Música

Lil Nas X, o rapper gay que se tornou um ícone da luta contra a homofobia

Nas galas usa vestidos. Nas músicas, fala de relações amorosas e sexuais com outros homens. É um caso único na comunidade hip hop.
Lançou o seu primeiro álbum recentemente.

A indústria musical muda a cada ano que passa, com novos músicos a surgirem e a chamar a atenção de diferentes públicos. Nos últimos anos têm sido os artistas mais jovens a destacarem-se, especialmente na música pop e hip hop. Billie Eilish, Olivia Rodrigo e Lil Nas X são alguns dos exemplos que mais têm dado que falar, seja pelo sucesso das suas músicas, ou por aquilo que representam, como é o caso deste último.

Chama-se Montero Lamar Hill, tem 22 anos, mas dá-se pelo nome que todos já conhecemos. A carreira de Lil Nas X descolou em 2019 com o lançamento de “Old Town Road”, que rapidamente se tornou num sucesso internacional. Nos Estados Unidos da América, é a música que mais semanas passou no número 1 da Billboard, a principal tabela de referência da indústria musical.

Originalmente lançada no Soundcloud em 2018, o tema rapidamente chamou a atenção de vários contemporâneos da indústria, tendo sido lançados quatro remixes. Um com Billy Ray Cyrus (artista country e pai de Miley Cyrus); outro com Billy Cyrus e com o DJ Diplo; um remix com Mason Ramsey — um miúdo que se tornou viral em 2018 após cantar num supermercado —, Young Thug e Billy Ray Cyrus; e por último uma versão com RM, um membro do grupo sul-coreano BTS. A versão mais famosa é aquela que junta Lil Nas X a Billy Ray Cyrus, daí aparecerem ambos em vários destes remixes. A música rendeu dois Grammys para os artistas, um de Best Music Video e outro de Best Pop Duo/Group Performance, na edição de 2020.

Muitos pensaram que Lil Nas X era um one hit wonder, mas o artista tem vindo a solidificar cada vez mais a sua posição entre os nomes de peso da indústria. A 17 de setembro lançou o seu primeiro álbum, “Montero”, e as críticas não têm sido menos que favoráveis. Alexis Petridis, do “The Guardian”, avaliou o álbum com cinco estrelas, chamando-o de “pop-rap no seu melhor”. “O Lil Nas X faz-nos gostar ainda mais dele após ‘Montero'”, diz a “Rolling Stone” após uma avaliação de três estrelas e meia.

O início da fama e carreira de Lil Nas X foi tão caricata como atribulada.

A fama no Twitter

Poucos são aqueles que sabem que Lil Nas X já era famoso antes de lançar uma música. Na adolescência, o artista tinha uma conta no Twitter com mais de 100 mil seguidores. Nela, era assumidamente um Barb, nome dado a um fã devoto da rapper Nicki Minaj. Na conta chamada @nasmaraj publicava de tudo: memes, tweets de apoio a Nicki Minaj e partilhava também vídeos virais. Um dos maiores destaques desta conta era, no entanto, as histórias que Lil Nas X criava, onde os utilizadores do Twitter podiam fazer escolhas que impactariam o rumo da narrativa.

Quando “Old Town Road” começou a chamar a atenção do público, começou-se a desenterrar o passado de Lil Nas X. Depois de algumas breves investigações, os fãs descobriram que o artista era o dono daquela conta na altura já suspensa. Apesar de todas as provas, Lil Nas X negava todas estas afirmações: “É um grande mal-entendido e não é algo a que eu queira dar palco, porque nunca vou pôr ninguém como cara da minha carreira”, revelou numa entrevista à rádio “NPR”.

Atualmente, já se orgulha e assume a autoria desta conta. A razão para ter negado os rumores era bastante simples: “tinha medo de perder tudo antes de sequer ter uma oportunidade. As pessoas assumem que se tens uma conta inteiramente dedicada à Nicki Minaj és gay. E a indústria do rap/música não está exatamente construída para aceitar homossexuais”, diz num tweet.

A homossexualidade no mundo do hip hop

Uma das maiores lutas de Lil Nas X passa-se dentro da própria indústria. Se a sociedade muitas vezes ainda não está pronta para aceitar homens gays — e muito menos homens gays não brancos — também a indústria musical, e a do rap, segue este padrão. Assumiu-se como gay em 2019, no pico da sua fama.

A data escolhida foi também simbólica para a situação, visto que Lil Nas X revelou a sua sexualidade no último dia do mês de orgulho gay, ou seja, 30 de junho. “Alguns de vocês já sabem, alguns de vocês não querem saber, alguns de vocês já não vão querer ter nada a ver comigo. Mas antes que o mês acabe, quero que ouçam atentamente a ‘c7osure'”, anunciou num tweet. Esta música está presente no seu EP “7” e as letras, embora discretas, têm um significado diferente se as virmos com outros olhos. Logo no início, Lil Nas X canta “verdade seja dita, eu quero e preciso de usar o meu tempo para ser livre”. “É isto que tenho de fazer, não me posso arrepender quando for velho” é outro dos versos que também mostram a vontade do artista de parar de viver uma mentira.

Desde que se assumiu que Lil Nas X mostra estar mais confiante com quem é. Nas passadeiras vermelhas dos vários eventos musicais não foge de um visual bem arrojado e muitas vezes bastante fluido em termos de género. Nos MTV Video Music Awards, por exemplo, apostou num vestido espalhafatoso púrpura.

Claro que estas apostas no vestuário e na liberdade sexual vêm muitas vezes acompanhadas de críticas, tanto do público, como dos seus colegas da indústria. Um dos artistas que mais mostra o seu desagrado para com Lil Nas X é o rapper Boosie Badazz.

Em julho de 2021, Lil Nas brincou com a sua atuação nos VMA, afirmando que iria atuar sem roupa. Enfurecido com esta piada, Boosie Badazz começou um direto no Instagram onde disse que se estivesse na cerimónia e visse o cantor de “Old Town Road” a atuar daquela maneira, que o arrastaria para fora do palco e o espancaria.

Quando questionado sobre estas declarações, Boosie defendeu-as, afirmando que os heterossexuais é que são verdadeiramente perseguidos e que parece um crime não ser da comunidade LGBTQIA+ nos dias de hoje.

Lil Nas X sabe das opiniões negativas que muitos dos seus colegas rappers têm, mas prefere não dizer nada quanto às mesmas. “A verdade é que não quero falar da homofobia que existe dentro do rap porque eu acho que isso é muito perigoso. É mais para a minha segurança do que outra coisa”, revela numa entrevista à “Variety”.

A carta para um Lil Nas X mais novo

Quase dois anos após se ter assumido publicamente, Lil Nas X escreveu uma carta para o seu “eu” de 14 anos, que foi recebida com aplausos dos fãs e não só.

“Querido Montero de 14 anos. Escrevi uma canção com o nosso nome. É sobre um rapaz que conheci no verão passado. Eu sei que prometemos que nunca nos iríamos assumir publicamente, eu sei que prometemos nunca ser ‘esse’ tipo de pessoa gay, eu sei que prometemos morrer com este segredo, mas isto vai abrir imensas portas para outras pessoas queer simplesmente existirem. Sabes, isto é muito assustador para mim, pessoas vão ficar zangadas, vão dizer que estou a empurrar uma agenda. A verdade é que estou. A agenda de que as pessoas não se metam na vida das outras e que parem de ditar quem deveriam ser.”

Em conversa com a “Times”, Lil Nas X revela que assumir-se como gay era outrora algo impensável para ele, e isso reflete-se na carta. Segundo o que conta, foi criado sob o pensamento que ser gay não era algo bom.

A luta contra a homofobia

Embora Lil Nas X não seja vocal quanto à homofobia existente dentro da comunidade do rap, o artista não se abstém de passar uma mensagem através da sua arte e atuações. Já vimos que nas passadeiras vermelhas aposta sempre em visuais mais arrojados e chocantes. Também em palco gosta de causar uma forte impressão, seja ela positiva ou negativa. Nos BET Awards (uma gala musical com artistas de cor), Lil Nas X fez uma interpretação do single “Montero (Call Me By Your Name)”, que terminou com um beijo na boca de um dos seus dançarinos.

Nas letras das suas músicas faz também muitas referências a relações sexuais com outros homens. No single que apresentou nos BET, por exemplo, há um excerto da letra onde Lil Nas X diz: “disparo um filho na tua boca enquanto te monto”.

Músicas explícitas sobre um amor gay é algo que se vê pouco na indústria musical, e no campo do hip hop muito menos. As letras de Lil Nas X não são apenas sobre sexo, mas também sobre uma ligação emocional. Em “Void”, do seu novo álbum, podemos ouvir o artista a cantar “Oh, eu choro durante toda a noite, não consigo encontrar um amor que me ame da mesma maneira que tu”. Já em “That’s What I Want” diz “preciso de um rapaz para se aninhar comigo a noite toda, que me mantenha quente, me ame muito e que seja a minha luz do sol”.

Outras letras tocam ainda em temas muito familiares não só a pessoas gay, mas à comunidade LGBTQIA+ no geral. “Eu quero fugir, não quero mentir, não quero uma vida” e “estes pensamentos gays assombravam-me sempre, rezei a Deus que os tirasse de mim”, são excertos que constam em “Sun Goes Down”, uma das músicas mais sentimentais do artista. 

Uma parte da indústria não o aceita, mas outra já o recebeu de braços abertos graças à forma como vive, sem medos e genuinamente. Em conversa com a “Entertainment Tonight”, Elton John revela que Lil Nas X é um dos seus “heróis”. “O que faz do Lil Nas X tão extraordinário é o facto de ser tão aparentemente gay dentro do mundo da música urbana”, disse Elton John, desta vez ao “The New York Times”.

O processo contra a Nike

Embora não fosse ele o alvo de um processo da Nike, foi uma das suas criações a visada pela gigante marca de roupa. Em março de 2021, Lil Nas X lançou o videoclip de “Montero (Call Me By Your Name)”, onde o podemos ver a fazer uma lapdance a uma figura representativa de Satanás. As críticas foram imensas, mas isso não pareceu afetar o artista, que alguns dias depois lançou uma edição limitada de 666 sapatilhas da Nike com um espírito bem satânico, não fossem elas decoradas com um pentagrama, uma cruz virada ao contrário e uma gota de sangue misturada com tinta vermelha.

Os ténis originais eram os Nike Air Max 97 e o design das sapatilhas de Lil Nas X foram criadas em parceria com a MSCHF, um coletivo de artistas de Nova Iorque. Cada par custava 1.018 dólares (867,54 euros) e esgotaram-se em menos de um minuto.

A MSCHF disse logo que as sapatilhas não tinham sido feitas em colaboração com a Nike, mas isso não impediu a marca de os processar. Segundo eles, o lançamento daquelas sapatilhas estava a afetar a imagem da marca, visto que muitas pessoas começaram a dizer que iriam boicotar a Nike caso algo não fosse feito.

Ambos os lados chegaram a um acordo, onde a MSCHF concordou não vender mais daqueles sapatos, bem como retirá-los do mercado, devolvendo o dinheiro a todos aqueles que compraram os “ténis satânicos”.

No seu canal de YouTube, Lil Nas X reagiu à polémica com um vídeo onde inicialmente parecia que ia pedir desculpa, mas que depois corta para imagens do artista ao pé de Satanás.

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