Música

Luísa Sobral: “O meu objetivo era mostrar o meu lado mais feliz neste disco”

A NiT entrevistou a artista portuguesa, que acaba de lançar “DanSando”, o seu álbum mais alegre e solar de sempre.
Foto de Ana Paganini

O novo disco de Luísa Sobral, “DanSando”, é editado esta sexta-feira, 21 de outubro. O seu sexto álbum de originais foi produzido pelo brasileiro Tó Brandileone e foi apresentado desde sempre como um trabalho mais pop — mas sobretudo mais solar e alegre em comparação com os projetos anteriores da cantautora portuguesa.

Esta sexta-feira, também serão colocados à venda os bilhetes para os concertos oficiais de apresentação. Luísa Sobral leva “DanSando” à Casa da Música, no Porto, a 18 de fevereiro. No dia 25 do mesmo mês, atua no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa. 

A NiT falou com a artista portuguesa sobre como foi construir o álbum mais feliz do seu percurso. Leia a entrevista.

“DanSando” tem sido descrito como um álbum mais pop, solar, feliz. Como é que este disco se tornou assim? Foi algo intencional, pensado? Ou foi algo muito natural tendo em conta as vivências da Luísa nos últimos tempos?
Para mim é muito natural escrever canções melancólicas e tristes — isso talvez seja até o mais natural para mim. Sendo eu uma pessoa super feliz, o meu objetivo com a composição deste disco também era mostrar esse meu lado mais feliz e solar nas minhas condições. Então foi natural porque me é natural a parte solar, mas não tanto na abordagem musical. Acho que foi o que aconteceu. Tive de traduzir na música aquilo que também sinto que sou.

Suponho que tenha sido um desafio, tendo em conta que naturalmente se sente mais próxima da melancolia na composição.
Sim, mas experimentei técnicas diferentes. Por exemplo, no podcast que tenho de escrita de canções, às tantas entrevistei a Joana Espadinha e ela disse-me que usava muitas vezes a bateria do Logic — um programa de gravação — e usava esses loops para se inspirar a escrever noutros tipos de ritmo que não aqueles a que ela está habituada a escrever. Experimentei isso, uma das canções mais felizes foi escrita assim. Por isso usei alguns pontos de partida diferentes. Isso foi logo mais interessante porque foi mais desafiante para mim.

O facto de ser um disco mais feliz e solar, numa altura particularmente difícil do mundo — na ressaca de uma pandemia, durante uma altura de guerra e neste período mais difícil até em termos económicos — também foi intencional? Ou acabou por também fazer sentido equilibrar esta realidade com alguma alegria?
Sim, e não deixo de falar sobre esses assuntos. Tenho uma canção que fala sobre a guerra, algumas foram feitas durante o confinamento e falam da necessidade de se falar de “amor em tempos de guerra”. Mas sim, sinto que muitas vezes quando estamos a viver períodos negros na história, também nos faz ser mais agradecidos daquilo que temos. Termos noção do quão sortudos somos. Pelo menos isso aconteceu-me. É um período de reflexão e de ter noção dessa sorte que tenho. Acaba por ter os dois lados: é dizer “isto está a acontecer”, mas realmente dar graças — não sei bem se é a Deus, porque não sei se acredito [risos] — ao universo por me ter dado tantas coisas tão boas.

Até aqui tinha tendência para fazer canções mais melancólicas. Porquê?
Porque eu, ao contrário do que muita gente acha… Ainda há uns dias fiz um concerto com a Bárbara Tinoco e ela dizia: “A Luísa é muito mais divertida do que eu pensava”. Percebi claramente que ela achava que eu era uma chata [risos]. E ao contrário do que algumas pessoas pensam, no meu dia a dia, nos grupos de amigas, sempre fui um bocado a palhaça do grupo. Então na música era o contrário, mostrar o meu outro lado: o meu lado mais sensível, introspetivo, nalgumas vezes o meu lado mais triste também. A música acabava por ser isso, a minha maneira de explorar o meu outro lado. Eu não era muito de falar dos meus sentimentos e na música fazia-o. O que fazia sentido para quem me conhecia, mas claramente quem não me conhece achava então que eu era só aquilo. Não “só” no sentido depreciativo, porque gosto muito daquilo que fiz. Mas que não tinha esse outro lado mais engraçado, acho eu [risos].

E porque é que procurou o Tó Brandileone para produzir este disco? Obviamente também associamos a música brasileira no geral a uma estética mais solar. Não sei se teve a ver com isso.
Também. Para cada disco procuro um produtor que acho que tenha mesmo a ver com a sonoridade que procuro. Para o meu disco anterior, foi exatamente o oposto. Queria uma coisa super minimalista, muito melancólica, e aí procurei o Raül Refree. Porque as cantoras com quem ele trabalhou — a Rosalía, no início, e a Silvia Pérez Cruz — os discos delas tinham isso, essa crueza. Eram muito despidos e eu queria isso. Agora queria exatamente o oposto. Queria um som muito São Paulo, que andava a ouvir no Tim Bernardes, e que sinto que é um som muito fresco, intemporal. Não sinto que seja um som necessariamente Rio de Janeiro que associamos logo à bossa nova e ao Brasil. Acho que é um som muito mais internacional — também porque as inspirações do Tim Bernardes passam pelos Fleet Foxes e essas bandas americanas. Era isso que procurava. Já conheço o Tó há alguns anos, cruzámo-nos pela primeira vez para aí há uns 10, e escrevi uma letra para um disco dele. Participei num concerto dele, ele participou num concerto meu em São Paulo, então temos andado assim a fazer trocas e já tinha muita vontade de trabalhar com ele. Mas era um bocado cética em relação a esta coisa de trabalhar à distância. Para mim, normalmente o trabalho de música tem de ser algo muito físico, de estar com a pessoa. Para mim fazia-me muita confusão essa ideia. Era suposto ir lá trabalhar com ele no disco, mas como entretanto estava grávida e a Covid no Brasil não estava a ser tratada da forma como acho que devia, achei um bocado arriscado ir lá e experimentámos fazer isto à distância. Correu mesmo muito bem. Percebi que era muito fácil trabalhar com o Tó e musicalmente estamos sempre em sintonia. Quando não estávamos, os ajustes eram super rápidos. Depois, ele veio cá uma semana para fazermos vozes… Mas acima de tudo foi uma desculpa para fazermos uma parte do disco juntos.

E correspondeu às expetativas de ter o som de São Paulo?
Superou! Porque quando lhe propus gravar o disco, nem sequer tinha nenhuma canção. Depois é que comecei a escrever e a enviar-lhe. E disse-lhe: queria mesmo um disco mais solar, com este som e tal. Mas também precisava de escrever canções que dessem para fazer isso. Eu não podia transformar tudo o que tinha, super deprimente, em coisas solares. Não dá para fazer magia.

A Luísa vai sempre atuando aqui e ali, mas suponho que os concertos agora depois do lançamento se intensifiquem e se foquem mais nas novas canções. Acredita que, pelo facto de os temas serem mais alegres e solares, também irão mudar a experiência para a Luísa nos concertos?
Completamente. Estou farta de estar sentada, estava sempre sentada nos concertos. Este meu último disco foi o que toquei mais tempo e senti isso, já estava farta [risos]. Parecendo que não, muda imenso. Porque uma pessoa está um bocado condicionada quando está sentada. Atenção que fui eu que me condicionei, ninguém me obrigou a sentar, mas demos o concerto de apresentação e nos ensaios em pé já me fizeram sentir essa liberdade de dançar, de me mexer, de andar de um lado para outro, de não ser uma coisa assim estática. Fazia sentido com a outra música, claro, mas tenho muita vontade de dançar em palco. Sou péssima a dançar, mas sinto essa vontade. E agora com este disco já o vou poder fazer muito mais. Acho que isso também acaba por trazer outra coisa para o público. Vejo isso nas poucas canções alegres que tenho nos meus concertos. Então também tenho vontade de levar este disco… Atenção, não é que o disco seja todo assim, tenho canções bastante deprimentes na mesma [risos]. Mas há um equilíbrio um bocadinho melhor.

Desde que lançou o primeiro disco há 11 anos, tem construído uma carreira sólida em Portugal, no estrangeiro, como intérprete, como compositora, para si e para outros músicos. Há alguma coisa específica que ainda não tenha concretizado mas tenha na lista? Ou não costuma estabelecer objetivos tão concretos?
Já fui essa pessoa de ter imensos objetivos assim. Mas a verdade é que desde que fui mãe os meus objetivos mudaram um bocado. São um bocadinho mais gerais. Gostava de continuar a viajar e a tocar. Não é “quero fazer o Carnegie Hall”. Não é que me tenha conformado, é só porque também quero passar tempo em casa e encontro a minha alegria noutros sítios. Então, o que gostava de fazer era continuar a tocar. Um dos objetivos que tinha mesmo era ir ao Japão tocar e isso já aconteceu. Tenho um fascínio enorme pelo Japão, estive a aprender japonês e era assim meio uma fixação. Não por causa do anime, mas pelo país em si mesmo. Fomos lá tocar mesmo antes da pandemia, também fomos à Austrália, que queria muito. Fizemos uma tournée há uns 9 anos no continente africano que adorei e adorava repeti-la. A América Latina, tocar assim nalguns países… Se calhar explorar um bocado mais o Brasil, como compositora também. Tenho alinhavado com o meu irmão [Salvador Sobral] irmos os dois, mais a minha cunhada e o meu marido, umas duas semanas para o Brasil. Conhecermos pessoas, tocarmos, fazermos aqueles saraus… E assim começar a criar uma ligação para também escrever mais para artistas brasileiros. Tenho muito isso de escrever para outras pessoas. E tenho um objetivo de escrever um romance. Pronto, tenho esses objetivos, que não são assim tão megalómanos como ganhar um Grammy ou algo assim, mas que se tornaram muito mais importantes para mim. Uma pessoa vai mudando de objetivos na vida.

Mencionou o romance. Tem uma ideia específica que gostava de concretizar? Ou é mais a ideia em si de fazer um romance que gostava de explorar?
Não, já comecei, já escrevi uns capítulos. Mas eu que não sou insegura na música, claro que depois na escrita de prosa não me sinto… Sinto que tenho a provar alguma coisa, então sou muito exigente comigo própria. Acho que isso é sempre bom, mas escrevi uns capítulos, ainda não sei se vou continuar com esta história. Tornou-se um romance meio histórico e passo os dias a fazer pesquisa [risos], não era bem o que queria, mas às vezes os livros têm isto de nos levar para sítios e nós devemos deixar-nos levar também. Então estou assim neste limbo. Mas gostava mesmo de escrever um romance.

E na escrita de canções, sendo um formato muito mais curto, também existe esse lado de se deixar ir? Ou é algo mais pensado à partida?
Não, na canção não, porque é um sítio onde me sinto muito confortável. Escrevo canções desde os 12 anos, então sinto-me mesmo confortável a escrever. Não é interessante? OK, próxima. E quando acaba penso: gosto muito desta canção. Isso é suficiente. No romance já não, preciso mesmo que os outros digam que gostam [risos]. Em termos de futuro, também quero continuar a escrever para outras pessoas, isso é algo que me preenche imenso. Quero fazer mais e escrever para pessoas para as quais ainda não escrevi e de que gosto muito. 

Costuma acontecer escrever letras que porventura poderiam ser canções da Luísa, mas que depois a meio se apercebe de que faria mais sentido serem para outra pessoa com quem está a trabalhar?
Normalmente não, porque quando escrevo para mim é mesmo para mim. E se não as gravar, não é para mais ninguém. Quando escrevo para outra pessoa, escrevo mesmo a pensar nessa outra pessoa. Depois acontece, se a pessoa não aceita a canção, poder haver outra pessoa que eventualmente encaixe também naquela canção — mas não é que dê para toda a gente, não é? Não é aquele one size fits all. Normalmente é feito à medida, mas há pessoas que têm medidas parecidas [risos].

Qual foi a pessoa para a qual foi mais desafiante escrever uma letra? No bom sentido, de ser um artista complexo ou com um registo muito próprio.
Uma das que para mim foi mais desafiante só por eu ter tanto respeito pelo letrista foi o Carlos Tê. Ele enviou-me há pouco tempo — nem sei se esse projeto vai seguir em frente — uma letra para eu musicar para um projeto em que ele estava a trabalhar. Isso foi desafiante, fiquei nervosa porque nunca me tinha enviado nada, e porque sei que ele é muito criterioso nas pessoas a quem envia as coisas. Não queria que ele ficasse desiludido, porque ele é uma das razões pelas quais sou cantautora. Queria mesmo que ele gostasse, foi desafiante. Também houve outra pessoa para a qual foi desafiante. Quando comecei a escrever até saiu bastante rápida a canção, mas mais na carga de responsabilidade que aquilo tinha para mim, que foi a Mayra Andrade. Sou muito fã dela há muito tempo e poder escrever para ela é um privilégio enorme. Quando ela me pediu uma canção, fiquei do género: agora espero estar à altura. Está no último disco dela e isso foi uma alegria muito grande. 

Portanto, obviamente vê-se a continuar a fazer os seus discos e digressões, e ao mesmo tempo continuar a escrever para outras pessoas, fazer este caminho paralelo.
Sim, gosto de escrever no geral. Gosto de escrever textos, poesia, canções… tudo o que tenha a ver com a palavra faz-me feliz. Por isso, tudo o que tenha a ver com isso, continuarei a fazer. 

Agora que “DanSando” foi lançado, vê-se a voltar à melancolia nos próximos trabalhos? Ou gostava de se manter mais neste registo? O que é que perspetiva daqui em diante?
Não faço ideia. Se me tivessem feito essa pergunta no outro disco, se me via a fazer um disco super feliz daí a quatro anos, não iria conseguir imaginar-me como estou agora. Nunca sei muito bem aquilo que vou ser daqui a um tempo. Vi uma entrevista e gostei muito, em que perguntaram a um senhor mais velho, “como é estar casado com a mesma mulher há 60 anos?”. Ao que ele responde: “Eu não estou casado com a mesma mulher, ela tem sido sempre mulheres diferentes”. Adorei essa resposta e isso ficou mesmo em mim. Fiquei a pensar nisso. É verdade, somos pessoas diferentes ao longo da vida, e isso é muito mais interessante. Tenho feito sempre discos muito diferentes, e fico contente que assim seja, porque quer dizer que não estagnei, que não fiquei só num sítio confortável. Não sei o que vou ser daqui a quatro anos, mas espero que seja diferente disto. Não que não goste disto, mas porque acho que a evolução e a metamorfose é que são interessantes. Espero continuar feliz, mas se a música continua feliz, isso já é outra coisa [risos].

E é a questão de cada disco refletir a vida do seu autor em cada fase.
Sim, e reflete muito aquilo que ouvimos na altura, aquilo que andamos a ler, o que vemos. Tem muito a ver com isso. Por isso, se continuar a cultivar-me dessa forma, isso vai refletir-se na música que faço. Por isso é que normalmente não repito os produtores, porque acabo por me sentir noutra fase. Mas pode ser que daqui a dois anos sinta que quero trabalhar com o Tó outra vez, porque a verdade é que foi uma experiência tão boa e que ele próprio enquanto produtor me saiba acompanhar nessa mudança. Porque não? Ele próprio também muda, o produtor não fica no mesmo lugar sempre. Agora, nunca fui a videntes nem ler tarot, porque não gosto nada de saber o futuro [risos]. Acho que o futuro não tem graça nenhuma se já o soubermos. Lembro-me de que quando fiz uma viagem à Índia, estavam sempre a pegar na minha mão e a dizer “você vai morrer cedo”. E eu a pensar: “mas porque é que quero saber isto?!” [risos]. Agora, todos os anos penso: “Bem, já não é assim tão cedo” [risos], já ganhei mais um aninho.

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