Música

Mallu Magalhães: “Passei a fazer música mais positiva. Os álbuns são um espelho meu”

A cantora brasileira residente em Lisboa falou com a NiT sobre o álbum “Esperança”. Será apresentado em Lisboa em dezembro.
O disco saiu em junho.

“Felicidades”, assim se chamava o álbum que Mallu Magalhães deu por terminado em janeiro de 2020. Ia ser lançado em breve. Até que a pandemia da Covid-19 surpreendeu o mundo. No espaço de dias ou semanas, milhões de pessoas ficaram confinadas em casa. E a cantora brasileira residente em Portugal ficou sem vontade de lançar o disco.

Afinal, era uma ode aos momentos de paz e felicidade, o que contrastava em absoluto com o que todos estavam a viver. O trabalho havia sido produzido por Mário Caldato Jr., nome que tinha colaborado com os Beastie Boys ou Jack Johnson, e também não fazia sentido algum mexer na música depois de feita.

Aos poucos, Mallu Magalhães pensou numa reconfiguração do conceito do disco. Mudou a capa, o alinhamento e até o título — passou a chamar-se “Esperança”, depois do período mais difícil da pandemia. Foi editado em junho deste ano e nos últimos meses começou a ser apresentado ao vivo.

A próxima data marcada na agenda é 3 de dezembro, no Campo Pequeno, em Lisboa (há bilhetes disponíveis entre 20€ e 35€).

Em entrevista à NiT,  Mallu Magalhães falou sobre este disco, a vida em Lisboa e a sua visão da sua música. 

Lançou o álbum “Esperança” este ano. Quando e como começou a pensar no disco? Foi influenciado pela pandemia?
Fui fazendo aos poucos. Algumas músicas até comecei a compor na tour da Banda do Mar. Outras enquanto viajava por outros motivos. Fui guardando. Quando resolvi fazer um disco novo, penso que em 2018 ou no início de 2019, terminei outras músicas. Conforme vou juntando canções, vejo que falta uma mais alegre ou uma mais emotiva e vou construindo por aí. Foi um processo longo, para mim, compor é a parte mais demorada [risos]. Lapidar as canções aos bocadinhos é um caminho longo: escolher as palavras, melhorar uma parte ou outra. Acho que este processo demorou para aí uns dois anos. Comecei a fazer umas experiências em casa, antes da pandemia, quando a minha filha Luísa era bebé. Não dava para fazer barulho, então experimentava fazer coisas no computador… Quando já tinha uma noção geral de como seria o disco, pensei no Caldato para produzir. Ele veio para Lisboa e acabámos de construir o disco. Terminámos em janeiro de 2020, bem no início da pandemia — e tudo mudou. Resignificar o disco foi um processo à parte. Nos primeiros meses, não deu para pensar muito ou fazer planos, algo que aconteceu com todos. Era um dia de cada vez. Passados alguns meses, comecei a refletir: será que lanço daqui a seis meses? Um ano? O disco chamava-se “Felicidades”, tinha uma capa dourada, era um brinde aos momentos felizes da vida. Isso ficou completamente descontextualizado. Já nem fazia sentido para mim, essa mensagem. Passado um ano e alguns meses, pensei: tenho que lançar este álbum. Tem músicas muito bonitas e também já havia a vacinação… 

Não fazia sentido alterar o álbum em si, é isso?
Exato. Quando fazemos um álbum, por mais que gravemos em lugares diferentes, quando misturamos, é muito difícil voltar a mexer. Porque as músicas vão soar muito diferentes. Então não dava muito para mexer a partir dali. Foi aí que me ocorreu alterar o nome, o conceito e até retirar uma canção. Quer dizer, tirei mais ou menos. Porque foi para o LP e toco-a ao vivo — chama-se “Montanhas”. Como era uma música um pouco mais triste, pensei que não dava. Com o que as pessoas estavam a viver, pensava em mim como público: estou num momento sensível e delicado, não sei até que ponto é bom receber um álbum com uma carga dramática [risos]. Procurei ter um disco com  esperança. E foi aí que também me ocorreu o nome. Que estranhamente é o mesmo conceito [de felicidade] — é como se fossem irmãos. Alterei a capa, o nome, o repertório e aí fez sentido.

A”Esperança” era a reação à tristeza que todos vivemos.
É exatamente isso. Vivemos uma coisa muito grave e sentimos esperança para o próximo passo.

Diria que as suas vivências aqui em Lisboa também influenciaram este disco?
Sim, concerteza, porque é o meu dia a dia. Onde moro tenho um dia a dia de lazer, diferente daquilo que faço nas outras cidades. Levar a Luísa à escola, fazer as compras, andar por aí, trabalhar, estar no estúdio… e depois o lazer de sair à noite, ouvir música, dançar, jantar fora, passear. Todo este consumo da cidade influencia muito. As coisas que escuto, a musicalidade, os artistas, esse consumo da cultura influencia bastante. A cultura de Lisboa é muito cosmopolita e, ao mesmo tempo, muito própria. É interessante, humana e gosto muito dessa proximidade e do calor que sinto nas pessoas e na produção cultural. 

Foram esses momentos que descreveu que a levaram a criar um álbum feliz?
Exato. Este lugar de paz, de tranquilidade, de desfrutar. O álbum é um retrato dessa conquista e modo de viver. Para mim, tirei isso de lição. Porque quando a gente faz um álbum… é como quando uma pessoa escreve um texto sobre si ou quando conversa com um amigo sobre si. Aí que a gente vê quem a gente é [risos]. Os meus álbuns acabam por ser um espelho do que tenho. Só que depois repito aquilo por muitos anos — nos concertos e para mim mesma. Então comecei a ter uma abordagem diferente com as coisas que produzo, porque sei que depois elas vão reverberar por muito tempo. Passei a produzir coisas mais positivas. Não que não goste de cantar música triste. No fundo, não gosto tanto assim porque vou ter de as cantar muitas vezes e reviver aquela tristeza não é bom [risos]. Por isso tenho tentado cultivar este lado… não é uma alegria parva, mas um lugar de existência em paz. O álbum, as minhas escolhas de vida giram em torno deste conceito de tentar manter a calma para conseguir viver bem.

Estava a falar do tempo que demora a compor um disco. É cada vez mais perfeccionista?
Tenho tentado deixar as coisas mais naturais. Porque a tendência, quando ficamos mais experientes — e no próximo ano faço 15 de profissão —, é querer fazer o melhor em todos os aspetos. O melhor cenário, o melhor som, o melhor figurino… e é impossível. Com o tempo fui aprendendo a dar oportunidade ao acaso, para que faça coisas maravilhosas. Deixar correr para que o processo seja menos desgastante, para criar de maneira mais saudável. Essa entrega total, esse perfecionismo, essa insanidade que usamos para conseguir chegar a um resultado muito específico… isso tem um preço. Tenho tentado dar o meu melhor e está tudo certo. E o Mário diz uma coisa que passei a repetir para mim: só se mexe no que incomoda. Se não está realmente mau, mais vale deixar a música viver,  deixar seguir. A minha aprendizagem tem sido mais por aí e ficar menos no controlo.

Já deu alguns concertos de apresentação do disco e ainda há datas por marcar — o que pode dizer sobre as próximas datas?
Tínhamos a tournée preparada, mas tivemos que cancelar, adiar, mudar. Aqui em Portugal as casas já estão abertas, no Brasil vamos anunciar daqui a pouco — mal posso esperar, estou muito ansiosa para mostrar o álbum no meu país. Mas, sim, a ideia é continuar a tournée e anunciar aos pouquinhos — com a pandemia é o possível. Mas através das redes sociais é tranquilo e até interessante: tchanan, mais uma data! [risos].

Mallu Magalhães tem 29 anos.

Tocar “Esperança” ao vivo tem sido mais pacífico do que tocar canções mais tristes?
Sim, é isso. É um espetáculo em que a ideia é que a pessoa saia de lá melhor do que entrou. Claro que tem alturas mais tristes, há um momento super dramático em que a pessoa até pode chorar se quiser, mas depois termina bem. Como se fosse um filme com final feliz [risos]. Toco músicas do “Esperança” e outras de outros discos. Acho sempre que é curto, mas não dá tempo para mais, porque se não fica muito longo. 

Tocar no Brasil, em Portugal ou noutro país, é diferente para a Mallu?
A maneira como as pessoas interagem no concerto é diferente, mas essa coisa de tocar num país ou noutro tem mais a ver com o espaço do que propriamente com o país. Por mais que a gente viaje, toda a gente quer consumir e quando gosta fica animado. É meio parecido. Claro que há culturas que são muito mais viscerais, aplaudem e gritam mais. Penso que isso acontece de acordo com o ambiente. Não dá para dizer que os concertos na Europa são mais frios… Por exemplo, um festival à noite vai ser animado em qualquer lugar do mundo. As pessoas vão levantar os braços e interagir. E num auditório, em qualquer lugar do mundo, as pessoas vão agir mais de acordo com o espaço. De uma maneira geral, sinto que como tenho bastante público em Portugal, é muito bom. E vem público português e o brasileiro — sinto que se completam e fico agradecida. É muito bonito para mim estar aqui e conseguir fazer tantas datas. 

Tencionar ficar por Portugal nos próximos anos?
Sim, gosto muito daqui. É calma — por ser uma cidade relativamente pequena para os parâmetros a que estou habituada — mas ao mesmo tempo é grande, tem tudo. Quando digo cidade falo em Lisboa, mas também o País. Conseguimos trabalhar aqui, ir para outros lugares, levar as coisas para a frente, acho que está tudo certo. E tenho viajado bastante por aqui e também pela Europa. Tenho uma vida assim mais ou menos desenhada, gosto muito.

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