Música

Janeiro: “O meu novo single é o meu grito de fuga da cidade”

O músico lançou “Pensando Bem”, do seu novo disco, muito influenciado pelo período em que saiu de Lisboa durante a pandemia.
O músico lança um novo disco em novembro.

Chama-se “Pensando Bem” e é o novo single de Janeiro. Trata-se do primeiro cartão de visita do seu terceiro álbum, “Fugacidade”, que vai ser lançado em novembro. Antes de ser apresentado ao público, ainda haverá um segundo single, “Dispersão”.

Janeiro cresceu num ambiente urbano e decidiu, em 2021, sair da cidade. Quando se refugiou no campo, afastou-se do movimento intenso, ganhou novas perspetivas e agora partilha-as nalgumas das novas canções que aí vêm. É esta a premissa para o novo disco do músico português. 

Leia a entrevista da NiT com Janeiro, onde abordámos ainda a digressão recente que fez pela América Latina — onde esteve também a gravar outro disco, o segundo volume do projeto “Protocolar”, que iniciou em 2020 com o amigo e músico brasileiro Paulo Novaes. 

Regressou recentemente da América do Sul, onde fez uma série de concertos. Como foi essa experiência?
Foi incrível, acho que a palavra para a tour é transformadora. Ganhei muita ética de trabalho. Porque o meu método criativo é muito baseado na dispersão e foi uma tour que me deu muito método. Assumi responsabilidade pelo compromisso. Nunca tinha feito uma digressão internacional — e foi muito especial com o Lucas Caram, o Cainã Cavalcante e o Paulo Novaes, que é este meu irmão transatlântico com quem estou a fazer uma série de trabalhos. Passámos por Pelotas, Porto Alegre, pelo Uruguai e Argentina — onde ainda fizemos uma masterclass na Universidade Católica e deu para ir buscar um pouco dos meus conhecimentos da faculdade porque sou musicólogo. Houve assim uma nostalgia e voltei com a vontade de ser professor e regressar àquele ambiente. Acabei por passar também por São Paulo, onde centenas de pessoas me receberam para ouvir as minhas canções. Percebi que rolou lá um movimento — o “movimento Janeiro”, como diz o Paulo Novaes — com uma cena mais indie pop, malta mais de nicho, mas os nichos no Brasil têm uma representação muito grande e então fui recebido, quer em São Paulo quer no Rio, de uma forma maravilhosa. As pessoas estão numa intensidade muito diferente lá, então rolou aquela coisa do “querer agarrar” e isso é muito recompensador depois de dois anos de pandemia.

Tocar para pessoas que não são portuguesas foi diferente?
Foi muito diferente, porque não é que o português não seja aberto à música, mas parece-me que o brasileiro tem uma abrangência… Eles são 240 milhões, têm uma abrangência e educação musical que é acima do português no sentido em que é mais aberta, mais colorida. Ouvem mais jazz, ouvem mais as sétimas, e a minha música tem muitas influências da bossa nova, do jazz e para eles é algo natural. Aqui ouve-se muito a tríade — o acorde com as três notas — e eu adoro e também faço imensas canções com ela e gosto imenso da canção portuguesa, mas parece-me que a minha canção lá, por ser esta fusão, é recebida de uma forma mais natural. Não é melhor, mas é mais normal.

Esta aproximação ao Brasil, até por causa dos trabalhos com o Paulo Novaes, como estava a dizer, vai refletir-se na sua música daqui em diante?
Sim, totalmente, até porque começámos esta viagem em Coimbra, na minha cidade natal, e o trabalho que tenho com ele chama-se “Protocolar” e o Paulo trouxe tanta coisa à minha vida. Estava a falar da ética de trabalho e ele tem uma relação com a família que é musical. Ou seja, a vida e o trabalho estão ainda mais ligados. Essa ligação influenciou-me muito, porque na minha família não tenho nenhum músico — ou tenho, mas nenhum profissional. E na família dele de repente estou num sarau numa noite normal e estão 20 pessoas a cantar numa rodinha de bossa nova e samba. Ele levou-me para a fazenda centenária da família dele em Avaré, onde compusemos o segundo volume do “Protocolar”. Toda a narrativa era que o “Protocolar” não acabasse, que fosse quase uma missão de vida nossa. Entrámos num pacto quase de sangue de criar uma irmandade transatlântica que nos potenciasse aos dois. De certa forma eu ajudo-o em Portugal e ele ajuda-me no Brasil e isso potencia os nossos projetos individualmente. 

Este segundo volume do “Protocolar” feito no Brasil, terá uma estética sonora mais brasileira?
Sim, não estava à espera que isso acontecesse, mas naturalmente aconteceu. Até há uma história curiosa em que o Paulo me leva para uma cascata, ao pé dessa fazenda, que fica a cerca de três horas de São Paulo, e ele diz para mergulharmos. Há milhares de histórias, mas o que se retira é que saímos de lá e ele diz “Cara, você mergulhou nas águas de Oxum, a deusa do rio”. E eu: “Cara, Oxum é um nome muito bonito para uma canção”. E ele disse-me que havia vários cânticos  a Oxum. Acabámos por fazer também um, que não é um samba nem uma bossa, mas tem muito essa raiz do Brasil. Foi muito curioso porque conheci o sub-prefeito do Rio de Janeiro Diego Vaz, que nos levou para a zona norte e para uma escola de samba, onde me senti como se eu fosse do Rio de Janeiro. Há ali qualquer coisa que me liga. Mais do que ser um turista, tenho raízes ali de certa forma, emocionei-me muito, o Diego disse-me coisas muito especiais também. E o facto de estar numa escola de samba no meio do morro, quando começa a favela, fez-me perceber que tenho quase um comprometimento ao Brasil — que é extra tudo o que é racional. Tenho de fazer um daqueles testes de ascendência familiar [risos]. Mas descobri que tenho um primo lá, o Nuno Janeiro.

Pode haver aí ADN brasileiro, então.
Aliás, há mesmo.

E a ideia com o projeto “Protocolar” é levá-lo para outros sítios?
Sim, a tour do “Protocolar” vai ser anunciada aquando do lançamento do disco, que ainda não tem data, mas queremos fazer uma tour “Protocolar” e uma “Anti Protocolar”. Ou seja, uma que passe pelas principais cidades, e uma que passe pelas cidades menos badaladas do nosso imaginário. Por exemplo, a tour “Protocolar” passaria por São Paulo, Lisboa, Rio de Janeiro, Porto. E a “Anti Protocolar” se calhar passaria por Tóquio, Israel e uma série de países que estivessem fora do roteiro normal, em que queremos fazer salas de 50, 100 ou 150 pessoas para andar a dialogar com os músicos em cada cidade, e não há melhor forma do que fazer eventos pequeninos. Adoro tocar em teatros, não tenho nada contra, mas acaba por ser tudo, lá está, muito protocolar [risos]. E depois voltas para o hotel e apanhaste o avião e no meio daquilo tudo não conheceste ninguém. Daí também querermos fazer uma tour mais anti protocolar em que passamos três ou quatro dias em cada cidade, algo mais informal. E agora quando passámos por Pelotas, Porto Alegre, Blumenau, Montevideo, estávamos a dialogar com os músicos. Ficámos em casa do Daniel Drexler, irmão do Jorge Drexler, que são dois músicos uruguaios inacreditáveis. E tudo isso foi uma aprendizagem extra.

Mudando de tema, o Janeiro tem um novo single, “Pensando Bem”. Como é que chegou até ele? Como foi o processo criativo?
É o meu grito do Ipiranga, de certa forma, para sair da cidade durante a pandemia. Dialogava muito com o João, o meu manager, sobre soluções — porque estava toda a gente muito focada nos problemas. E eu e a minha ex-namorada acabámos por alugar uma casa em Melides e esse é o meu grito de fuga da cidade. O disco vai chamar-se “Fugacidade” e é um jogo de palavras entre a fugacidade interior que sentimos na cidade e a minha fuga literal da cidade. Fugi, de certa forma, para parar um bocadinho e conseguir ver de fora aquilo que estava a viver. O “Pensando Bem” é o relato do início, em que digo “Pensando Bem/Melhor Sair/Encontrar Quem/Queira Fugir/Fugir Para Além/Além da Dor/Partir Também/Encontrar Amor”. Quase como se fosse uma metáfora para a vida na cidade estar… As pessoas acabaram por ficar em prédios a comer e a dormir. 

Que é muito diferente do que estar no campo.
E acabei por ter essa experiência que não é melhor nem pior, mas foi uma tentativa de encontrar a minha narrativa.

O objetivo era construir um álbum a partir dessa fuga? Ou tornou-se inevitável, mesmo que não fosse a intenção?
Não, até porque o álbum “Fugacidade”… Foi a primeira vez que usei este método: criei os títulos todos — “Deus Algoritmo”, “Pensando Bem”, “Fugacidade” (cujo refrão foi o Dino D’Santiago que fez comigo) — e as canções ainda não tinham saído. E só quando regresso de Melides e decido deixar essa fuga é que consigo ter o afastamento para entender a fuga. Ou seja, tive de fugir da minha fuga da cidade para a entender. Só quando chego a Lisboa é que escrevo o álbum em três semanas. Depois são mais duas ou três semanas de arranjos com o José Maria Gonçalves Pereira, meu grande amigo e co-produtor do álbum, e são mais duas semanas para ensaiar os músicos. Na verdade, fizemos um ensaio ou dois e fomos para estúdio. O disco fica feito dois dias antes de eu ir para o Brasil. Depois só tive tempo de fazer a mala e seguir para outro processo criativo com o Paulo. 

O álbum vai sair em novembro e, depois do “Pensando Bem”, ainda haverá um segundo single de antecipação.
Vai chamar-se “Dispersão”, porque o disco fala muito sobre este “quase”. E o mote para o disco é um poema de que gosto muito do Mário de Sá-Carneiro que se chama “Quási”, que tem esta ideia de estares sempre aquém. Esta ideia de efemeridade constante na cidade: o que é que quero? E de teres tantos impulsos e estímulos que não consegues decidir nem um caminho nem fugir dessa fugacidade interior de ires para casa à noite e dizeres “eu queria algo mais”. E a música relata muito estes três pontinhos do “quase…” “Se ao menos eu pertencesse aquém… Aquém de mim”. Ou seja, não me cumpro, de certa forma. O “Dispersão” fala muito disso, decidi chamar-lhe assim porque é o título do livro do Mário de Sá-Carneiro. Para mim é a minha nova “Solidão”, quer em tempos de arranjos… Também não quero criar expetativas, porque depois pode não rebentar, mas em termos de arranjos e de narrativa da letra do que estou a querer exprimir, é muito essa solidão interior, de estares calado com gente à tua volta e sentires-te sozinho.

Usou também o termo “dispersão” para falar do seu método criativo. É fácil para si alternar rapidamente entre processos criativos, como quando terminou este disco e passou imediatamente para outro projeto quando foi para o Brasil?
Não, não é fácil, mas é um trabalho que tenho de fazer para com uma exigência comigo próprio que não acaba. Ou seja, estou sempre a querer superar-me e a pôr desafios a mim próprio, e se havia esta narrativa de ir para o Brasil naquele momento, é porque tinha de o fazer. Não acho que seja fácil, mas também não quero descredibilizar a simplicidade com que o faço. Porque também me é natural de alguma forma. E o Paulo abriu esse portal em mim de composição com o outro e estou a tentar abrir esse portal com as pessoas cá em Portugal, porque não há essa ética de trabalho aqui. O compositor em Portugal é fechado, individualista. E eu também o era. E o Paulo entra na minha vida e abre-me esse portal. Já o tinha feito, mas não de uma forma tão prolífica ou profícua. E assim posso entrar numa viagem criativa com quem eu esteja alinhado ética e moralmente. Porque o que me faz fazer um álbum com alguém é um alinhamento de verdade e plenitude — e não por representação social ou por números. O que me motiva é mais a narrativa lírica, harmónica e melódica. 

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