Ao chegar ao recinto, era fácil de perceber que Raye era a estrela que todos queriam ver no terceiro dia de Kalorama. A dez minutos da hora do arranque, a histeria começava, embalada pelos gritos dos fãs. E ao fim de uma hora de concerto, restavam poucas dúvidas que as constantes comparações com Amy Winehouse não foram atiradas em vão. Mais: podemos dizer que Raye foi protagonista do melhor espetáculo desta edição do Kalorama.
De vestido branco, a britânica partiu sem contemplações para “The Thrill is Gone”. Com um exército de saxofones, bateria e guitarra transportou-nos para um speakeasy dos Loucos Anos 20, num ambiente jazz que caracteriza a sua sonoridade. “Sou uma pessoa dramática e adoro finais dramáticos. Temos muitos momentos destes preparados para o espetáculo”, disse antes de fechar o tema a capella, com a sua poderosa voz.
As comparações com Winehouse terminam aqui. Raye, sempre de postura humilde, deu a mão aos fãs. E eles agarraram-a e nunca mais largaram. “Sinto-me muito honrada por poder ver tantos rostos lindos”, afirmou. Mais do que interagir com o público, aceitou até as sugestões de temas pedidos, entre “Fin” e “Oscar Winning Tears”, escolhida pelos vigorosos aplausos da multidão.
Como é seu hábito, falou sem papas na língua sobre os seus dramas pessoais, espelhados nos temas autobiográficos que falam sobre os abusos de que foi vítima, bem como da dependência do álcool e das drogas.
O tom confessional é quase sempre elevado ao expoente máximo antes do tema “Ice Cream Man”, onde Rachel Keen relata os abusos de que foi vítima por parte de um produtor que acusa de a ter violado. “É uma canção muito triste e não gosto de a tocar. A razão pela qual o faço é porque é um tópico importante. Acredito que a música é medicina e salvou a minha vida. Quando somos vítimas de abuso sexual, enterramos o trauma e isso não é justo”, disse com lágrimas nos olhos.
Apesar da voz audivelmente emocionada, conseguiu chegar ao fim e foi recompensada com uma ovação do público. Mas porque esta é uma celebração, Raye avisou que o tom iria mudar e partiu para “Genesis”, em sete longos minutos de dança e de comunhão.
O problema de tanta interação é que, às tantas, o tempo esgota-se e a setlist corre o risco de ficar pelo caminho. Houve, contudo, tempo para uma cover de “It’s a Man’s Man’s Man’s World”. E a versatilidade ficou finalmente patente com a viragem do seu jazzy pop para um toque de house music em “Secrets” e “You Don’t Know Me”; e ainda umas pitadas de rock com “Prada”. “Escapism” foi, sem surpresas, o tema de um fecho em grande que deixou a multidão com apenas uma dúvida: quando é que podemos voltar a repetir a experiência, Raye?
Carregue na galeria e vejo fotografias do melhor concerto do Kalorama este ano.

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