As luzes apagaram-se, os graves começaram a fazer tremer o Parque Tejo e milhares de pessoas levantaram os telemóveis à espera do grande encerramento do “Dia do Hip Hop” do Rock in Rio Lisboa. Mas o concerto de 21 Savage nunca chegou verdadeiramente a arrancar. O rapper britânico entrou em palco este domingo, 28 de junho, perante enorme expetativa, mas acabou por protagonizar uma atuação incompetente para o estatuto de cabeça de cartaz.
“Stepbrothers” abriu o alinhamento, seguida de “Topia Twins”, mas desde os primeiros minutos ficou evidente que faltava intensidade. 21 Savage manteve-se quase sempre parado, com pouca expressão e praticamente sem comunicar com o público. A plateia também parecia desligada, limitando-se a acompanhar algumas batidas sem grande entusiasmo.
Aos 33 anos, o artista chega a Lisboa como um dos maiores nomes do rap mundial. Nascido em Londres e criado em Atlanta desde os sete anos, tornou-se uma das figuras centrais do trap norte-americano graças a sucessos como “Bank Account”, “Runnin”, “Rockstar” e “A Lot”. Depois de cancelar a estreia em Portugal no Super Bock Super Rock em 2024 por motivos de saúde, finalmente subiu a um palco português, mas a estreia ficou longe do impacto esperado.
“Red Opps” e “X” passaram praticamente sem alterar o ambiente. As batidas eram pesadas, mas faltava-lhes a energia que transforma um concerto de rap numa celebração coletiva. O próprio rapper parecia pouco envolvido com aquilo que acontecia à sua frente.
“Bank Account” trouxe finalmente uma reação mais forte da assistência, sobretudo pelo reconhecimento imediato do refrão. Ainda assim, foi um momento isolado. 21 Savage continuava sem procurar uma verdadeira ligação com o público, falando muito pouco entre músicas e mantendo quase sempre a mesma postura em palco.
“Runnin”, “Glock In My Lap”, “10 Freaky Girls”, “Ball w/o You” e “Rich Nigga Shit” seguiram o mesmo caminho. O espetáculo parecia avançar em piloto automático, sem grandes picos emocionais. Ficou a sensação de que nem o artista nem a plateia conseguiam encontrar o mesmo ritmo.
Parte dessa dificuldade poderá explicar-se também pelo próprio contexto. O último dia do Rock in Rio foi dedicado ao hip hop, mas o público do festival continua a ser bastante mais abrangente do que o de um festival exclusivamente urbano. Muitas das letras, ligadas à realidade norte-americana e interpretadas em inglês, pareciam não gerar a resposta habitual, enquanto a ausência de interação do rapper apenas aumentava essa distância.
O primeiro verdadeiro momento de comunhão surgiu apenas com “Rockstar”, a colaboração com Post Malone. Foi a única música em que milhares de pessoas acompanharam claramente o refrão, criando finalmente o ambiente que muitos esperavam desde o início da atuação.
Pouco depois, “Creepin'” voltou a aproximar artista e público. O Parque Tejo cantou grande parte da canção e, no final, 21 Savage limitou-se a comentar: “Está frio, mas eu amo Portugal”, uma das poucas frases dirigidas aos fãs durante todo o concerto.
“A Lot”, distinguida com um Grammy e um dos maiores êxitos da carreira, acabou por ser outro dos poucos momentos conseguidos da noite. Seguiram-se “Rich Flex”, “Knife Talk”, originalmente gravada com Drake, e “Redrum”, que encerrou o espetáculo sem conseguir inverter a sensação geral.
Depois de um concerto frustrante de Central Cee, esperava-se que 21 Savage desse ao “Dia do Hip Hop” o final explosivo que ainda faltava. Mas isso nunca aconteceu. A estreia em Portugal acabou marcada por uma atuação competente do ponto de vista musical, mas demasiado distante e sem a intensidade necessária para transformar o Palco Mundo numa verdadeira festa.
O Rock in Rio apostou este ano, pela primeira vez, numa programação inteiramente dedicada ao rap e ao hip hop. No papel parecia uma das noites mais promissoras da edição de 2026. Em palco, porém, ficou a sensação de que faltou fogo. E, no caso de 21 Savage, nem o estatuto de uma das maiores estrelas mundiais do género foi suficiente para mudar esse desfecho.








