Música

A mulher que herdou a fortuna de Freddie Mercury — e que sabe onde está enterrado

Mary Austin foi o primeiro amor do músico dos Queen e deu-lhe a mão na hora da morte. Aos 70 anos, é uma milionária.
Foi a mulher da vida do músico

Freddie Mercury sabia que ia morrer. Semanas antes da morte, confiou a honra de recolher e guardar as suas cinzas a uma mulher que, segundo instruções suas, deveria manter o seu paradeiro totalmente desconhecido. Durante dois anos, a escolhida pelo homem dos Queen guardou os seus restos mortais no seu antigo quarto, até que cumpriu o desejo final: enterrou as cinzas sem nunca revelar onde o fez. O mistério permanece até hoje — e nem os pais de Mercury souberam a morada do local.

Essa mulher foi Mary Austin que, hoje, ainda recebe milhões em nome de Freddie Mercury. Afinal, foi a sua grande herdeira e confidente.

Esta é uma das histórias revisitadas pelo mais recente (mais um) documentário sobre a lenda da música. “Freddie Mercury: Inside His Mind” estreou este domingo, 16 de maio, na plataforma Reelz e foca-se na personalidade ímpar do artista, com a ajuda de um famoso psiquiatra e de relatos de amigos.

O que poucos conseguem explicar é o segredo da química e da relação que se criou entre Mercury e Austin — e que levaram o músico a confiar-lhe quase tudo em vida; e a deixar-lhe também quase tudo na morte. Além da famosa mansão londrina que serviu de casa ao membro dos Queen, recebeu grande parte da sua fortuna e das receitas futuras dos Queen.

Silenciosa e discreta, Austin comemorou há pouco tempo o seu septuagésimo aniversário. Raramente dá entrevistas e nunca revelou os segredos do antigo companheiro e amigo, isto apesar da sua identidade ter regressado aos holofotes depois da estreia do bem-sucedido “Bohemian Rhapsody”, em 2018.

O primeiro encontro

Conheceram-se um ano antes da criação dos Queen, numa loja de roupa onde Austin trabalhava. A inglesa era cinco anos mais nova, nascida numa família pobre do sul de Londres. Ambos os pais eram surdos.

Mercury tornou-se num artista emergente, mas continuou a viver num pequeno apartamento com Austin. Durante seis anos, mantiveram a sua relação como um casal, apesar de nunca se terem casado. “Ele era diferente de todas as pessoas que tinha conhecido até então. Era muito confiante. Eu nunca tive muita confiança. Crescemos juntos”, revelou Austin em 2000.

“Quando tinha 23 anos, o Freddie deu-me uma caixa enorme no dia de Natal. Dentro dela estava outra caixa, e depois outra, mais outra. Era um dos jogos divertidos dele. Eventualmente acabei por encontrar um anel de jade no interior da última pequena caixa”, recordou Austin em 2013 ao “The Daily Mail”.

A inglesa, visivelmente confusa, perguntou a Mercury em que mão deveria colocar o anel. Ele apontou para a esquerda e pediu-a em casamento. “Estava em choque. Não estava nada à espera. Sussurrei ‘sim, caso’.”

Austin diz que viveram a vida como se fossem um casal

Nunca chegariam a casar. Os anos seguintes foram de sucesso mundial para os Queen — que incluiu o êxito “Love of My Life” que, muitos ainda suspeitam ter sido escrito com Austin em mente, mas esse facto nunca foi confirmado pelo próprio. Aos poucos, a relação esfriou.

O grande conflito surge com a grande revelação do grande segredo que Mercury guardava: a sua homossexualidade. “Nunca me vou esquecer desse momento”, revelou Austin em 2013. “Era algo ingénua e precisei de algum tempo para perceber o que estava a acontecer. Depois senti-me bem, ele sentia-se bem por me ter dito finalmente que era bissexual. Mas lembro-me de lhe dizer ‘Não, Freddie, não acho que sejas bissexual. Acho que és gay.”

A relação amorosa terminou, mas não a relação íntima de amizade que ambos mantinham. Quando se separaram, Mercury comprou uma casa a Austin e contratou-a como assistente pessoal. E comprou uma mansão para si próprio, junto à da amiga, que haveria de a receber na herança.

Austin continuava a acompanhar a banda e era, para Mercury, a pessoa mais importante do grupo.

A morte de Freddie

Os anos seguintes lançaram Mercury numa vida de excessos de sexo, drogas e rock’n’roll, que trilhou uma vida longe de Austin, apesar de ser ela sempre a sua ligação à terra. A britânica também não ficou parada: casou e viveu a sua vida, apesar de ter sempre acompanhado o líder dos Queen.

Quando Mercury foi diagnosticado com HIV, em 1987, Austin estava ao seu lado, mesmo com filhos para criar e grávida do segundo filho. Mercury foi, aliás, padrinho de Richard, o primeiro.

Apanhado na epidemia de SIDA, Mercury ficou cada vez mais fragilizado e acabaria por morrer a 24 de novembro de 1991. Ao seu lado estava, claro, Mary Austin — como sempre esteve.

“Quando ele morreu, senti que tínhamos vivido um casamento. No melhor e no pior, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. Era impossível afastares-te do Freddie a não ser na morte e mesmo aí foi difícil”, revelou Austin anos depois da morte.

A lealdade não foi esquecida por Mercury no testamento tornado público em 1992. A Austin deixou a casa de Garden Lodge, onde morreu, avaliada em mais de 20 milhões de euros, além de metade de toda a sua fortuna.

Mais: Austin teria direito a uma percentagem das receitas futuras de direitos de autor. Isso significa que teve direito a uma fatia dos lucros de “Bohemian Rhapsody” ou do musical “We Will Rock You”, entre muitos outros geradores de dinheiro.

Isso não tornou a sua vida mais fácil. “Os meses seguintes à morte do Freddie foram os mais solitários e difíceis da minha vida. Custou-me muito aceitar que ele tinha ido emboora e que me tinha deixado tanto”, revelou.

Mercury foi padrinho do primeiro filho de Austin

O testamento surpreendeu Austin, mas também os amigos e familiares do músico, que nunca entenderam o motivo da decisão. Ainda assim, antes de morrer em 2016, a mãe de Mercury revelou publicamente que estava em paz com a situação.

“A Mary era adorável e vinha muitas vezes comer a nossa casa. Teria adorado que se tivessem casado e tivessem vivido uma vida normal, que tivessem filhos. Mas mesmo quando se separaram, sabia que ela continuava a gostar do meu menino. Foram amigos até ao fim”, revelou ao “Daily Telegraph”. Sobre a herança, foi perentória: “Por que não? Ela era como se fosse da família e ainda o é.”

Austin ainda hoje mora na casa onde Mercury morreu, apesar de o ter tentado convencer, antes da morte, a transformá-la num memorial. Acabaria por se tornar num símbolo para todos os fãs, que encheram os muros de mensagens — e que Austin limpou a pedido dos vizinhos, numa decisão que não ficou isenta de polémica.

Já com 70 anos, a milionária está hoje divorciada, depois de ter sido casada por duas vezes. É mãe de dois filhos, Jamie e Richard, mas Mercury continua a ter um lugar especial.

“Perdi a minha família quando o Freddie morreu. Além dos meus filhos, ele era tudo para mim.”

Mary Austin em 2020

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