Depois de três sessões, Joana Marques foi finalmente ouvida no julgamento que a opõe aos Anjos, na manhã desta sexta-feira, 11 de julho, no Palácio da Justiça de Lisboa. A humorista foi a última a falar, depois de várias testemunhas terem sido ouvidas a 17, 18 e 30 de junho. Sérgio e Nelson Rosado — que acusam a humorista de difamação, depois de esta ter publicado, no seu Instagram, um vídeo deles a cantar o hino nacional num evento do MotoGP, no Algarve, em 2022 — não irão prestar mais declarações, segundo a advogada da banda.
A humorista começou por dizer que “não sabia, nem tinha maneira de saber” se havia um problema técnico na atuação dos Anjos, segundo avançou o “Observador”. “Não me lembro de ver nada de muito estranho [nos comentários da publicação]. Recordo melhor os comentários à posteriori, porque o vídeo teve várias vidas”, disse.
“O vídeo era para rir ou tinha outra intenção?”, questionou a juíza. “A intenção é igual a tudo o que faço: fazer rir. Perante o tribunal parece pouco. Às vezes, as pessoas riem, outras não. Não estava à espera que uma obra de um minuto publicada há três anos no Instagram atingisse esta dimensão”, respondeu a humorista, de acordo com o “Público”.
“Nunca pensei que esta obra fosse tão escrutinada”, acrescentou, ouvindo-se risos na audiência. “Percebe-se, no meu perfil, que o meu conteúdo é humorístico. Seria uma história diferente se colocasse apenas o vídeo dos Anjos, mas a maioria do que publico é humor. Acho que as pessoas que chegam ao meu perfil sabem que o que estão a ver é humorístico”, referiu Joana Marques.
A humorista explica que quando viu o vídeo, no dia 25 de abril de 2022, este já “estava viral. “Achei que o vídeo tinha sido do próprio 25 de Abril. Não costumo ver coisas de motas”. Marques defendeu que o “humor está precisamente numa coisa que não corre como esperado” e diz que este momento foi “insólito” e fugiu ao “expectável”. “Considerei caricato. Na altura estava no ‘Ídolos’ e lembrei-me de juntar os dois universos”, explicou.
A artista acrescentou que este método “não é novo” e “já foi feito muitas vezes”, tendo exemplificado com conteúdos partilhados no seu Instagram. “As pessoas que estão a ver o vídeo percebem do que se trata. Sempre que acontece uma coisa que corre mal ou diferente do esperado, é comum [usar-se estes excertos]”.
A juíza questionou a humorista sobre o que a fez escolher as imagens utilizadas no vídeo. Joana Marques respondeu que optou por “um ângulo cómico, as melhores partes do meu entender.” “As piores?”, perguntou a juíza. “É subjetivo”, respondeu a artista.
Joana Marques recebeu 2 cartas dos Anjos
Ainda perante às questões da juíza, Marques reconheceu que o seu tipo de humor, que considera “de análise”, não agrada toda a gente. A artista falou também do “Extremamente Desagradável”, a sua rubrica diária na Renascença, tendo admitido que esta tem “alvos” diferentes do programa “Isto é Gozar com quem Trabalha”, da SIC, do qual também faz parte. Enquanto Marques aposta em influencers e figuras públicas, Ricardo Araújo Pereira brinca com políticos.
“Não faço grande distinção. Procuro o que há de engraçado para analisar, não o que a pessoa é, mas o que a pessoa faz”, explicou, recordando exemplos de vídeos em que satiriza opiniões de Gustavo Santos ou Rita Pereira. “É uma série de exercícios que gosto de fazer, é a minha profissão. Gosto de encontrar graça nas coisas”, disse.
Depois das questões da juíza, a humorista voltou a ser questionada pelo próprio advogado, que perguntou se foi contactada pelos Anjos. “A primeira carta que recebi dizia que o vídeo lesava a honra de Nelson e Sérgio. Não concordei e aleguei a minha liberdade de expressão”, partilhou, acrescentando que o documento exigia um pedido de desculpas e a retirada do vídeo das redes sociais.
Mais tarde, recebeu uma segunda carta dos irmãos Rosado, já com a indicação que iriam avançar para tribunal. “Calculo que seja por isso que estamos aqui”, disse a humorista.
Marques confessou que tem total empatia com os irmãos Rosado, sobretudo porque, graças à profissão de humorista, também recebe mensagens de ódio e compreende os lamentos dos familiares que recebem insultos. “Sou destinatária de mensagens de ódio e insultos, provavelmente muito mais vezes que os Anjos”, confessou, segundo o “Expresso”.
“Devíamos fazer queixa dessas pessoas. Tenho uma opinião muito parecida com o Nelson e o Sérgio sobre mensagens de ódio, talvez a única coisa em que estamos de acordo”, acrescentou.
A humorista deu ainda o exemplo dos comentários de ódio e insultos recebidos por Cristina Ferreira em 2020, quando se mudou da SIC para a TVI. “Não vi a Cristina Ferreira a fazer uma relação entre os milhares de sketches e comentários que foram feitos sobre a mudança dela da SIC para a TVI por considerar que o teriam instigado. Porque percebe que isso está na natureza das pessoas e do seu comportamento online”, adianta.
“Dizer que assassinaram a música, no meu entender, não é um comentário grave”
A humorista foi também questionada pela advogada dos Anjos, que optou por fazer uma longa introdução, tendo sido interrompida pela juíza que confessou estar “perdida” e que não se apercebeu da pergunta. O momento gerou risos na audiência.
A advogada dos irmãos Rosado perguntou qual o número de visualizações do vídeo e Joana admitiu que não queria tirar crédito à conta que o partilhou (Aníbal06) primeiro: “150 mil visualizações é um número bastante abaixo do que costumo ter em publicações do Instagram”.
A resposta foi interrompida pela juíza, que questionou o significado de viralizar. “Também não lhe sei responder”, disse a comediante, acrescentado que não apagou nenhum comentário da publicação, contrariando o que foi dito noutras sessões do julgamento.
“Não me lembro de ver, na minha página, ameaças de morte ou coisas do género sobre essa publicação”, garantiu, segundo o “Público”. “Não vi nada muito diferente do que normalmente vejo. Há comentários desagradáveis, mas dizer que assassinaram a música, no meu entender, não é um comentário grave.”
Marques disse que não apagou o vídeo pelo mesmo motivo de sempre: “Olhei para a carta [dos Anjos] como algo semelhante às que costumo receber sempre que alguém é alvo de sátira e não gosta”.
A advogada dos Anjos focou também as perguntas na montagem do vídeo, referindo que foram cortadas “duas estrofes do hino”. “Tem consciência que pode ter criado uma nova versão da realidade totalmente distorcida? Os mesmos foram acusados de não saber a letra do hino”, disse.
“Faço esse exercício todos os dias, não penso no que vou excluir, penso no que vou incluir”, defendeu Marques. “Penso no que vou sublinhar, no que é risível, no que é engraçado. O vídeo do hino nacional é matéria-prima de humor, escolhi excertos com um ângulo cómico, as que considerei mais engraçadas. Se fosse uma música dos Anjos que eles estivessem a cantar de forma diferente, no meu entendimento, não seria tão engraçado”, acrescentou.
A advogada referiu que o facto de a comediante ter deturpado a letra do hino “é uma violação”. A isto, a juíza interrompeu: “No humor nada é sagrado. Tudo é criticável”. Já a radialista, acrescentou: “Provavelmente, uma versão diferente da música ‘Perdoa’ dos Anjos não teria tanto interesse. Em termos humorísticos, é mais apetecível o hino.”
Joana Marques aproveitou o momento para fazer uma análise ao humor, que considera “muito democrático” e que “ninguém está salvo do ridículo”, desde o Presidente da República ao Anjos. “Não existe nenhum humor que não vá ofender ninguém. Humor que não ofende, não existe”, frisa. “Humor que não ofende uma pessoa pode ofender outra”, disse, acrescentando que prefere “viver num mundo em que o humor ofende muito, porque é um mundo mais livre e mais democrático”.
A comediante referiu ainda um momento do julgamento que, ao seu entender, “tornou-se mais claro que há dois entendimentos diferente do humor”. Este aconteceu quando a advogada perguntou a Fernando Alvim, uma das testemunhas, se ser equiparado a Maria Leal seria bom.
Segundo Joana Marques, os Anjos e a sua defesa olham para o “humor como desconsideração”. A artista acrescentou que, em muitos casos, os visados só gostam do que é dito no humor quando controlam os comentários. “Quando não têm controlo, não gostam”.
A comunicadora foi então questionada pela juíza sobre os limites do humor. “Tenho os mesmo que estão previstos na lei”, respondeu. “O que é crime?”, perguntou a juíza. “Sim. As coisas que não podem ser ditas já estão previstas na lei”. O momento foi então interrompido pela advogada dos Anjos, que questionou se era esta a opinião da humorista. “Só posso dar essa”, afirmou.
O ódio da extrema-direita
Numa segunda onda de perguntas, outra advogada da dupla referiu o “ódio da extrema-direta” direcionada aos irmãos. “Quando produziu o conteúdo teve ideia que era uma temática, até pelo hino e pelo 25 de abril, que ia tocar na questão do nacionalismo e no fanatismo levado ao extremo da extrema-direita?”, questionou. “Não vejo o tema com essa gravidade ou seriedade”, respondeu Marques.
Por fim, a advogada perguntou se a comediante não tinha noção que a publicação desencadearia uma onda de comentários de ódio. “Não conheço todos os seguidores que tenho, mas penso que são pessoas que pensam pela cabeça. Estão na minha página à procura de conteúdos de humor”, respondeu Joana Marques. “Não me sinto como instigadora. Nunca deixei de publicar nada por ter medo da extrema-direita.”
O depoimento chegou ao fim por volta das 12h14. Será retomado pelas 14 horas.
Leia também o artigo da NiT sobre o depoimento de Tatanka, uma das testemunhas que está a ser ouvida esta sexta-feira, 11 de julho.








