucemia — a Associação Portuguesa Contra a Leucemia e a Heal Me. 

A ideia, explica Magazino à NiT, surgiu através de um amigo, o radialista da Antena 3 Rui Estevão. “Ele chateava-me muitas vezes para escrever memórias das minhas peripécias de carreira, que eu tinha por ter viajado pelo mundo. Mas nunca levei isso muito a sério. Quando fiquei a segunda vez internado, há mais de um ano e meio, ele veio-me visitar e voltou-me a falar disso. E aí eu pensei: bem, com a leucemia vou passar muito tempo deitado, internado, se calhar é uma boa ideia porque vou ter tempo para escrever. Mas depois havia vezes em que não conseguia sequer escrever e percebi que precisava de ajuda.”

Foi aí que pensou em Ana Ventura, jornalista especializada na área da música. “Falei com ela porque todas as vezes que dei entrevistas em festivais ela conhecia muito bem a minha carreira, estava sempre muito bem preparada, e ela tinha acabado de escrever a biografia dos Xutos & Pontapés. E como eu também queria fazer uma biografia, achei por bem falar com ela e ela disse que sim, só precisava de uns meses para acabar o segundo volume da biografia dos Xutos.”

No hospital, Magazino escrevia um diário. Depois, quando já não tinha forças para tal, começou a ditar para o gravador no seu telemóvel. Quando acordou do coma e teve de passar por uma grande recuperação — porque nem sabia quem ele próprio era nas primeiras horas — começou a ter conversas regulares com Ana Ventura para juntos criarem o livro. Faziam videochamadas diárias — no máximo de uma hora e um quarto de duração — e Magazino ia enviando apontamentos de diversas formas.

“A partir do momento em que me vi deitado numa cama de hospital sem me conseguir mexer e os auxiliares tiveram que me dar banho e lavar o rabo, nos primeiros dias senti-me violado mas depois percebi que é o trabalho deles, que não tens que ser um herói, e a partir desse momento percebi que tinha de retirar as camadas de ego, como se fosse uma cebola, e falar de uma forma genuína. E é isso que faço no livro, falo de uma forma genuína sem filtros. Falo abertamente sobre drogas que consumi, namoros que tive, aventuras que tive por esse mundo fora em tournée, falei de tudo muito abertamente.”

O livro é lançado esta quinta-feira, 14 de outubro.

Nesta conversa ao telefone, no dia antes do lançamento, Magazino ainda não mostrou o livro a quase ninguém. Por isso, o DJ está bastante expectante sobre as reações que vai ter. “Há histórias de que os meus amigos não têm noção, por isso estou preparado para tudo. E há pessoas que podem não ter noção… Eu sou artista, viajei pelo mundo fora, muito rock n’ roll — mulheres, sexo, drogas — e se calhar há pessoas que vão ficar um bocado chocadas e desiludidas mas resolvi contar sem filtros porque também quero que percebam que o meu lado não é só este de lutar pela vida. Também tenho um lado boémio e que me fez feliz nessa altura. Há coisas de que não me orgulho, mas da grande maioria delas também não me arrependo, foi uma altura da minha vida em que me apeteceu tomar essas atitudes. Estou bem resolvido com isso.”

E acrescenta ainda: “Há muita gente que está na expectativa porque tem medo daquilo que eu escrevi [risos]. Eu tenho mesmo amigos meus que estão com medo que eu revele alguns pormenores de noitadas que eles possam não ficar muito satisfeitos, mas vão ter que esperar para ver [risos]”.

Uma das poucas pessoas a quem já mostrou o livro foi ao pai. “O meu próprio pai ficou surpreendido com algumas coisas que escrevi. Eu tive uma relação não muito fácil com a separação dos meus pais quando tinha dez anos. Fiquei com uma relação não muito fácil com o meu pai, mas hoje em dia arrependo-me das atitudes que tomei. E ele leu e reconheceu também que não esteve bem nalgumas alturas e foi quase uma catarse mútua. Mas ele gostou muito, adorou o livro.”

Magazino está convicto de que a sua forma otimista de olhar para a vida — mesmo com todos os problemas e limitações —, que está transposta para o livro, pode ajudar outras pessoas. “Sei que este livro vai ajudar muita gente, que tem o mesmo problema que eu, ou problemas com filhos, ou familiares a lidarem melhor com os familiares doentes.”

Além disso, acabou por publicar quase parte do seu testamento em “Ao Vivo”. “No livro falo inclusive de uma coisa que tem forte possibilidade de acontecer, que é: a quem vou deixar as minhas coisas? A quem é que vou deixar os meus milhares e milhares de discos, que é a minha maior fortuna? Quando abordo isto com a minha família e os meus amigos, ninguém quer ouvir, porque não acreditam que eu me vá embora, mas isso é uma hipótese bem presente que pode acontecer num futuro muito próximo, e eu resolvi escrever no livro porque assim não há dúvidas. As pessoas ainda não sabem, mas fica ali escrito.”

Magazino está a ter uma semana intensa. Além do lançamento do livro, vai voltar a passar música na tarde deste sábado, 16 de outubro — no regresso das festas da Bloop Recordings, que vai acontecer na Piscina Olímpica do Restelo, em Lisboa. É a primeira vez que faz um DJ set desde dezembro de 2019 — entretanto só fez dois livestreams, um a partir de sua casa e outro a partir da casa do também DJ Rui Vargas. 

“Não estou com medo, mas tenho um nervoso miudinho por ser algo que não faço há muito tempo. Vão estar mais de mil pessoas, seguramente, e saber que há gente que vem de norte a sul do País para o regresso das festas da Bloop e para o meu regresso também, deixa-me muito feliz mesmo. Estou mesmo a sentir-me muito feliz.”

Infelizmente, o seu estado de saúde não tem tido melhorias nos últimos tempos. Magazino foi “cobaia”, como descreve, e fez um procedimento experimental de quimioterapia, mas não surtiu efeito. “A esperança baixou bastante, os médicos tiveram uma conversa muito sincera comigo e disseram-me que, se não aparecesse uma nova terapêutica, que não teria assim tanto tempo de vida.” Desde então, explica, tem-se virado para as terapias holísticas, que o têm ajudado a manter a felicidade nesta fase difícil.

“O dom que teve foi fazer com que eu acordasse todos os dias feliz, que é muito difícil, com as limitações todas que a doença vai impondo. Se eu todos os dias conseguir pôr o pé no chão e levantar-me, sou uma pessoa feliz e grata por isso. Que é uma coisa incrível para uma pessoa que tem uma sentença de morte a pairar diariamente em cima da cabeça.”

“Isto não está nada fácil, a minha medula tinha de produzir cinco por cento de células cancerígenas para eu poder fazer um transplante em plena segurança. Porque eu já tenho um dador compatível. Mas só posso quando tiver cinco por cento e neste momento estou em 40. Já tive em 17, em 18, em sete, isto é muito volátil. E com 40 por cento é bastante perigoso e estou a fazer quimioterapia de maneira a tentar baixar essa percentagem. Não tem baixado, pelo contrário, tem crescido. E sem um transplante não vou conseguir sobreviver, não aguento muito mais tempo, mas tenho a esperança de que alguma terapêutica me consiga fazer baixar as células cancerígenas que a medula produz para então poder fazer o transplante.”

Além disso, deixa o alerta, há neste momento uma grande falta de enfermeiros no IPO de Lisboa. “Uma das salas que dá quimioterapia aos doentes está fechada porque não há enfermeiros. Isto é grave. É um problema que está a afetar muita gente porque a terapia não se pode adiar porque está em causa a vida das pessoas. Estou aqui a ser acompanhado há quase dois anos e está a ser o pior momento do IPO em muitos anos, de acordo com todas as pessoas com que falo aqui.”

Neste momento cumpriu o objetivo de ver o livro chegar ao público. A próxima meta, agora que os clubes reabriram, é voltar a fazer DJ sets mais ou menos regulares em Portugal.

“Queria muito editar este livro ainda em vida, porque, lá está, há uma forte possibilidade de falecer. Esse objetivo consegui e estou muito feliz com isso. E eu vou tentar, se o meu corpo permitir, tocar uma vez por fim de semana e só em Portugal. Não tenho grandes intenções de sair do País, de fazer viagens de avião. Depende de como funcionar a quimioterapia, eu sinto-me uma manta de retalhos, já fui cortado e cosido não sei quantas vezes, já levei mais de 150 transfusões de sangue. Ou seja, eu não sou o mesmo de há dois anos, eu sou uma outra pessoa, não só por dentro, a nível espiritual, mas sobretudo por fora. Eu às vezes sinto-me um Frankenstein, tenho tantos cortes e tanto sangue de outras pessoas no meu corpo que sou neste momento diferente”, diz, sem nunca perder a boa disposição que o caracteriza.

Depois da festa da Bloop Recordings, Magazino diz que gostava muito de ir passar música ao Porto, Aveiro, Setúbal, Braga e Madeira. “Sei que vou tocar, vou ter os clubes cheios e vou inspirar muita gente. Essas mesmas pessoas vão-me motivar bastante para continuar nesta luta pela vida. E é isso o que mais desejo fazer.”

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