Música

Lauryn Hill levou o Kalorama a viajar no tempo com os filhos, os Fugees e até Bob Marley

Durante 100 minutos, a cantora recuperou os grandes clássicos da carreira e dividiu o palco com Wyclef Jean, Zion e YG Marley.

Lauryn Hill precisou de poucos minutos para transformar o Kalorama numa enorme festa de hip-hop dos anos 90. A norte-americana subiu Palco MEO por volta das 00h20 deste domingo, 30 de agosto, e encontrou um recinto cheio e preparado para dançar. “Vocab” deu o primeiro empurrão, com as filas da frente aos saltos, braços no ar e Hill a comandar uma atuação que, durante a primeira metade, quase não deu descanso.

Aos 51 anos, a cantora não veio sozinha. Trouxe Wyclef Jean, companheiro dos tempos dos Fugees, e dois dos filhos, Zion David Marley e YG Marley, ambos fruto da relação com Rohan Marley, filho de Bob Marley. A reunião familiar acabou por atravessar boa parte das quase duas horas de espetáculo e transformou o concerto numa viagem entre hip-hop, soul e reggae.

“How Many Mics” manteve a força do arranque e os pedidos para colocar as mãos no ar eram quase desnecessários. O público já estava conquistado. Pouco depois, “Zealots” manteve a viagem pelo catálogo dos Fugees, antes de “The Score” voltar a juntar rap e reggae num dos primeiros grandes momentos da noite.

Até aí, poucos concertos desta edição do festival tinham colocado tanta gente a dançar ao mesmo tempo. Hill e os músicos puxavam pela plateia, mas esta parecia não precisar de grande incentivo. “Manifest” prolongou o ambiente, com saltos e braços levantados a acompanhar um som que fez regressar o hip-hop dos anos 90 ao Parque da Bela Vista.

“Os Fugees fazem 30 anos. Vimos de um tempo em que havia muito bom hip-hop”, recordou a cantora antes de desafiar o público a cantar caso reconhecesse o tema seguinte. A resposta chegou com “If I Ruled the World”, clássico de Nas com participação de Lauryn Hill, que provocou um dos primeiros grandes coros coletivos da madrugada.

A celebração continuou com “Everything Is Everything” e “Lost Ones”, dois temas do único álbum de estúdio a solo da cantora, “The Miseducation of Lauryn Hill”, lançado em 1998, e considerado um dos discos mais influentes do hip-hop e R&B. “Doo Wop (That Thing)” voltou a acelerar a festa, antes de “Ex-Factor” baixar o ritmo sem quebrar a ligação entre palco e plateia.

Quem quiser prolongar o encontro com Lauryn Hill nem sequer terá de esperar por outro concerto. A artista vai estar este domingo, 30 de agosto, no 8 Marvila, em Lisboa, para um meet and greet com os fãs. O encontro decorre entre as 18 e as 20 horas, integrado numa pop-up store dedicada à cantora. O bilhete custa 150 dólares, cerca de 129,50€, e inclui um artigo autografado e uma fotografia com Hill.

No Kalorama, porém, a história continuava a ser contada através das canções. Bastaram os primeiros sinais de “To Zion” para o público perceber o que vinha aí. O tema, escrito sobre a decisão de Lauryn Hill de prosseguir com a gravidez do primeiro filho apesar das pressões que sentiu na altura, ganhou outro significado quando a cantora apresentou o próprio Zion David Marley em palco.

Era também a entrada de uma nova geração da família Marley no espetáculo. Zion assumiu o protagonismo e levou o concerto para terrenos mais próximos do reggae. A sequência, que incluiu “Caught Up”, trouxe a primeira quebra clara da noite. Depois de uma primeira metade dominada por Hill e pelos grandes clássicos, parte da plateia ficou mais parada e a intensidade desceu.

A reação voltou a crescer com “Three Little Birds”, clássico de Bob Marley interpretado por Zion. O refrão atravessou o recinto num dos momentos mais bonitos desta parte do concerto e serviu de ponte para uma nova apresentação familiar.

“Somos uma grande família. O Zion foi o meu primeiro e agora vou apresentar o meu segundo filho”, disse Lauryn Hill antes de chamar YG Marley ao palco.

O jovem assumiu então o comando da festa e “Jammin’”, outro clássico do avô Bob Marley, voltou a pôr o Palco MEO a dançar. O reggae continuou a dominar esta secção do espetáculo, até Lauryn Hill se juntar aos filhos em “Turn Your Lights Down Low”, recebida com uma grande ovação.

A presença dos filhos ajudou a dar ao concerto uma dimensão familiar e mostrou a continuidade da herança dos Marley, mas teve também um custo no ritmo da atuação. Sempre que Lauryn Hill se afastava do centro do palco, o espetáculo perdia parte da força quase imparável com que tinha começado. Não chegou a comprometer a noite, mas tornou evidente quem todos tinham ido ali ver.

E bastou a cantora recuperar o protagonismo para a temperatura voltar a subir. “Doo Wop (That Thing)” colocou novamente milhares de vozes a cantar o famoso refrão e Hill agradeceu antes de pedir ainda mais barulho quando a atuação começava a entrar na reta final.

Foi então a vez de Wyclef Jean assumir maior destaque. O antigo companheiro dos Fugees recuperou “No Woman, No Cry”, de Bob Marley, e passou ainda por “Maria Maria”, de Santana com The Product G&B. O concerto perdeu novamente algum do ímpeto inicial durante esta passagem, embora as primeiras filas continuassem aos saltos e de braços no ar.

A mudança aconteceu quando surgiram as primeiras notas de “Hips Don’t Lie”, êxito de Shakira com Wyclef Jean. A reação foi imediata e devolveu ao recinto uma das explosões que tinham marcado o arranque.

Faltavam, porém, algumas das canções que muita gente tinha esperado durante toda a noite. “Killing Me Softly with His Song” foi uma delas. Assim que o clássico dos Fugees começou, centenas de telemóveis levantaram-se para registar o momento, enquanto o refrão era cantado em coro.

“Ready or Not” parecia preparar a despedida e provocou nova explosão, com praticamente todas as filas da frente de telemóvel ou braços no ar. Ainda havia, contudo, espaço para mais uma viagem aos Fugees. “Fu-Gee-La” colocou um ponto final numa noite construída em torno de uma história que começou há mais de três décadas.

Lauryn Hill terminou por volta das duas da manhã, depois de cerca de uma hora e 40 minutos de música. O concerto teve uma quebra quando o protagonismo passou para os filhos e para o reggae, mas recuperou a tempo de terminar como tinha começado: com os grandes clássicos, o público aos saltos e os Fugees no centro de tudo. Mais do que uma atuação a solo, foi uma celebração familiar de uma herança musical que continua a encontrar novas gerações.

Carregue na galeria para ver as melhores imagens do concerto de Lauryn Hill, Wyclef Jean, Zion e YG Marley no MEO Kalorama.

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