Kika Cardoso queria participar no “Factor X”, mas o homem com quem vivia não aceitava ter uma cantora ao seu lado. A exposição que o concurso da SIC podia trazer também era um problema. Para subir ao palco, teve de sair de casa. Nesse período, a relação com o pai dos seus dois filhos chegou ao fim.
“Tive de fugir de casa para poder participar no Factor X”, conta à NiT. “Não queria uma cantora para a sua vida e eu tive de fazer o meu percurso.” A decisão levou-a a vencer a segunda edição do concurso, em 2014, e a começar uma carreira na música. Quase 12 anos depois, voltou a apresentar-se diante de um painel de jurados, desta vez em Espanha.
Aos 45 anos, Kika é uma das concorrentes de “La Voz”, a versão espanhola do “The Voice”, transmitida pela Antena 3, um dos principais canais generalista espanhóis. Nas provas cegas, que foram para o ar no dia 25 de setembro, interpretou “I Put a Spell on You” e convenceu Lola Índigo e Melendi a virarem as cadeiras. Quando chegou a altura de escolher a equipa, respondeu com o nome de um terceiro mentor: Mika. Havia um problema. O cantor britânico não tinha carregado no botão.
O engano arrancou risos no estúdio, mas Kika garante que não foi preparado. Estava a tentar perceber um formato diferente daquele que a tornou conhecida em Portugal. “Fui completamente às cegas. O ‘Factor X’ era diferente. Não sabia o que me esperava”, explica. “No momento, escolhi quem o coração queria, sem perceber as luzes que lá estavam.”
Depois de desfeito o equívoco, teve de decidir entre os dois mentores que tinham mostrado interesse na sua voz. Ficou com Lola Índigo, a cantora espanhola que atuou este ano no Rock in Rio Lisboa, a 28 de junho. “Senti uma conexão maior. Senti que ela ficou empolgada com a minha voz e isso deu-me entusiasmo e confiança para escolher a Lola”, conta à NiT.
A oportunidade de voltar a um concurso surgiu das duas partes, conta. Kika queria explorar outros caminhos e a produção espanhola também se interessou por ela. A vitória em Portugal já estava longe, mas a vontade de cantar mantinha-se.
“Não me limito a ficar sempre no mesmo sítio. Acho que tenho mais horizontes para descobrir”, diz. “O mercado começou a ficar um bocado pequeno em Portugal. Arrisquei ir para Espanha”.
Antes de haver prémios, discos ou concertos, houve uma decisão que mudou a vida em casa. Kika vivia com o pai dos filhos quando se candidatou ao “Factor X”. Segundo conta, ele não concordava que seguisse a música como profissão nem aceitava a visibilidade que estava a ganhar. “Não me aceitava como sua mulher e cantora ao mesmo tempo. A exposição que iria ter, ou que estava a ter naquele momento, não era aceitável”, recorda.
Kika avançou com a participação e a relação acabou nesse período. Não eram casados, esclarece: viviam juntos. Hoje está solteira e tem dois filhos, um rapaz de 18 anos e uma rapariga de 16, prestes a completar 17.
A música já era uma vontade antiga, embora durante muito tempo nem os pais conhecessem a dimensão desse desejo. Era tímida e não cantava diante deles. A mãe só descobriu que ia participar no concurso no próprio dia, conta. “Quando souberam, apoiaram, porque durante muito tempo não souberam.”
Nesta nova aventura em Espanha, voltou a guardar os planos até avançar. Prefere tomar a decisão antes de a partilhar com a família. “Gosto de manter um bocadinho o ‘low profile’. Assim já não me influenciam de outra maneira”, explica.
Nascida em Moçambique, filha de um português de Chaves e de uma moçambicana, chegou a Portugal com cerca de três ou quatro anos. Cresceu em Lisboa, onde estudou no liceu Padre António Vieira, em Alvalade.
Chegou a estudar design gráfico e pensou seguir psicologia, mas não entrou na faculdade. A música acabou por pesar mais na escolha. O “Factor X” deu-lhe uma possibilidade que, até então, não sabia como alcançar. A família não tinha dinheiro para financiar um disco e Kika também não.
“Com a vida que eu tinha, que os meus pais tinham, não tínhamos posses para isso. Não tinha como chegar lá”, diz. “O ‘Factor X’ foi a minha rampa de lançamento. Ganhei o prémio, lancei o meu álbum, colaborei com artistas, conheci pessoas e entrei no mercado.”
A vitória abriu portas, mas não tornou o resto do percurso fácil. Kika lançou o primeiro álbum, passou por editoras e continuou a trabalhar depois de a atenção do concurso diminuir. Pelo caminho, participou no Festival da Canção com os Viva La Diva, que levaram “Nova Glória” à edição de 2017.
“Não posso ser hipócrita e dizer que é fácil. É difícil”, admite.
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Ainda assim, garante que se manteve na música, sem recorrer a outros trabalhos. Quando lhe perguntam se alguma vez pensou desistir, a resposta é curta. “Nunca pensei em desistir. A música faz parte de mim e, para mim, só tem um caminho: continuar.”
A pandemia também não a fez abandonar os planos. Foi procurando projetos e formas de trabalhar até criar um tributo a Tina Turner, uma das suas maiores referências. Formou uma banda e encontrou nesse espetáculo uma nova maneira de chegar ao público. “É o meu ídolo em termos de força e de nunca desistir. Levei esse lema muito a sério”, conta.
A admiração vai além da voz ou das canções. Kika reconhece na história da artista uma determinação com a qual se identifica. No seu caso, o tributo também trouxe resultados: diz que voltou a despertar o interesse do mercado e contribuiu para que fosse descoberta fora de Portugal.
“O que me tem dado mais notoriedade, depois de os meus singles entrarem nas novelas, tem sido este tributo. Abriu muitas portas e fez renascer o interesse”, explica. Entre o soul, o gospel e o rock, foi construindo uma identidade que quer levar para a nova etapa em Espanha.
“Gosto de vozes e de música que rasgam o interior. Vim do gospel e misturei tudo aquilo que a minha voz tinha com um bocadinho de rebeldia, que é o rock.”
Agora divide-se entre Portugal e Espanha. A família continua por cá, enquanto vai procurando espaço num mercado que considera maior. A passagem pelo programa pode ajudá-la a encontrar quem saiba trabalhar com a voz e o estilo que quer seguir.
“Às vezes, paramos em sítios onde têm boas intenções, mas o problema é não saberem direcionar a pessoa”, diz. “Vou mostrar toda a voz que tenho para, se aparecer alguém, essa pessoa saber para onde vou.”
O próximo desafio são as batalhas. Kika quer continuar a avançar, mas sabe que nem tudo depende da prestação em palco. “Há coisas que não dependem de nós. Dou sempre o meu melhor para sair de cabeça erguida e honrar as pessoas que acreditam em mim.”
Na vida pessoal, deixa espaço para uma nova relação, desde que a música também caiba nela. “O amor da minha vida, o homem, tem de se chamar música”, brinca.








