Música

Maria Leal: “Só sou excêntrica em palco”

A cantora é uma das artistas que vão subir ao palco no primeiro fim de semana do Arraial NiT, no sábado, 1 de junho.

“Cheira-me a Falso” está a milhas do tema que a tornou famosa numa épica atuação viral no “Você na TV” da TVI. Entre a coreografia e a batida animada, a atuação de Maria Leal promete ser um dos pontos altos do primeiro fim de semana do Arraial NiT, que arranca esta sexta-feira, 31 de maio, no Centro de Cultura Popular de Santa Engrácia, em Lisboa.

A artista sobe ao palco na noite de sábado e sucede a Miguel Azevedo, que será o grande convidado do primeiro dia de festa — saiba mais sobre o Arraial NiT que dura até final de junho e tem entrada gratuita. Um dia antes da festa, Maria Leal esteve à conversa com a NiT para falar não só sobre a expectativa que tem para o arranque das festas populares, mas também sobre a sua experiência em palco.

Passou do anonimato à fama em 24 horas e hoje dá mais de 60 espetáculos por ano por todo o País. Continua a lançar ideias para novos e inusitados temas, trabalha semanalmente nas coreografias que mostra em palco e admite que nunca imaginou que a atuação “nervosa e atrapalhada” na TVI pudesse ter esta repercussão.

Ainda assim, admite que a excentricidade só tem lugar em palco. No estúdio, apesar da ideia que possa passar, não se importa de tocar em temas mais delicados, como em “Traidora”, onde decidiu abordar e retratar relações homossexuais. “Nos tempos que correm, temos de gostar das pessoas por aquilo que elas são e não devido à sua orientação sexual. É isso que quero transmitir”, confessa.

Vai ser uma das primeiras a subir ao palco do arraial da NiT. O que podemos esperar da atuação?
Temos sempre que preparar o concerto porque os públicos são sempre diferentes. É curioso porque não costumo ser das primeiras a subir ao palco, normalmente sou eu a fechar. Quero dar tudo, dar o máximo, até porque em palco sou sempre excêntrica e isso não vai mudar.

Há sempre muitas e animadas coreografias para cada tema. Quem é que as cria?
Trabalhamos muito, treinamos muito com os bailarinos, pelo menos três vezes por semana, sobretudo quando entra alguma música nova, como no caso da “Cheira-me a Falso”. Somos um grupo que já se conhece há algum tempo e assim é tudo mais fácil. Mesmo quando nos enganamos.

E enganam-se muitas vezes?
Quando acontece estamos sempre preparados para não ficarmos a olhar uns para os outros. Às vezes acontece esquecermo-nos de algo, mas não ficamos à toa. O público não nota absolutamente nada. As coisas estão de tal maneira bem-feitas que ninguém repara. Mas nós reparamos.

Falava do público. A Maria Leal tem o hábito de levar os fãs para o palco. Isso corre sempre bem?
Comecei a fazer isso com as crianças, porque estavam sempre na primeira fila a gritar e a chamar por mim. Cantavam a “Dialetos de Ternura” que não acho que seja muito própria para os pequeninos. Quando surgiu a “Tá Demais” comecei a terminar os concertos com os pequeninos no palco, a fazer desse o momento deles. Nesse momento não há Maria Leal, não há bailarinos, são eles os protagonistas.

Mas não são só os pequeninos a subir ao palco…
Pois, por vezes, são uns mais crescidos.

E portam-se mal?
Não, nunca. Não tenho razão de queixa. São uns queridos.

“Cheira-me a Falso” é o tema mais recente. Fala sobre o quê?
Foi uma ideia minha. Quando recebia um elogio, tinha o vício de dizer, entre amigas: “Cheira-me a falso”. Um dia, quando estava em Lisboa com o meu editor e produtor, ele vira-se para mim e diz-me que tinha estado muito bem — e eu saí-me com essa. ‘Olha, tens aí o tema para a próxima música’, disse-me logo.

E teve direito a um videoclipe, onde surge numa gruta, besuntada em lama. Como surgem as ideias para estes vídeos?
Normalmente sou eu programo os vídeos, digo o que quero e o que não quero, trago várias ideias. Neste, especificamente, queria ser uma mulher das cavernas e saiu um bocado ousado, como as pessoas dizem. Dizem que é ousado porque estamos em Portugal, porque se estivesse no Brasil ou nos EUA, era um vídeo completamente banal. Por norma tenho as ideias quanto estou em estúdio. No “Traidora”, por exemplo, cheguei mesmo a mudar o tema devido ao videoclipe. Nesse vídeo queria ser eu a traidora, contrariar a ideia de que as meninas é que são traídas. Queria ser eu a traidora e claro que tinha que haver um casal, mas depois pensei que queria ir mais além disto: em vez de trair com um homem, ia trair com uma mulher. Porquê? Porque nos tempos que correm, temos que gostar das pessoas por aquilo que elas são e não devido à sua orientação sexual. É isso que quero transmitir.

E as pessoas ouvem a mensagem?
Sim, quem está nos meus concertos sabe as letras das músicas todas. E até com esta última, cheguei e já sabiam tudo. Fiquei espantada. Vieram-me logo as lágrimas aos olhos porque sou uma pita chorona. Agradeço às pessoas que continuam a ajudar-me a realizar o meu sonho. E quando me perguntam se prefiro estar num concerto ou ir à televisão, digo sempre que prefiro mil vezes subir ao palco, onde posso ver as emoções das pessoas, que também me transmitem algo.

Quantos concertos dá por ano?
Muitos. Cerca de 60 só em Portugal, mais os que dou no estrangeiro.

E tudo remonta à primeira atuação de todas, no Você na TV, onde estava visivelmente nervosa. Os nervos foram-se?
Que horror. Na altura nem tinha dormido, embora não tivesse problemas com câmaras, mas correu tudo mal. Tinha duas bailarinas que não puderam ir, tive de arranjar outra. Depois também troquei o DJ. Cheguei ali sem conhecer as pessoas e saí-me com aquela dança — e juro que até hoje nunca consegui repetir. Há quem me imite na perfeição, mas eu não consigo. Nos primeiros concertos que dei depois disso, vinham ter comigo e diziam que fiz aquela atuação de propósito. Não foi. O que foi aquilo? Ainda hoje digo que foi uma estrelinha que me ajudou e que tornou aquilo tão viral.

Mas mesmo antes da aparição na televisão, a Maria Leal já cantava.
Cantava em bares, karaoke. Havia um que era em Algés, sempre à sexta-feira, estava sempre lá. E à quinta-feira era na Marina de Cascais. Um dia o meu editor perguntou-me porque é que eu cantava as músicas dos outros quando podia cantar as minhas músicas. E eu disse: “Bora lá fazer isso”.

E assim nasceu a “Dialetos de Ternura”.
Sim, foi a primeira música. E perguntavam-me o que era um entroncamento sem fim e eu dizia-lhes que não fazia ideia. Não fui eu que fiz a letra. Nem sequer perguntei o que era. Cada um interpreta como quer. Eu levo sempre as coisas para o lado bom, faz parte da minha natureza, não gosto de asneirolas, não gosto de atritos. Só sou excêntrica no palco, é essa a minha praia.

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