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Há regressos, revelações e confirmações entre os 10 melhores álbuns de 2022

O ano que agora chega ao fim foi rico em álbuns e canções que vamos continuar a ouvir nos próximos meses. Conheça a seleção da NiT.
Os Tears For Fears regressaram aos discos em 2022.

Chegámos àquela altura do ano. O Natal já lá vai e antes de entrarmos em 2023, está na hora de revermos a matéria dada ao longo dos últimos 12 meses e escolhermos os melhores álbuns de 2022. Há regressos, revelações e confirmações, que nos trouxeram canções que iremos continuar a ouvir nos próximos 365 dias.

Uma das melhores surpresas do ano que passou veio de uma banda já quarentona — está prestes a celebrar 42 anos de carreira e prova que a experiência é uma mais-valia incontornável. O ano que passou foi também absolutamente insano para um dos mais prolíficos artistas de que há memória. Em 2022, Ryan Adams lançou seis álbuns novos, quatro de originais e dois deles duplos. Um deles, provavelmente o menos ambicioso e mais direto — é um dos melhores lançamentos do ano.

Estes são apenas dois exemplos das muitas novidades que ouvimos — e gostámos — nos últimos meses. Sem mais demora, vamos ao top 10.

10. Yard Act — “The Overload”

Depois do sucesso do EP “Dark Days” em 2021, os Yard Act eram uma das grandes promessas para este ano. A banda de Leeds é um produto do seu tempo — Indie Rock de intervenção com spoken word, mergulhados em ironia, a relatar os problemas de um Reino Unido atormentado pela incerteza pós Brexit. Tinha tudo para correr, e assim foi. “The Overload” chegou cedo em 2022, conquistou a crítica e por pouco falhou o número 1 das tabelas. A projecção a que chegou no UK foi tal, que lhes valeu um dueto com Elton John (sempre pronto a saltar para a nova moda). Tive pena que a minha faixa favorita, que deu nome ao EP do ano passado, tivesse ficado de fora do álbum.

Faixas essenciais: “The Overload”, “100% Endurance”

9. Fontaines D.C. — “Skinty Fia”

Foi um dos concertos mais intensos do ano, Fontaines D.C. ao vivo no Finsbury Park, em Londres, a abrir para Sam Fender. “Skinty Fia”, o disco mais recente da jovem banda Post-Punk de Dublin (formada há apenas 5 anos), é melhor traduzido ao vivo, perfumado com o suor do público. Com uma palete sonora mais variada que os dois primeiros discos — “Dogrel” (2019) e “A Hero’s Death” (2020) —, mais acessível e menos abrasiva, “Skinty Fia” foi o disco mais bem sucedido nas tabelas (chegou ao primeiro lugar), e provou que os Fontaines D.C. já têm o seu espaço garantido na cena Punk. Para além disso, deu-nos um dos melhores singles do ano – “Jackie Down The Line”.

Faixas essenciais: “Jackie Down The Line”,  “I Love You”

8. Wet Leg — “Wet Leg”

Outra das revelações de 2021, quando nos trouxeram três singles a prometer um dos melhores discos de estreia dos últimos anos, as Wet Leg lançaram em Abril o álbum que cumpriu as expectativas da crítica Indie, que as adorou desde o início. Prova disso é a presença do homónimo “Wet Leg” nos lugares cimeiros de quase todas as listas de discos de 2022. É fácil perceber porquê. A abarrotar de riffs infecciosos, o primeiro álbum das Wet Leg carrega um charme irresistível. O meu único senão deste disco é que as faixas que sobressaem para mim são as mesmas que já conhecia de 2021.

Faixas essenciais: “Wet Dream”,  “Chaise Longue”

7. Widowspeak — “The Jacket”

Os Widowspeak foram uma das surpresas do ano para mim. Provavelmente só para mim, uma vez que eles já andam nisto desde 2010, período em que lançaram 6 discos. Foi o mais recente “The Jacket” que trouxe os Widowspeak até mim, e em boa hora. A voz da vocalista Molly Hamilton suspira-nos ao ouvido e evoca aquele misto de sensualidade e inocência de Nina Persson dos The Cardigans. Com um passo lento e paisagens etéreas rasgadas por guitarras, a música da banda nova iorquina posiciona-se num território Dreamy, vizinho dos Cigarettes After Sex, mas com guitarras, em vez de sintetizadores. Melhor, portanto. Altamente recomendado.

Faixas essenciais: “Everything Is Simple”, “The Jacket”

6. Yeah Yeah Yeahs — “Cool It Down”

“Cool It Down” é o primeiro álbum dos Yeah Yeah Yeahs em quase 10 anos, e que regresso triunfal teve a banda de Karen O. Com menos guitarras e mais sintetizadores gordos e pulsantes, o novo disco da banda nova-iorquina é tudo menos um exercício revivalista. O dedo do lendário produtor Dave Sitek, especialista na criação de faixas atmosféricas, faz-se sentir logo de início, com a entrada de rompante na sequência “Spitting Off The Edge The World” (com a participação especial de Perfume Genius), “Lovebomb” e “Wolf”. É, para mim, o melhor disco da carreira dos Yeah Yeah Yeahs. Bem vindos de volta.

Faixas essenciais: “Spitting Off The Edge The World”, “Wolf”

5. Working Men’s Club — “Fear Fear”

Os Working Men’s Club, projecto de Syd Misnky, são uma das minhas bandas favoritas dos últimos anos, e depois do glorioso álbum de estreia homónimo de 2020, que levou a estatueta de álbum do ano na NiT nesse ano, o colectivo de Yorkshire voltou aos discos em 2022 com o vibrante “Fear Fear”. Não tem o factor surpresa do primeiro disco, mas os beats mantêm a bitola que era esperada.

Faixas essenciais: “Widow”,  “Ploys”

4. Ryan Adams — “Devolver”

Um dos mais prolíficos artistas de que há memória, que compõe canções até em lives do Instagram, Ryan Adams teve um ano absolutamente insano, até em relação ao padrão que já nos habituou. Muito por culpa do stock acumulado de canções que Ryan Adams não pode lançar, desde as acusações que lhe pararam a carreira em Fevereiro de 2019. Desde Abril de 2022,  lançou seis (!) álbuns novos, quatro de originais e dois deles duplos. A saber: “Chris” (1 de Abril — duplo), “Romeo and Juliet” (25 de Abril — duplo), “FM” (22 de Julho), “Devolver” (23 de Setembro), “Nebraska” (7 de Dezembro — cover de Bruce Springsteen) e “Blood On The Tracks” (24 de Dezembro — cover de Bob Dylan). No total, são 81 faixas editadas e o ano ainda não chegou ao fim. Poderia ser cínico e dizer que menos é mais, ou como George Michael disse um dia de Prince (outro workaholic), o único problema dele é que não se sabe editar a si mesmo. Mas que mal pode ter lançar mais música, em vez de menos? Dos 6 discos deste ano, o melhor foi “Devolver”, provavelmente o menos ambicioso e mais direto. E também aquele em que o cantor e compositor mais se descolou da sua habitual autocomiseração. Ela continua lá, mas desta vez com um twist mais positivo. Adams parece estar a sair do buraco e só podemos ficar contentes com isso. Mal posso esperar para vê-lo em 2023 no London Palladium.

Faixas essenciais: “Don’t Give It Away”, “Eyes On The Door”

3. Suede — “Autofiction”

Os Suede são uma banda fortemente ancorada na estética dos anos 90 e no entanto, desde o seu regresso em 2010, que os discos têm sido cada vez melhores. O hiato dos anos 00 foi inevitável, numa altura em que todas as bandas Britpop foram dadas como esgotadas e acabaram por se desintegrar — Oasis, Blur, Pulp, a razia foi completa. A reunião pode ter sido alimentada pela nostalgia da audiência, mas também trouxe a libertação da cruz de obter um hit nas tabelas. “The Blue Hour” (2018) foi excelente, e “Autofiction” é um novo pico na discografia dos Suede. É a cristalização de uma banda madura, que se conhece a si mesma, e que se sente livre para fazer o que sabe melhor. O resultado foi um dos melhores álbuns Britpop pós anos 90. Foi surpreendentemente escolhido como o álbum do ano para várias publicações, que reclamaram que os Suede ainda são uma banda relevante em 2022. Não são. Mas o que é que isso interessa, quando fazem um dos melhores discos do ano?

Faixas essenciais: “The Only Way I Can Love You”,  “She Still Leads Me On”

2. Spiritualized — “Everything Was Beautiful”

O nome do álbum diz tudo. Tal como o nome indica, tudo é lindo em “Everything Was Beautiful”. A capa mostra uma embalagem de um medicamento e eu não consigo imaginar melhor imagem para descrever este disco. É medicação prescrita para corações partidos e saudades de amores distantes. Difícil não dar o prémio de melhor álbum do ano a este disco tão quentinho e reconfortante. Os Spiritualized tiveram um percurso semelhante aos Suede e tal como a banda londrina, regressaram melhor que nunca nos dois últimos discos, primeiro com “And Nothing Hurt” em 2018 e agora com “Everything Was Beautiful”, o melhor desde o lendário “Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space” de 1997. Palavras ousadas, bem sei, mas o disco merece.

Faixas essenciais: “Crazy”,  “Always Together With You”

1. Tears For Fears — “The Tipping Point”

A minha escolha para álbum do ano tinha que recair sobre o novo trabalho dos Tears For Fears, uma das minhas bandas favoritas de sempre. Era a minha maior expectativa para 2022, e o duo de Bath não desapontou. Tendencioso? Talvez. Maravilhoso? Definitivamente. “The Tipping Point” vive independente de todos os outros discos dos TFF, estilística e sonicamente, na velha tradição do espólio da banda, em que cada álbum é drasticamente diferente do anterior. A linha que conecta todos os pontos deste imaculado arco discográfico é a excelência, profundidade e intensidade da música, que vibra num comprimento de onda diferente da restante música pop. Quem conhece os Tears For Fears para além da rama dos seus êxitos, sabe bem disto. Podemos voltar a discutir a relevância de uma banda dos anos 80 em 2022 (que é obviamente curta), mas prefiro muito mais julgá-los pela sua música. E num ano marcado pela guerra, “The Tipping Point” é o disco catártico que o mundo precisa ouvir.

Faixas essenciais: “Master Plan”,  “Please Be Happy”

Condensar um ano em apenas 10 álbuns é um exercício cruel. Por isso fiquem com uma playlist com os melhores 80 discos deste ano.

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