Música

Lizzo transformou o Alive numa celebração de amor — e foi espetacular

A atuar ao início da noite, a cantora certificou-se de que não ia passar despercebida por ninguém na sua estreia em Portugal.

Mulher, negra e com um corpo tradicionalmente considerado fora dos padrões de beleza. Lizzo fez daquilo que outros consideram fraquezas forças para se tornar numa estrela. No segundo dia do NOS Alive, demonstrou no palco principal porque é que é uma das maiores cantoras pop da atualidade.

Lizzo canta, dança, cospe raps, toca flauta transversal e, se for preciso, lava pratos em palco. Não somos nós que o dizemos: foi Missy Elliott, o ícone do hip-hop que lhe dedicou uma mensagem ecoada no Passeio Marítimo de Algés. Esta não era para ser a sua estreia em Portugal; tinha sido confirmada no Primavera Sound do Porto de 2019, mas cancelou. Citando um futebolista com toques de filósofo, “saudades do que a gente não viveu”.

Regressando ao presente, um dos desafios de analisar criticamente um concerto ao vivo (ou um artista, em geral) é ser capaz de se colocar no papel do outro. Sendo alguém que a única coisa que tem em comum com Lizzo é o excesso de peso, é difícil conceber a magnitude que é uma mulher com as suas características singrar num meio como o da pop. Não se querendo tokenizar a artista, é preciso reconhecer que a sua ascensão é um triunfo. É um sinal dos tempos, sim, mas acima de tudo é talento puro e duro.

A cantora/rapper ama-se quer gostem ou não — e quer que os outros tenham essa mesma relação com o seu íntimo. A toada foi estabelecida de imediato ainda Lizzo não tinha entrado em palco. “Estas são canções sobre amor: amor próprio, amor familiar, amor fraternal e amor sexual”, leu-se em palco. Ao longo da noite, abraçou-se à bandeira trans, saudou a comunidade LGBTQIA+, instou os presentes a autoelogiarem-se, afirmou-se como objeto de desenho e reforçou que o seu corpo não é assunto de ninguém. O seu projeto não é ideológico, exceto se se considerarem a aceitação e tolerância matrizes ideológicas. “É duro, eu sei, também tem sido para mim, mas eu ainda estou aqui”, afirmou antes de “Special”.

O que a artista trouxe a Oeiras foi um concerto à moda antiga com sensibilidades modernas: banda inteiramente feminina a acompanhar, trio de coros e uma trupe de dançarinas plus-size. A interseção do rap com funk e pop da sua música significou um acompanhamento instrumental rico e com laivos de virtuosismo, especialmente as guitarradas a lembrar Funkadelic.

“Cuz I Love You” abriu de rompante com Lizzo a puxar logo pelo vozeirão e a música não parou, com “Juice” a sacar as primeiras reações mais entusiasmadas. Ao longo da noite, a cantora demonstrou ser uma mestre de cerimónias exemplar e não teve vergonha afirmar logo no começo que Lisboa ia deixar de ser “Lisbon” para tornar-se “Lizzobon”.

Se com “Grrrls” fez do tema clássico dos Beastie Boys para apelar à sororidade, “Boys”, um dos seus primeiros grandes êxitos, celebrou os homens de todos os tipos e orientações sexuais. “Tempo” puxou pelo seu lado mais lascivo e fez tremer a terra com o acompanhamento musical, ao passo que “Rumors” não resultou tão bem, especialmente com a parte de Cardi B, convidada do tema, a ser transmitida nos ecrãs.

Foi dos poucos tropeções num concerto praticamente imaculado. Um dos grandes trunfos de Lizzo é a sua formação clássica como flautista, porque retira o contexto erudito ao instrumento e devolve-lhe o cariz brincalhão presente no funk clássico norte-americano. “Jerome” foi o primeiro momento onde a flauta transversal se fez ouvir, mas pela boca de outras intérpretes em palco. Quando foi a vez da artista, espalhou a sua magia, um sopro atrás do outro, em “Coldplay”, música criada devido ao seu amor indefectível pela banda britânica. Aliás, a cantora iniciou esse tema com “Yellow”.

“Truth Hurts”, um dos seus maiores hits, fez o público irromper, particularmente depois de pegar na flauta a meio da atuação e abanar-se em twerk enquanto tocava. Na reta final do concerto, Lizzo aproveitou para ir conversando com as filas da frente e ler os cartazes a si dedicados. Cantou os parabéns a uma aniversariante, assim como um pouco de “The Sign” a pedido de uma mensagem, e tirou uma selfie com o telefone de outra pessoa na dianteira da plateia. A única coisa que pediu é que não lho atirassem. “Não fazem isso em Portugal, pois não? Isso é uma merda dos Estados Unidos”, afirmou.

“Good as Hell”, música tão orelhuda como inescapável por ter acompanhado um anúncio de champô, abriu caminho para “About Damn Time” fechar em apoteose. “It’s bad bitch ‘o clock”, avisou, antes de se atirar para essa pérola infeciosa de disco. Quando tudo terminou, saiu pela mesma abertura do palco por onde entrou. Decerto orgulhosa, porque fez mesmo do Alive a sua “Lizzobon”.

Leia a crónica do concerto dos The Black Keys e da atuação dos Red Hot Chili Peppers no dia 6 de julho no NOS Alive. E carregue na galeria para ver mais imagens do concerto de Lizzo.

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