Música

Massive Attack: subiram ao palco os ativistas, faltaram os intérpretes

Na noite do terceiro dia do Primavera Sound, os britânicos transformaram o palco numa plataforma política, mas não conseguiram encontrar o equilíbrio perfeito.

Os ecrãs disseram quase tudo antes de a música conseguir dizer o que tinha para dizer. No terceiro e penúltimo dia do Primavera Sound Porto, os Massive Attack chegaram como cabeça de cartaz e fizeram aquilo que já era esperado, ao transformarem o concerto num manifesto político com alvos bem identificados.

Elon Musk, Donald Trump e Benjamin Netanyahu passaram pelos ecrãs, mas o alvo predileto foi a Palantir e o seu CEO, Peter Thiel. Entre uma avalanche de mensagens, imagens de conflitos e problemas humanitários, do Sudão à Palestina, a banda de Robert Del Naja e Grant Marshall voltou a colocar a política no centro da sua avassaladora e eficaz máquina audiovisual.

Os Massive Attack sempre foram uma banda com forte pendor político, uma voz ativa, incómoda e com muito para dizer. O problema é que, desta vez, essa faceta pareceu ganhar terreno a tudo o resto. Até figuras como Elizabeth Fraser e Horace Andy, presenças que carregam parte da identidade do grupo e dos seus icónicos temas, ficaram muitas vezes relegadas para segundo plano.

A plateia estava cheia, como se esperava para o grande nome do dia. Mas também foi ficando claro que nem todos estavam preparados para uma atuação tão pesada no discurso. À medida que o alinhamento avançava, entre “Risingson”, “Black Milk”, “Girl I Love You”, “Hymn of the Big Wheel” e “Take It There”, começaram a surgir sinais de impaciência. Mesmo os mais do que justificados apelos à libertação da Palestina foram perdendo força com a repetição constante.

Para lá da guerra e da vigilância, houve também espaço para a análise dos males de uma sociedade alienada pelos ecrãs e controlada pelos algoritmos. O detalhe curioso estava mesmo ali à frente: enquanto essas mensagens surgiam no palco, parte do público gravava tudo com o telemóvel, provavelmente para depois alimentar as mesmas redes às quais os Massive Attack apontavam o dedo.

A cultura e a música perderam mesmo a sua função política? Talvez. Mas, ao final do dia, o que continua a encher plateias são também os fãs sedentos por ouvir as canções que adoram. E foi precisamente quando as mensagens deram espaço ao som, que os Massive Attack mais brilharam.

“Angel”, “Safe From Harm”, “Unfinished Sympathy” e “Teardrop” lembraram porque é que esta banda continua a ocupar um lugar especial em tantos fãs, apesar de um output criativo em visível desaceleração. Os graves chegaram mais densos, a atmosfera tornou-se mais profunda e a melancolia encontrou finalmente espaço. A voz de Elizabeth Fraser, quando lhe foi permitido, voltou a provar que não precisa de grandes argumentos visuais para suspender uma plateia.

Houve ambição e coragem. Só não houve equilíbrio. Estiveram em palco os ativistas, tiveram falta de presença os intérpretes.

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