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Harry Grande: o indiano motorista da Uber que gravou um tema viral no Martim Moniz

O videoclip de Harinder Singh já soma milhares de visualizações. A NiT falou com este artista improvável.

Há histórias que começam longe e acabam por ganhar voz em Portugal. Foi isso que aconteceu com Harry Grande, o alter ego do cantor Harinder Singh, que lançou esta sexta-feira, 1 de maio, o seu primeiro videoclipe, “Martim Moniz”. Em dois dias, a música filmada no bairro de Lisboa ultrapassou as oito mil visualizações no YouTube e começou a circular nas redes sociais, com partilhas e comentários de várias comunidades.

Harry tem 40 anos, vive na Marinha Grande desde 2019 e trabalha, hoje em dia, como motorista de Uber. Antes desta carreira, ainda acumulou alguns trabalhos de curta duração em fábricas da região. O nome artístico não surgiu por acaso. “Escolhi Harry Grande porque vivo na Marinha Grande. É uma forma de ligar quem eu sou ao sítio onde construí a minha vida”, explica à NiT.

Natural da região de Punjab, no norte da Índia, cresceu rodeado de música. “A música faz parte da minha vida desde muito pequeno. O meu pai e o meu avô tocavam harmónica e eu cresci nesse ambiente. Comecei a interessar-me pelos sons quando tinha quatro ou cinco anos”.

Antes de chegar a Portugal, passou pela Austrália, onde estudou Engenharia Mecânica, em Melbourne. Mas foi cá que decidiu apostar mais a sério na escrita. “Sou sobretudo um letrista. Já escrevi mais de 200 canções, mas nunca as tinha mostrado ao público”.

A mudança para Portugal não foi simples. “Nunca é fácil vir para um país diferente. A língua, a adaptação. Tudo é um desafio. Mas tem sido uma excelente experiência. Sinto-me bem aqui”, diz.

O músico/engenheiro/motorista vive com a mulher, Rajinder Kaur, de 39 anos, e o filho Armaanjot Singh, de quatro, que já nasceu em Portugal.

A inspiração para “Martim Moniz” surgiu de forma inesperada. “Eu não vivo em Lisboa, mas gosto muito de lá ir. Gosto do ambiente, da diversidade, das opções que existem. Certo dia estava no aeroporto de Lisboa e um amigo ligou-me a dizer que estava no Martim Moniz. Fui ter com ele e, naquele dia, senti algo diferente”, recorda em conversa com a NiT.

Foi o suficiente para começar a escrever mentalmente esta canção. “Estive lá cerca de três horas. Estava sol, havia muita gente, muita vida. Esse cenário inspirou-me. Comecei logo a construir a letra na minha cabeça. Quando cheguei a casa, escrevi tudo e fiz a música.”

A letra é interpretada em hindu, numa tentativa de resumir para todos os estrangeiros o espírito daquele espaço lisboeta. “Em dois minutos, explico o que é o Martim Moniz. Falo da comida, das lojas, da mistura de culturas. É um sítio onde encontramos tudo: produtos da Índia, do Paquistão, da China. Também falo da experiência de andar de tuk tuk e de descobrir a cidade.”

Musicalmente, “Martim Moniz” cruza sonoridades indianas com influências de uma base pop moderna, criando uma faixa leve, repetitiva e fácil de memorizar, pensada para circular nas redes sociais. “Quis juntar o som com que cresci na Índia com algo mais moderno, que as pessoas aqui em Portugal também pudessem sentir e cantar.”

A ligação ao nosso País já é antiga e até passa pelo futebol. “Uma das minhas grandes inspirações sempre foi o Cristiano Ronaldo. Já o conhecia quando estava na Índia e, por causa dele, comecei a interessar-me mais por Portugal.”

O sucesso inicial da música apanhou-o de surpresa. “Estou muito feliz e orgulhoso. Não estava à espera desta reação. Tenho recebido muitas mensagens e chamadas, até de pessoas que não conheço. É difícil responder a tudo”, admite.

O apoio tem chegado de vários lados. “Tenho recebido muito carinho dos portugueses, mas também da comunidade indiana e paquistanesa. É por isso que gosto tanto de viver aqui. Portugal é um país muito acolhedor.”

Este é apenas o primeiro passo. Aliás, Harry Grande já está a pensar no que vem a seguir, como vai mostrando na sua página de Instagram. “A próxima música será em três línguas: português, inglês e punjabi. Quero misturar as minhas raízes com o que vivo hoje.”

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