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Is there life on Mars? As músicas que vamos ouvir no nosso próximo planeta

Na sequência da aterragem do rover Perseverance, o cronista da NiT sugere 10 temas para entreter qualquer marciano.
O Monte Sharp, em Marte. Fonte: NASA

“Há vida em Marte?”, perguntou David Bowie no enigmático “Life On Mars?”. O tema de 1971 não era literalmente sobre a existência de vida no planeta Marte, mas a sua ubiquidade valeu-lhe a honra de ser a banda sonora do fecho da transmissão da aterragem do rover Perseverance no planeta vermelho, que teve lugar na semana passada. Não consigo pensar em melhor escolha. Neste momento histórico para a humanidade, é um prémio justíssimo para “o homem que caiu na Terra” e que passou toda a sua carreira a cantar sobre o espaço.

Em homenagem à missão espacial Marte 2020, ficam aqui 10 temas para ouvir naquele planeta, numa playlist cuidadosamente curada e ordenada, que começa no século XIX e tenta não repetir artistas (o que é manifestamente difícil no caso de David Bowie). 

Richard Strauss – “Also Sprach Zarathustra – Sunrise” (1896)

Escrita por Richard Strauss no século XIX para musicar a obra filosófica de Nietzsche sobre o eterno retorno, a introdução de “Also Sprach Zarathustra”, também conhecida como “nascer do sol”, ganhou fama como banda sonora dos títulos de “2001: Odisseia No Espaço”. É também a perfeita introdução para a nossa playlist para ouvir em Marte.

Pink Floyd – “Astronomy Dominé” (1967)

Depois de Bowie, a escolha mais óbvia para sonorizar uma missão espacial teriam que ser os Floyd. Os tempos de Cambridge e cogumelos catalisaram uma visão psicadélica que abriu os horizontes do Rock ‘n’ Roll ao infinito do espaço. Ainda não foi dada a devida reverência ao pioneiro “The Piper At The Gates Of Dawn”, um álbum que permitiu ao mundo levantar voo para a estratosfera, sem ser preciso passar pelo Cabo Canaveral. Depois, infelizmente, Syd levantou voo vezes a mais, até que ficou por lá. É pena.

The Beatles – “Across The Universe” (1969)

Muito aprenderam os rapazes de Liverpool nos clubes das caves de Londres, onde tocavam bandas psicadélicas como a referida em cima. “Across The Universe” é um hino do espaço à John Lennon, na medida em que é, na realidade, um tema introspetivo que usa o espaço sideral como metáfora para o espaço mental. Olhar para dentro, a olhar para fora. Clássico John.

Elton John – “Rocket Man (I Think It’s Going To Be A Long Long Time)” (1972)

Por falar em clássicos, aposto que já esperavam a inclusão de “Rocket Man” nesta lista. Eu sou um mega-fã do Elton que, segundo a minha base de dados do Discogs, conto com uns modestos 135 discos do Captain Fantastic na minha coleção. E choque, não sou fã do “Rocket Man”. Nunca fui. Será da sobre-exposição? Talvez. Mas nunca consegui perceber o encanto. A verdade é que os últimos anos viram Elton a ser cada vez mais associado a este tema e ao conceito de homem do espaço. “Rocket Man” foi o título do seu biopic e é, de longe, o seu tema mais tocado no Spotify, com mais de 500 milhões de streams. Mal sabe esta gente que Elton tem um universo (pun intended) de música por descobrir. Como dizem os ingleses, a fruta mais baixa na árvore é a mais fácil de colher.

David Bowie – “Moonage Daydream” (1972)

Ora bem, por onde começar? Desde “Space Oddity” (1969), passando por “Life On Mars?” (1971), “Starman” (1972), “Moonage Daydream” (1972), “Loving The Alien” (1984), “Hallo Spaceboy” (1995) e isto só na ponta língua, David Bowie passou a carreira a cantar sobre os mistérios do espaço e da vida alienígena. Ele próprio era, acreditavam muitos americanos do Midwest nos anos 70, um perigoso alienígena enviado para desviar os seus filhos. Tudo começou com “Space Oddity” e essa seria a escolha mais óbvia, mas eu sou atraído pelo som da guitarra do Mick Ronson como os nossos heróis eram atraídos pelo pó de giz, por isso vai o “Moonage Daydream”. E lamento, vamos ter que ficar aqui no que toca a Bowie.

Lou Reed – “Satellite Of Love” (1972)

…Ou não. Voltamos a ter Bowie, mas desta vez num papel secundário merecedor de um Oscar. “pom pom pom” – as backing vocals em “Satellite Of Love” são tao notáveis como a própria lírica de Lou Reed, que profetiza a chegada do Homem a Marte, seguida da terraplanagem para parques de estacionamento (“Satellite is gone way up to Mars / Soon it will be filled with parking cars”). E aquele último minuto, em que Bowie grita simultaneamente “SATELITE” e “AUUUUUU” em pistas diferentes, é dos momentos mais deliciosos da História do Rock.

Oasis – “D’Yer Wanna Be A Spaceman?” (1994)

O Noel Gallagher quando baixa a guarda é capaz de escrever melhor do que qualquer um dos grandes. “D’Yer Wanna Be A Spaceman?” canaliza os The Kinks, num tema naive sobre a perda da inocência e o crescimento que nos faz desistir dos nossos sonhos de astronauta, para nos entregarmos de livre vontade às prisões do trabalho e dos empréstimos ao banco. Podia e devia ter tido outra exposição, mas por razões que só Noel saberá, ficou escondido como Lado B do single do muito inferior “Shakermaker” em 1994.

Beach House – “Space Song” (2015)

Depois de ganharem notoriedade com o brilhante “Bloom” em 2012, os Beach House estabeleceram-se como uma das bandas mais consistentes da última década com “Depression Cherry (2015). Depois veio o advento do Spotify e o fenómeno das músicas “que se parecem muito com muitas outras” e que, como tal, aparecem nas faixas sugeridas pela plataforma quando acabamos de ouvir a nossa playlist. Foi assim que eu redescobri “Space Song”, anos depois de a ter criminosamente ignorado ao ouvir o álbum e foi assim que o tema disparou para 135 milhões de streams, quase o dobro do segundo tema mais popular da banda (“Myth”) e o quádruplo do terceiro (“Master Of None”).

Beck – “Stratosphere” (2019)

Por falar em temas criminosamente ignorados, sinto que depois de ser laureado pelo genial “Morning Phase” (2014) e criticado pelo desapontante “Colors” (2017), Beck não recebeu elogios suficientes pelo retorno à grande forma em “Hyperspace”. “Stratosphere”, em particular, tem tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, e mesmo assim consegue encaixar tudo numa medida perfeita de sintetizadores etéreos, eco e silêncio. Um dos meus temas preferidos dos últimos anos. 

Brian Eno – “An Ending (Ascent)” (1983)

Ao curar esta playlist, tive o cuidado de não recorrer a compositores eletrónicos, uma vez que seria demasiado fácil ir buscar Brian Eno, Vangelis, Tangerine Dream, Aphex Twin e atirar-vos 10 peças longas de ambient music sobre o espaço. E aí, meus amigos, é que iam ver o que era divagar nestas caixas de comentário. Dito isto, se começámos com uma introdução instrumental eufórica, faz sentido terminar com uma downer piece do mestre Eno, directamente saía da sua obra-prima “Apollo”, de 1983.

Faixa bónus: Klaus Schulze – “Velvet Voyage” (1977)

Acabei de dizer que não queria recorrer a compositores eletrónicos e aqui está mais um. Mais do que qualquer dos outros temas nesta lista, “Velvet Voyage” é uma viagem em si mesmo. Um tema desafiante de quase 30 minutos, que é melhor ouvido numa nave espacial ou, como faria o Syd, debaixo de substâncias que nos atirem para o espaço sideral sem passar pelo Cabo Canaveral. Para a próxima faço isto em verso.

Faixa bónus #2: David Bowie – “Life On Mars?” (1971)

Fechamos a playlist da mesma maneira que a NASA terminou a sua emissão – “Há vida em Marte?”.

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