Música

Marta Pereira da Costa: “Não acreditava que fosse possível fazer disto profissão”

A única guitarrista profissional de fado em todo o mundo atuou nos Tiny Desk Concerts, a 15 de novembro.
Fotografia: Ben do Rosario

Largou o conforto de uma carreira estável na área da engenharia civil por 12 cordas de aço tipicamente portuguesas. A troca, insólita para muitos, nasceu de uma paixão precoce. Marta Pereira da Costa começou a tocar piano aos quatro anos, mas só se cruzou com a guitarra portuguesa aos 18. Não imaginava que se tornaria na primeira mulher a tocar profissionalmente aquele instrumento tipíco do fado.

O seu singular talento levou-a aos famosos e intimistas Tiny Desk Concerts, da rádio pública NPR, dos EUA, no passado 15 de novembro. Acompanhada por João José Pita Junior e Pedro Segundo, na guitarra e percussão (respetivamente), o trio apresentou 5 músicas. Alii, a voz que prevaleceu foi a do instrumento português.

Os palcos norte-americanos não eram desconhecidos para Marta Pereira da Costa. Em 2019, fez uma digressão de nove concertos pelo país, oito deles esgotaram. Embora a sua carreira conte com inúmeros espectáculos além-fronteiras, Portugal não fica aquém no reconhecimento do talento da guitarrista — em 2014, venceu o Prémio Instrumentista da Fundação Amália Rodrigues.

Marta confessa que está cheia de vontade de regressar aos palcos nacionais. “Ando muito por fora — e adoro. Sinto-me super orgulhosa de representar Portugal, a guitarra portuguesa e toda a história que partilho no palco internacionalmente. Mas é ótimo estar em casa e tocar para o nosso público. É algo que pretendo fazer em 2024”.

A instrumentista conta já com vários projetos futuros, que ainda não pode desvendar. Sabemos apenas que envolvem passagens pela Austrália, Turquia, EUA e Brasil. No entanto, adiantou à NiT, em primeira mão, que o concerto de apresentação do disco “Sem Palavras” vai acontecer a 11 de maio, na Casa da Música. Os bilhetes já se encontram disponíveis e os preços começam nos 20€.

Falta apenas marcar o espectáculo para dar a conhecer o álbum em Lisboa, que ainda não tem data fechada. Existe ainda um segundo disco, com lançamento previsto para o primeiro trimestre de 2024, originalmente marcado para 2023, mas que por questões técnicas sofreu atrasos.

Como se apaixonou pela guitarra portuguesa?
Já tocava piano desde os 4 anos e a música sempre foi a minha paixão. Os meus olhos brilhavam cada vez que ouvia uma canção. A minha educadora de infância é que chamou a atenção dos meus pais para começar a aprender. Iniciei com o piano, depois guitarra clássica. Aos 18 anos experimentei guitarra portuguesa, porque o meu pai adora fado gostava que eu a aprendesse, mas confesso que no início não lhe liguei muito. Na altura não adorava ir às casas de fado, acreditava que era para pessoas mais velhas. Mas o que é certo é que quando o meu pai me levou a uma aula com o Carlos Gonçalves, o guitarrista da Amália, fiquei completamente apaixonada pelo instrumento. Emprestou-me logo uma para levar para casa e pedi ao meu pai para continuar as aulas. A partir daqui, nasceu um fascínio gigante. Ir às casas de fado, conhecer os fadistas, perceber o reportório que os guitarristas tocavam… Senti uma enorme vontade de aprender para ontem.

Como surgiu esse gosto pela música?
Desde que me lembro existir, sempre quis aprender e entender todos os instrumentos. Cada vez que vejo algum que desconheça, quero experimentá-lo e saber como se faz, sempre tive essa curiosidade enorme. A música mexe muito comigo, sou muito emotiva quando a ouço. Julgo que tem a ver com a minha maneira de ser, nasci assim.

Marta Pereira da Costa irá lançar novo disco em 2024.

Tornou-se guitarrista profissional ou mantém outra atividade?
Neste momento, toco guitarra portuguesa a tempo inteiro, e faço-o desde 2012. Antigamente, não acreditava que fosse possível ou que soubesse o suficiente para poder fazer disso profissão. Não que agora saiba o suficiente, porque estamos sempre a aprender, mas houve uma dada altura em que tive de tomar uma decisão. Antigamente queria ser pianista, como a Maria João Pires, que era a minha grande referência. Quando descobri a guitarra, deslumbrei-me, até parei com o piano (comecei o sétimo grau, mas depois não terminei, são oito no conservatório). E depois fui tocando, aprendendo nas casas de fado, dava aulas, trabalhava a fazer investigação de engenharia sísmica. Entretanto, surge um convite por parte do meu marido, que é fadista, para gravar um disco com ele.

Na altura, ainda não tocava a tempo inteiro. Como reagiu ao convite?
Era totalmente inexperiente, tocava sempre nas casas de fados com o outro guitarrista que por lá trabalhava. Estava só a aprender e a praticar. Quando surgiu esse convite apercebi-me que seria necessário assumir o papel principal, criar as minhas próprias introduções e acompanhamentos. Acabou por ser um trabalho que me fez crescer e onde aprendi imenso. Aliás, o disco, na altura, venceu o prémio de Melhor Disco de Fado, da Fundação Amália Rodrigues. Marcou-me tanto que decidi que queria fazer disto vida.  Esse foi o momento que me fez arriscar e pensar “não, agora vou largar tudo, vou largar as aulas de piano, vou largar a engenharia e vou-me focar na música e na guitarra portuguesa”.

Sendo mulher, sentiu dificuldades por tocar um instrumento tradicionalmente reservado aos homens?
Penso que isso está relacionado com a tradição. Habituámo-nos a ver homens a acompanharem os fadistas e a tocarem guitarra de Coimbra, que integrava uma data de regras. As mulheres não podiam cantar fado de Coimbra, só os homens, por exemplo. Vem um pouco daí. E é também um instrumento difícil, o que não significa que seja impossível ser tocado por mulheres. Antes de mim, já a Luísa Amaro era instrumentista da guitarra de Coimbra. Quando comecei fui muito bem recebida e ajudada por vários guitarristas. Acredito que se gostarmos muito, conseguimos ultrapassar as dificuldades.

A proximidade aos EUA surgiu por algum motivo em especial, a começar pela atuação no Tiny Desk e os seus vários concertos de sucesso por lá?
Sim. Antes já viajava até aos EUA com outros projetos, mas a partir de 2019 dei início ao projeto de guitarra portuguesa e correu muito bem, na primeira tour. Entretanto, até já arranjei um booker e tenho tido várias marcações. Mais recentemente, a 15 de novembro, aconteceu o Tiny Desk. Quando lá estive nem queria acreditar que aquilo estava a acontecer. Depois de assistir aos vídeos das pessoas, bandas e nomes de top mundial que por lá passaram, claro que, por graça, pode existir o sonho e a ambição de um dia ali tocar… Um dia, no fim de um dos meus concertos, apareceu o programador do Tiny Desk, o Felix Contreras, que me deu um cartão do programa. Disse que adorou a atuação e que queria que tocasse no programa. Fui à lua e voltei! Só agora é que estou a sentir os efeitos, porque quando lá estive fiquei emergida no ambiente, ao ver a estante deles com todas as recordações de quem por lá passou. Aperceber-me de que levei a guitarra portuguesa, um projeto instrumental (estava cheia de medo que as pessoas só gostassem de ouvir voz, é muito mais fácil para o público relacionar-se com alguém a cantar), e estar associada ao fado, onde se costuma perguntar “então, e o fadista?”… Nunca se sabe bem qual é a reação ao defender este instrumento como voz. Quando os vi a dançardm e a sentirem a música, fiquei extremamente feliz. Só agora é que estou a perceber o alcance de tudo isto, desde os contactos que tenho recebido ao carinho. Não podia estar mais feliz. Aliás, não tenho parado de tocar desde que saiu.

O que a leva a misturar géneros musicais tão variados nos seus projetos?
Gosto dessas experiências e daquilo que podemos aprender: a construção, os ensaios, as residências artísticas onde, sem medos, testamos e vemos o que funciona ou não. Sempre sonhei em levar a guitarra mais além, dar-lhe o destaque que merece. Em seguida, fazer essas parceiras, fusões, ir para outros ambientes e sonoridades. Procurar parcerias com instrumentos que conversem com ela. Desejo isso ao longo dos próximos anos. Quero muito conhecer outros instrumentos, fazer a conversa da guitarra com os instrumentos que ainda não experimentei, com vozes que sejam diferentes. A ideia passa por levá-la para o mundo e trazer-lhe um pouco do mundo, para ganhar essas influências, também – nunca perdendo, claro, as raízes e aquilo que lhe é tão característico. Romper barreiras e unir fronteiras, é o meu lema.

Procurou colocar em prática esse lema, quando lançou o seu primeiro disco, em 2016, com várias colaborações?
Fui buscar as minhas grandes referências. O Rui Veloso que ouvia desde sempre e que tocava em casa, na minha adolescência; a Dulce Pontes que sempre considerei “a grande voz”; o Camané é a minha referência no fado. Conseguir ter esses três grandes nomes da música no meu disco de estreia foi incrível. Tive também a possibilidade de abrir portas para o mundo ao gravar um tema com a Tara Tiba, uma cantora iraniana que vive na Austrália, do outro lado do mundo. Ter conhecido o Richard Bona, que é um dos melhores baixistas do mundo, e ter atirado o barro à parede, sem medo. Ele achou graça e disse: “Sim, vamos para a frente e vamos fazer”. Ganhei um amigo, uma experiência inesquecível.

Como tem sido conciliar tanto trabalho lá fora e deixar por cá a família e os amigos?
A palavra é: desafiante. É muito excitante e entusiasmante, gosto muito de viajar, de conhecer países novos e sinto-me mesmo orgulhosa cada vez que o faço, quase como se fosse uma embaixadora. No entanto, continua a ser duro. Por exemplo, nessa digressão de 2019 — a minha primeira grande ausência … estive vinte e tal dias fora. Como quis marcar entrevistas, fui primeiro, sem a minha equipa. Com os nervos e a pressão que tinha sido organizar esta tour, desatei a chorar no avião. Era um choro nervoso, porque estava prestes a concretizar um sonho. Embora seja difícil e exija muito trabalho, a sorte trabalha-se. Estou feliz por fazer aquilo que mais gosto e por estar tudo a correr bem, sinto-me agradecida. Penso que se trata também do retorno do esforço e empenho. Vale sempre a pena dedicarmo-nos de corpo e alma.

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