Música

Jorge Palma: “Achava que depois dos 40 anos não valia a pena viver”

A NiT entrevistou o icónico músico português que está a celebrar 50 anos de carreira com uma série de concertos de Antologia.
Jorge Palma tem 72 anos.

Foi no longínquo ano de 1972, há 50 anos, que Jorge Palma se estreou com o single “The Nine Billion Names of God”, em inglês. Para celebrar o aniversário redondo desse marco, o icónico músico português está a apresentar uma série de concertos de Antologia em Lisboa.

O primeiro espetáculo aconteceu a 25 de setembro no Palácio Baldaya, em Benfica, com Jorge Palma sozinho ao piano, para celebrar “Só”. Seguem-se uma série de concertos no Teatro Tivoli BBVA (7 de outubro, 26 de outubro, 1 de novembro e 8 de novembro). Cada um será dedicado a uma série de álbuns, percorrendo assim a carreira do artista ao longo dos anos.

A tour culmina a 19 de novembro com uma performance do Palma’s Gang no Capitólio. Ainda há bilhetes à venda entre os 18€ e os 35€. A NiT entrevistou Jorge Palma para assinalar a digressão — e o músico revelou que está a preparar um novo disco.

O que é que o fez, nesta fase da sua vida e carreira, querer partir para estes espetáculos de Antologia?
A ideia foi dos meus excelentíssimos amigos e managers, que às vezes têm destas ideias. E é uma ideia muito engraçada, porque estou a reviver músicas que… algumas delas nunca mais tinha tocado desde a gravação. 

Como é que tem sido a experiência de revisitar essas canções?
Para já, é trabalho e prazer. Estamos todos, eu e os músicos, cheios de pica, a dar o nosso melhor.

Também o faz recuar no tempo e lembrar-se das memórias da altura em que escreveu as canções?
Faz-me só recuar 50 anos [risos]. Sim, cada disco corresponde a um certo período e traz-me à memória o que estava a viver na altura, o que estava a acontecer, com quem é que me dava, como é que estava do ponto de vista emocional, económico [risos]. É uma viagem.

Houve assim algum disco que, agora, olhando para trás, guarde com mais carinho? Ou é impossível porque são todos discos que marcaram a sua carreira?
São todos discos diferentes e únicos. Como estava a dizer, cada um reflete o período em que as canções foram compostas e em que foram gravadas… É evidente que o primeiro single que gravei, em inglês, há 50 anos, é o primeiro disco em meu nome. E o primeiro álbum, em 1975, “Com uma Viagem na Palma da Mão”, também é especial. Os outros são como os filhos [risos]. Gosto de todos, cada um à sua maneira. Uns têm canções mais fortes do que outros. Tecnicamente mais bem construídas e elaboradas e também do ponto de vista comercial, obviamente.

Não sei como tem perspetivado estes concertos, mas como acabam por refletir a sua carreira ao longo dos discos, é possível que atraia diferentes públicos, de várias gerações, que se identificam mais com este ou com aquele trabalho.
Sim, é natural que — no caso do primeiro [que já aconteceu] — seja conhecido por menos pessoas. Se bem que já tem canções que o pessoal conhece bem. Mas como foi editado há muitos anos, na altura ninguém me conhecia. É uma incógnita, nem pensei muito nisso. O primeiro, fui eu e o piano, esgotou logo e é um concerto que tenho feito. O último é com o Palma’s Gang, aí terei um público mais rockeiro, acho eu. Os quatro Tivolis não sei, vamos lá ver. É natural que apareçam pessoas de idades muito diferentes.

Foi simples definir o alinhamento destes espetáculos, ou foi um grande desafio?
Não é um grande desafio, mas é preciso pensar, neste caso com os outros músicos e os meus managers. Chega-se a um consenso, “esta é mesmo para se tocar”, “esta nem por isso”. E chegámos aos repertórios. Os alinhamentos propriamente ditos, as sequências das canções, não está ainda determinado. Agora estamos a estudar músicas. Com algumas eu próprio fico… “Eh pá, eu escrevi isto?” Estou a reaprender e o pessoal da banda, que é mais novo que eu, nunca tinha ouvido muitas das canções. Mas como está tudo a ter gozo e é gente boa, do ponto de vista humano e profissional, está tudo a correr muito bem.

Esqueceu-se de algumas das letras de canções mais antigas que não costuma tocar?
Pois, neste momento estou a estudar, a decorar letras… Há umas que toco regularmente, isso não preciso. Mas algumas, daquelas mais antigas e que não tenho tocado, estou a estudá-las. 

Estava a referir-se ao primeiro single, “The Nine Billion Names of God”. Quando o lançou, pensava que seria músico para a vida inteira e que iria continuar a tocar em 2022?
Nunca. Aliás, nessa altura achava que depois dos 40 não valia a pena viver [risos]. Mas essa perspetiva vai mudando à medida que as pessoas crescem. Mas não. Nessa altura o gozo imediato era o dia. Pensava eventualmente no dia de amanhã. Mas nunca pensei a longo prazo, nunca fiz planos a longo prazo. As coisas foram correndo naturalmente, fui agarrando oportunidades, fui procurando explorar as oportunidades que tinha e tenho sido perseverante, sempre.

Qual é que diria que foi o momento específico em que percebeu que era isto que ia fazer da vida, a música?
Logo no fim da adolescência. Quando comecei a tocar em bandas… Ainda frequentei a faculdade, o curso de engenharia, mas não passei do segundo ano. E aí percebi que engenheiro não iria ser — e que era a música. A música sempre foi central na minha vida. 

Mas mesmo nessa altura nunca teve dúvidas de que iria conseguir construir uma carreira sólida?
Sempre tive confiança em mim próprio, pensei sempre que haveria de vencer os obstáculos. Há um problema e tal, vai-se resolver de uma maneira ou outra, e siga a marinha. E tenho tido muita sorte também, na maneira como as coisas se me têm apresentado na vida. E tenho tido gente muito boa à minha volta — nem sempre [risos], mas de um modo geral sim.

Sente-se grato pela vida que tem tido?
Muito grato, muito contente.

Há alguma coisa que ainda não fez mas que ainda gostaria muito de concretizar?
Fazer pára-quedismo ou aprender a fazer ski [risos]. Não, o meu objetivo é ir escrevendo as canções e ir evoluindo, sem aquele tipo de ambição desmedida. Todos os dias se aprende alguma coisa. E com a leitura, com o teatro, com o cinema, com tudo o que nos rodeia, uma pessoa está sempre a aprender e isso depois reflete-se no que se faz. 

Tem vindo a trabalhar em música nova?
Tenho um álbum quase, quase concluído, com 10 ou 11 canções. Já estão compostas, algumas já estão gravadas, outras ainda falta dar-lhes letras e arranjos, mas de um modo geral até ao fim do ano o disco está concluído da minha parte. Começará a ser ouvido no princípio do ano que vem. Ainda não tem nome.

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