Chega com um órgão debaixo do braço como se fosse um simples livro. É tão precioso e antigo que várias vezes durante a tarde pede, sobressaltado, para termos cuidado com o transformador. “É que já não há disso à venda”, explica.
José Cid regressa à Aula Magna (1 de maio) e à Casa da Música (no dia 6) para tocar “10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte”, considerado pela revista “Billboard” um dos cem melhores álbuns de rock progressivo do mundo. Desta vez juntou músicos jovens — “os da minha geração eram talentosos mas muito preguiçosos”. Há também uma edição de colecionador à venda, com vinil, CD e DVD ao vivo. A edição é limitada (são apenas mil) e é o próprio que vende os exemplares.
Antes dos concertos passou pela NiT para falar do disco, editado originalmente em 1978 e com faixas como “O Último Dia na Terra” e “Mellotron o Planeta”, e para tocar alguns temas. Deste álbum apenas aquele que lhe dá o nome, “10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte”, porque todos os outros exigem uma logística bem mais elaborada do que apenas um órgão.
Falou das relações com Amália Rodrigues, que o hostilizava, e com Marcelo Rebelo de Sousa, “um dos fãs”. Recordou a viagem que se recusou a fazer com Francisco Sá Carneiro (e na qual o então primeiro-ministro acabaria por morrer) e do ano em que lhe disseram que a vitória no Festival da Canção estava garantida. E mais: só não ganhou depois a Eurovisão porque Portugal não tinha condições para organizar o evento no ano seguinte. Houve tempo para ouvir “Como o Macaco Gosta de Banana” e “Um Grande, Grande Amor”. Cantou ainda com uma das repórteres da NiT e garantiu: “Cantas melhor do que a Adele e és mais gira.”
Leia a entrevista e veja os vídeos da reportagem e das canções.
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“10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte” foi considerado pela revista “Billboard” um dos cem melhores álbuns de rock progressivo do mundo mas foge um bocadinho ao registo mais conhecido do José Cid. Com esta edição e os concertos que aí vêm também quer cativar um público mais jovem?
Não, eles é que vêm atrás de mim. Através da Internet conhecem a edição em vinil e depois procuram.
Vai preparar-se de maneira diferente para os concertos?
Completamente. Nos outros nem sequer sigo o alinhamento, se me apetecer começar com um fado, entro, e eles já sabem. Estes vão ter um alinhamento porque é uma história conceptual e muito mais trabalhosa. Agora é mais fácil ensaiar porque, como temos o DVD, basta estarmos em casa, juntamo-nos duas vezes e já está.
Disse que o Presidente da República é seu fã. O que é que ele lhe costuma dizer?
Trocamos umas mensagens, ele responde quase sempre, laconicamente, porque tem mais que fazer. Agora, quando esteve a visitar a pirosa da rainha de Inglaterra, tinha mais aspeto de rei do que ela.
Foi ele que disse isso?
Não, sou eu que digo. A vocês também posso dizer que o Elton John usa os sapatinhos e pochettes que a rainha de Inglaterra já não quer. A ele [Marcelo Rebelo de Sousa] dei-lhe os parabéns, que tinha tido um sentido de Estado incrível e que nos sentíamos orgulhosos por isso.
Que outros grandes admiradores tem?
Também o Sá Carneiro era um grande admirador meu, mas era diferente deste Presidente. Ele achava que mandava em toda a gente e eu odeio ser mandado e mandar. No dia anterior à viagem para o Porto, ele quis forçosamente que eu fosse com ele na avioneta porque era mesmo meu fã. Eu recusei porque tinha sido proibido de entrar em Angola — agora também não vou, já me quiseram pagar 30 mil euros — durante seis anos por pessoas próximas do candidato à presidência que ele apoiava e eu não quis ir por uma questão de consciência. Muita gente me ligou no dia anterior, o Ângelo Correia, a minha antiga esposa que era vidrada em Sá Carneiro. Não fui e sobrevivi [Francisco Sá Carneiro não sobreviveu à queda do avião, que se despenhou em Camarate a 4 de dezembro de 1980].
Com a Amália Rodrigues também não tinha uma relação muito boa.
Aparecer um puto lá na Valentim de Carvalho a vender mais do que ela, isso irritou um bocadinho a Amália. Ela hostilizou-me algumas vezes, devo dizer. Nunca respondi, a não ser uma vez.
Qual foi a resposta?
Eu canto fado desde sempre mas só gravei um projeto de fado, em 1988, que vendeu 80 mil vinis. Isso irritou alguns fadistas da época, principalmente a Amália. Para mim ela foi mazinha mas eu nunca liguei. Até que um dia eu ia no comboio de manhã — já tarde na carreira dela, já a Amália estava em saldo vocal há muito tempo. Ela cantou como ninguém no mundo mas nos últimos 15 anos de vida nem devia ter aparecido. A minha opinião, e por isso é que eu vou ter a noção de que no dia em que não estiver em condições eu saio, é que quem canta em fórmula 1 não pode acabar a vida a cantar em rally paper. Eu ia no comboio de manhã e ela estava lá com os guitarristas. Eu vi-a e disse: “Bom dia dona Amália, eu sei que vai cantar ao Porto…” Ela não me respondeu, depois virou-se para mim e disse: “Olhe, é para lhe dizer que não gosto nada de o ouvir cantar fado.” “Senhora dona Amália, nos anos 50, quando ia cantar à minha terra, no Ribatejo, lembro-me de si esplendorosa. Eu era o miúdo que cantava antes de si, canto fado desde sempre.” E ainda acrescentei: “Já agora, aproveito para lhe dizer que a senhora canta uma coisa, nem disse um fado, em que lhe aparece um extraterrestre [Senhor Extraterrestre] — aquilo é uma coisa horrorosa. E faça boa viagem.” Os guitarristas desataram a rir, ela ficou com umas trombas desgraçadas e foi a última vez que falei com a Amália.
O José Cid tem uma grande ligação ao Festival da Canção. Viu esta edição? O que é que achou?
Vi, achei fantástico. Acho que o conceito de Festival da Eurovisão com os ritmos que se usavam na minha época, já não se usam. Esta canção [“Amar Pelos Dois”] vem exatamente contra o conceito de festival. Achei fantástica a interpretação do Salvador Sobral, com uma contenção vocal e uma alma extraordinária — esperemos é que a irmã não vá cantar com ele.
Da experiência na Eurovisão, qual foi a história que mais o marcou?
Eu participei muitos anos no Festival da Canção e por seis vezes fiquei em segundo lugar. Quando ganhou o Paulo de Carvalho, com “Depois do Adeus”, eu levei [canta e toca] “No Dia em que o Rei Fez Anos”. Depois vieram as Doce, ganharam com uma música que ficou em último lugar na Eurovisão mas pronto, eram as Doce, eram giras, mais do que as Spice Girls, eu fiquei em segundo com “O Meu Piano”. Seguiu-se o Carlos Paião, ganhou com “Playback” e eu em segundo lugar outra vez com “Morrer de Amor Por Ti”. Naquele ano em que aquela menina das botas ganhou, como é que ela se chamava… a Dora. Fiquei em segundo com uma canção menor, “Cai Neve em Nova Iorque”. Foi uma mafiosisse incrível comparar esta canção com a que ganhou, é como comparar o Benfica com o Sacavenense.
E mesmo assim continuava a tentar. Porquê?
Sim. E depois, esperem, ainda veio outro segundo lugar. No ano em que ganhou a Anabela, eu estava a produzir um álbum do Paulo Bragança, estávamos a passar o inverno no norte e estava a ser chato. Não tínhamos trabalho, não tínhamos espetáculos, o que é que íamos fazer? Ele disse na brincadeira: “E se fossemos cantar ao Festival da Canção?” Eu comecei a rir à gargalhada mas para quem não tinha mais nada para fazer… Fomos. Levámos “O Poeta, o Pintor e o Músico”.
E como foi no ano em que ganhou?
O Arnaldo Trindade, que era meu diretor e muito amigo do Sá Carneiro, liga-me e diz: “Zé, avance, porque este ano temos ordens específicas do Sá Carneiro para a televisão para você ganhar o Festival.” Eu disse: “Ai é? Por acaso há uma música que eu, já esperando uma coisa dessas, guardei. É uma porcaria de uma música que não presta para nada mas que é altamente festivaleira e é essa que eu vou levar.” “Entre porque ganha”, disse ele. E levei uma música que era assim “addio, adieu, auf wiedersehen, goodbye”. Esta música foi favorita na Eurovisão, entre 400 jornalistas na Holanda, 376 votaram-na como canção favorita, mas era impossível, Portugal não estava preparado para receber um evento daqueles. Não tinha orquestra, tinha de vir de Espanha. Tínhamos ótimos músicos mas não havia uma orquestra formada. Não tinha auditório, o único bom era da Gulbenkian mas também era demasiado pequeno. Acima de tudo, a televisão não tinha dinheiro e quem ganha a Eurovisão tem de organizar no ano a seguir. Os outros países sabiam que não podiam votar em Portugal porque não iria ser possível. E pronto, fiquei em sétimo lugar, foi uma boa classificação.
Estava convencido de que podia ganhar?
Não sei, a canção favorita do Johnny Logan, que ganhou, era a minha. A minha favorita era a dele [“What’s Another Year”], uma grande balada. Houve muita empatia entre nós e quando ele ganhou, nós fomos a única delegação convidada para ir à festa. Eu tinha o Mike Sergeant, o Ramon na banda e fizemos uma atuação daquelas das grandes. Toda a gente a saltar e a dançar.
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